Beatriz Turco de Jesus – Estudante de Relações Internacionais da ESPM e Analista do RAIA
Mariana Oreng – Professora do Curso de Relações Internacionais da ESPM e Coordenador do RAIA
Raphael Almeida Videira – Professor do Curso de Relações Internacionais da ESPM e Coordenador do RAIA
Inundações no Sudeste Asiático[1], incêndios florestais na América do Norte[2], secas na América do Sul[3] e calor extremo na Península Ibérica em 2024[4]. Em 2025, desastres naturais causaram prejuízos superiores a R$730 bilhões no mundo[5]. Aproximadamente 17.200 pessoas morreram em decorrência de estresses climáticos[6], termo que engloba a incapacidade de adaptação de sistemas sociais e biológicos a eventos extremos, e 53,55 milhões foram afetadas em todo o mundo[7]. Segundo a Agência Brasil, o ano de 2025 foi o terceiro ano mais quente da história, com a temperatura média global atingindo 1,47 °C acima dos níveis pré-industriais[8]. Diante desse cenário, questiona-se: será que a normalização dos desastres climáticos os torna mais passíveis de esquecimento e benevolência? Seria esse o novo normal?
Segundo Nye (2004)[9], a influência de um país no sistema internacional depende não apenas do poder militar, mas também da sua capacidade de atrair e cooperar com outros atores. Entretanto, essa visão de cooperação está em retrocesso. No Global Risks Report (2026)[10], é nítido como a crise do multilateralismo e a ascensão do protecionismo prejudicam o combate à crise climática. Em um cenário de constante instabilidade na ordem internacional, as potências priorizam interesses próprios em detrimento da ação coletiva. Ao analisar a volatilidade climática somada à crise do sistema internacional, percebe-se que o risco reside, fundamentalmente, na perda de previsibilidade nas ações e decisões dos Estados. Um exemplo desse desafio crescente é a COP 30, realizada no Brasil que não houve avanços consideráveis, sem resultados firmes[11].
A crise climática atua como um disseminador de riscos econômicos que atinge de forma desproporcional principalmente as nações agroexportadoras, pois suas economias dependem diretamente da estabilidade ambiental. Segundo o Instituto Humanitas Unisinos (IHU), estima-se uma queda de 24% na produção global de alimentos até o final do século XXI[12]. Essa é uma realidade que já pode ser sentida por esses países dependentes de commodities: eventos climáticos extremos têm dificultado a produção agrícola, resultando em quebras de safra que alteram o equilíbrio das exportações. O azeite, mel, uva, arroz e soja são alguns exemplos de produtos que sofrem os efeitos das mudanças climáticas, assim fazendo com que estes cheguem mais caros à mesa do consumidor[13]. O Brasil é um reflexo claro desta “nova dinâmica global”, onde a dependência do agronegócio expõe o país a riscos econômicos e alimentares.
Essa instabilidade do sistema internacional reflete diretamente na economia nacional, especialmente no setor que representa cerca de 25% do PIB: o agronegócio[14]. Desde a década de 1970, o Brasil vem se consolidando como um dos maiores produtores agrícolas do mundo[15]. Em 2025, o agronegócio brasileiro registrou um novo recorde, com exportações totalizando US$169,2 bilhões[16]. O aumento de 11% na demanda chinesa, a diversificação de mercados e a safra recorde de grãos de 2024/2025 são alguns dos pilares desse desempenho[17]. Entretanto, esse crescimento poderia ser ainda mais expressivo se não fossem os desastres climáticos que assolam o território nacional. Secas severas, ondas de calor e tempestades afetaram mais de 336 mil pessoas no país e causaram um prejuízo econômico de cerca de R$3,9 bilhões apenas em 2025[18]. Esses dados evidenciam que o sucesso econômico brasileiro está refém da instabilidade ambiental.
As mudanças climáticas afetam os stakeholders tanto no curto quanto no longo prazo. A variação dos sistemas naturais impacta a estrutura produtiva, a cadeia de suprimentos e os custos operacionais. Eventos hidrológicos extremos, por exemplo, causam atrasos logísticos e gargalos nas cadeias de valor. Na realidade, esses eventos se mostram na interrupção de rotas comerciais críticas, como no Canal do Panamá e no Mar Vermelho, assim forçando o redirecionamento de navios para trajetos mais longos, elevando drasticamente os custos de logística e transmitindo estes aos stakeholders e consumidores[19]. A crise hídrica no Brasil obriga o acionamento de fontes de energia mais caras (como as termelétricas), eleva as despesas operacionais das empresas e reduz a competitividade internacional[20]. Esses episódios elevam a volatilidade do mercado e os riscos financeiros, uma vez que aumentam os custos com seguros e adaptação climática[21]. De acordo com o World Economic Forum (WEF), os riscos climáticos podem reduzir os lucros do setor privado em cerca de 7% até 2035[22]. Consequentemente, a pauta ambiental deve se tornar uma preocupação central para esses grupos de interesse.
