Do pessimismo em torno dos relacionamentos à IA remodelando a cultura, o ciberetnógrafo Ruby Thelot explica à WIRED por que as pessoas estão dando importância demais ao que viraliza.
NA ÚLTIMA década nas redes sociais, Ruby Thelot tem feito a si mesmo as mesmas perguntas quando se depara com conteúdo viral online: isso é um anúncio? Essa conta é real? Isso é uma tendência de verdade ou apenas um acaso?
Embora tendências como “6-7” e “looksmaxxing” tenham recentemente saído de suas bolhas, nem todo termo novo ou fenômeno subcultural tem real poder de permanência no mainstream. Lembra quando, em anos passados, os “tech bros” tentaram fazer os NFTs virarem moda? Ou aquele período em que aplicativos de chat por áudio, como o Clubhouse, eram vendidos como o futuro das redes sociais, mas rapidamente perderam força? (Uma previsão à qual a WIRED também não ficou imune.)
Thelot, ciberetnógrafo e pesquisador de teoria da mídia na NYU, diz que superestimar tendências acontece porque a internet se tornou “balcanizada”, com cada um de nós em sua própria “ilha digital”, onde a maioria dos fenômenos aparentemente virais é, na verdade, apenas resultado de consumo forçado pelo algoritmo. É aí que a viralidade existe principalmente hoje: entre províncias, não entre as massas.
O livro de Thelot, In Defense of Being-On-Line, será lançado neste outono no hemisfério norte. A WIRED conversou recentemente com ele sobre por que a viralidade pode ser uma métrica ultrapassada para entender tendências, o mito do esgotamento nos relacionamentos e o que a popularidade dos mercados de previsão realmente sinaliza.
Esta entrevista foi editada por concisão e clareza.
JASON PARHAM: Ao determinar se uma tendência é real, o problema hoje é que confundimos engajamento de curto prazo com adoção de longo prazo?
RUBY THELOT: O problema da nossa tentativa de entender a cultura é que aquilo que antes era um bom indicador — a viralidade — tornou-se um objetivo em si. A lei de Goodhart [formulada pelo economista britânico Charles Goodhart] nos diz que, quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida. Então as pessoas passam a arquitetar conteúdo e mídia simplesmente para atingir o objetivo de ter muitas visualizações, sem pensar no valor inerente real daquilo. E é esse valor inerente que de fato dá permanência cultural. Como estamos profundamente imersos na lei de Goodhart em termos culturais, é possível fabricar viralidade sem que ela jamais se traduza em cultura.
O esgotamento nos relacionamentos tem recebido muita atenção nos últimos anos, o que levou aplicativos de namoro a se reposicionarem em torno da IA. Em maio, o Bumble anunciou que estava matando seu recurso de swipe para atrair usuários de volta. Mas você diz que a narrativa em torno desse esgotamento é uma miragem.
O heteropessimismo vem sendo relatado desde 2019 e diz respeito ao mal-estar geral que mulheres hétero sentem ao namorar homens hétero. O que me interessou nisso é que, claro, existe um grupo de pessoas que realmente se sente assim.
Uma amiga escreveu recentemente um ensaio no New York Times, “There’s Nothing Wrong With Wanting Men” (“Não há nada de errado em querer homens”), que era mais uma peça hetero-otimista, e ela precisou fazer isso porque havia uma sensação de mal-estar. Nós analisamos publicações nas redes sociais. Eu observei Instagram e TikTok, cerca de 1.000 vídeos que tinham mais de 1 milhão de visualizações. Queríamos saber: qual é a porcentagem de conteúdos que são realmente negativos?
O que os dados mostraram?
Ficou em torno de 25%. E eu queria comparar: existe uma plataforma mais negativa que a outra? Estou tentando identificar as diferentes ilhas digitais e ver se há uma área para onde esse tipo específico de comentário está sendo enviado e onde ele é especialmente mais negativo — como o X, que tem um algoritmo mais complicado, no qual as coisas tendem a ser um pouco mais negativas. Então acredito que o heteropessimismo é um pouco inflado por escritores de cultura, e digo isso como alguém que escreve para revistas.
Uma indústria muito querida no momento são os mercados de previsão. Na Kalshi e na Polymarket, multidões de jovens apostam em tudo, da apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl aos incêndios florestais no Oregon. O que essa adoção ampla sinaliza?
Passei algum tempo estudando grupos de homens jovens que negociavam meme coins de 2020 a 2024. Era um tipo de atividade semelhante; em grande parte, é jogo de azar. O que descobri foi que, muitas vezes, a atividade de apostar não era uma atividade individual. Ela tendia a acontecer nesses grupos de conversa, carinhosamente chamados de “as trincheiras”, nos quais você e seus amigos trocavam informações e negociavam juntos. E, mais do que isso, perdiam juntos.
Quando penso na epidemia de solidão masculina, isso era uma forma um tanto distorcida, mas interessante e nova, de vínculo entre homens. Com os mercados de previsão, penso neles não apenas como instrumentos financeiros, mas também como uma ferramenta de participação. Os consumidores não querem mais apenas consumir passivamente; eles querem participar da cultura.
Então eles compram uma participação na cultura como forma de participar?
Mas eu nem acho que a recompensa financeira seja o que leva as pessoas a apostar. Se você passa oito horas diante da tela, a pergunta não é “Como faço dinheiro com isso?”. É “Como fico mais perto disso?”. A aposta, na maior parte das vezes, não importa. Como vivemos em um mundo altamente financeirizado, o que importa é a proximidade com a mídia — e você se aproxima por meio do ato de arriscar dinheiro ou apostar.
A IA está remodelando a cultura na velocidade da luz. Qual previsão sobre ela você acha que as pessoas vão rir daqui a 10 anos?
Não acho que a IA vá acabar com o mundo. E o motivo é que não acho que a inteligência seja tão importante assim.
Em que sentido?
A maioria dos nossos problemas no mundo não está limitada por falta de inteligência, mas pela promessa de cooperação, coordenação e, essencialmente, alinhamento de grandes grupos de pessoas em torno de um objetivo comum compartilhado. Essa é a primeira parte. A segunda é que, quando você começa a quantificar coisas específicas, mais uma vez a métrica se torna o objetivo em si.
A crença de que a inteligência é a coisa mais poderosa vem da suposição de que existe um grupo de pessoas no planeta que são as mais inteligentes. Sir Francis Galton, o pai da eugenia, também acreditava nisso. Com a IA, essas pessoas estão apenas projetando aquilo que valorizam em si mesmas sobre a superinteligência. É filosoficamente frágil e, na verdade, bastante perigoso.
Por que perigoso?
Nesse processo, você fecha as portas para uma enorme variedade de valores inexplorados — inteligência emocional, inteligência corporal, inteligência artística. Esse é um conceito sobre o qual fala o filósofo francês Gilbert Simondon. A cada novo avanço, certas coisas ficam para trás. E acho que talvez estejamos deixando para trás todo um conjunto de inteligências alternativas, profundamente humanas, que não são medidas nem quantificadas pelos nossos sistemas atuais.
https://www.wired.com/story/youre-thinking-about-online-trends-all-wrong
