No último dia 7 de agosto, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram, em Meca, um inédito acordo trilateral de defesa mútua que estabelece que um ataque armado contra qualquer um dos três países será considerado uma agressão contra os demais. Batizado de Acordo de Defesa Conjunta de Meca, o pacto possui um peso simbólico enorme, além de impactos concretos para a região, consequências da guerra contra o Irã iniciada em fevereiro.
O leitor atento se lembra que as relações entre esses países não são novas. Em janeiro, escrevemos aqui sobre a formação de dois novos blocos no Oriente Médio. Um desses blocos tripartites é formado por Israel, Emirados Árabes Unidos e Índia. O outro, por Arábia Saudita, Turquia e Paquistão. Agora, um bloco formalizado como uma aliança defensiva, que prevê até mesmo um secretariado permanente.
As relações entre sauditas e paquistaneses remontam aos anos 1960, e a monarquia árabe teve papel essencial no financiamento do programa nuclear paquistanês, o único país de maioria muçulmana com armas nucleares. Já Turquia e Paquistão também nutrem uma aliança por décadas, inclusive em momentos em que ambos os países foram ditaduras militares. Ao ponto que, por décadas, o Paquistão se recusou a reconhecer a República da Armênia como um Estado independente, por solidariedade com a negação do Genocídio Armênio.
A novidade é a aproximação, nos últimos anos, entre Turquia e Arábia Saudita. As relações entre os dois países viveram altos e baixos, tanto históricos quanto recentes, como o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashogi em 2016. Crime cometido no consulado saudita de Istambul e possivelmente à mando do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, o verdadeiro mandatário do seu país.
O acordo reúne o maior exército da Otan, excluídos os EUA, a única potência nuclear de maioria islâmica e o terceiro maior importador de armamentos do mundo, além de centro financeiro e potência energética. As possibilidades de aprofundamento e de cooperação militar são enormes e vão além da clássica defesa coletiva. Hoje, a base industrial militar turca é um pilar da economia de seu país.
A formalização dessa aliança tripartite, que pode vir à incluir o Egito no futuro, possui diversas origens e implicações. Uma das origens mais claras está na guerra contra o Irã. Os três países citados possuem fronteiras com o Irã. No caso dos sauditas, fronteiras marítimas. Os sauditas também foram atingidos pelo Irã e seus aliados houthis, ao ponto em que forças paquistanesas se deslocaram para auxiliar na defesa árabe. Agora, os custos das ações iranianas podem ficar mais caros.
A guerra contra o Irã não está apenas nas origens da aliança, mas também nas implicações. É um recado claro para Washington. Além das dinâmicas regionais, os países sinalizam que compreenderam que precisam tomar as rédeas da sua segurança regional e que não podem mais confiar nos EUA como um fator de estabilidade ou de proteção, especialmente no caso saudita, que se viu colocada em segundo plano na guerra contra o Irã.
Nem tudo são rosas, entretanto. A assinatura em Meca possui enorme peso, como uma aliança entre países de maioria sunita, mas também remete ao maior obstáculo para as boas relações entre Turquia e Arábia Saudita: o capital simbólico religioso, disputado entre os dois. Resta ver quais serão as reações dos outros países da região. Especialmente significativo, entretanto, é o silêncio da Casa Branca.