Há uma divergência profunda na percepção da severidade da mudança climática. O relatório do WEF aponta que, no curto prazo (2 anos), o risco de “eventos climáticos extremos” sofreu a maior queda no ranking, evidenciando que o tema não possui a devida atenção por parte da sociedade civil e dos líderes mundiais. Esse dado alarmante está relacionado ao avanço do protecionismo e à escalada de confrontos geopolíticos. No entanto, no longo prazo (10 anos), o clima permanece no topo como a ameaça mais severa à estabilidade internacional. Essa disparidade, por muitas vezes, pode ocultar um protecionismo comercial por parte dos Estados, onde barreiras são impostas à objetivos de preservação ambiental[23]. Conforme aponta o IPEA, essa disparidade de percepção e incerteza dificulta a coordenação multilateral necessária para uma resposta efetiva à crise climática[24]. Consequentemente, a queda na preocupação imediata com o clima não demonstra uma melhora real, mas sim uma banalização desse problema.
Finalmente, a instabilidade ambiental consolidou-se como um agente de risco, capaz de desencadear crises fiscais, inflação de alimentos e conflitos por recursos que se tornaram cada vez mais escassos. A inevitável crescente vulnerabilidade prova que nenhum Estado está imune à desestabilização dos mercados. Em suma, a segurança global permanecerá em risco enquanto houver imprevisibilidade, permitindo que a crise climática ultrapasse qualquer fronteira.
[1] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/inundacoes-no-sudeste-asiatico-deixam-mortos/
[2] Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/04/22/incendios-florestais-na-america-do-norte-estao-queimando-por-mais-horas-a-cada-dia.ghtml
[3] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2024/11/entenda-o-problema-das-secas-historicas-que-atingem-paises-da-america-do-sul.shtml
[4] Disponível em: https://www.metropoles.com/mundo/peninsula-iberica-em-alerta-maximo-devido-a-onda-de-calor-e-incendios
[5] Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/clima-extremo/noticia/2025/07/29/desastres-naturais-ja-causaram-mais-de-r-730-bilhoes-em-prejuizos-no-mundo-em-2025-aponta-pesquisa.ghtml
[6] Disponível em: https://conhecerseguros.com.br/desastres-naturais-somam-us-224-bilhoes-em-perdas-globais-em-2025-e-expoem-avanco-de-riscos-climaticos/#:~:text=No total%2C cerca de 17.200,da média de dez anos
[7] Disponível em: https://ourworldindata.org/grapher/total-affected-by-natural-disasters?time=2025
[8] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-01/ano-de-2025-esta-entre-os-tres-anos-mais-quentes-registrados-no-mundo
[9] Disponível em: NYE, Joseph S. Soft Power: the means to success in world politics. New York: PublicAffairs, 2004
[10] Disponível em: https://www.weforum.org/publications/global-risks-report-2026/
[11] Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2025/11/qual-e-o-resultado-da-cop30-do-brasil-na-amazonia-especialistas-explicam-o-veredicto-em-5-pontos-chave
[12] Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/653609-crise-alimentar-climatica-estudo-alerta-queda-de-24-na-producao-global-de-alimentos-ate-2100
[13] Disponível em: https://www.brasilagro.com.br/conteudo/eventos-climaticos-extremos-dificultam-producao-agricola-no-mundo.html
[14] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/a-forca-do-agro-na-economia-brasileira/
[15] Disponível em: https://www.embrapa.br/visao/trajetoria-da-agricultura-brasileira
[16] Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/agronegocio-brasileiro-fecha-2025-com-recorde-em-exportacoes-de-us-169-bilhoes-e-superavit-de-us-149-07-bilhoes
[17] Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/agronegocio-brasileiro-fecha-2025-com-recorde-em-exportacoes-de-us-169-bilhoes-e-superavit-de-us-149-07-bilhoes
[18] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-02/desastres-climaticos-afetaram-mais-de-336-mil-pessoas-no-pais-em-2025
[19] Disponível em: https://unctad.org/publication/navigating-troubled-waters-impact-global-trade-disruption-shipping-routes-red-sea-black
[20] Disponível em: https://assetfront.arquivosparceiros.cloud.itau.com.br/ISG/brasil-escassez-hidrica-e-seus-impactos.pdf
[21] Disponível em: https://www.anpec.org.br/encontro/2025/submissao/files_I/i11-94d6847c1285456ae0cd194d0ff28829.pdf
[22] Disponível em: https://reports.weforum.org/docs/WEF_Global_Risks_Report_2026.pdf
[23] Disponível em: https://aprosojabrasil.com.br/comunicacao/blog/noticias-brasil/2024/06/03/e-protecionismo-comercial-disfarcado-de-preservacao-ambiental/
[24] Disponível em: repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/524471b1-7355-45a0-b5a0-e2507c9b6042/content
