IA tem potencial de automatizar 56% das horas de trabalho no país

O uso de inteligência artificial, agentes de IA e robôs teria o potencial de automatizar 56% das horas de trabalho no Brasil e 57% na América Latina. Embora esses percentuais estejam próximos aos observados em economias mais avançadas, a região concentra uma parcela maior de atividades que exigem trabalho físico, o que implicaria maior uso de robôs e elevaria o custo da automação. Esse fator, somado aos salários mais baixos pagos nessas ocupações, no entanto, pode reduzir os incentivos econômicos e desacelerar a adoção dessas tecnologias na região.

Esses dados estão no novo relatório “Agentes, robôs e nós”, do McKinsey Global Institute, obtido com exclusividade pelo Valor.

Segundo o estudo, a concretização desse potencial de automação poderia gerar cerca de US$ 450 bilhões ao ano na América Latina até 2030. No Brasil, o potencial estimado é de US$ 135 bilhões, com o país representando a segunda maior oportunidade da região entre os 15 países analisados.

“Esse potencial técnico costuma ser mal interpretado. Ele não representa uma previsão de perda de empregos. O que indica é o quanto o trabalho poderá ser reorganizado”, diz Tracy Francis, sócia sênior e diretora-geral para a América Latina da McKinsey & Company. “A maioria das ocupações combina tarefas que as máquinas conseguem executar com outras que continuam dependendo das pessoas.”

O relatório enfatiza que não existe uma única trajetória de automação na América Latina. Em países com economias mais voltadas para serviços, como Costa Rica e Panamá, a tendência é de uma adoção mais rápida de agentes de IA. Já em economias maiores e mais diversificadas, como Brasil e México, que concentram cerca de 75% do valor econômico potencial da região, deve haver uma combinação maior entre agentes inteligentes e robôs.

Essas diferenças fazem com que a velocidade de disseminação dessas tecnologias, a transformação do trabalho e as competências exigidas dos profissionais evoluam de maneiras distintas. Analisando dados sobre vagas de emprego entre 2023 e 2025 em cinco países da região — Brasil, Chile, Argentina, Colômbia e México —, o estudo mostra que a demanda por competências relacionadas à inteligência artificial cresce duas vezes mais rapidamente na América Latina do que em economias mais avançadas, como os Estados Unidos e alguns países da Europa.

O relatório mostra ainda que cerca de 66% das competências atualmente demandadas pelos empregadores latino-americanos são utilizadas tanto em atividades passíveis de automação quanto em tarefas que permanecem essencialmente humanas. As empresas estão em busca, além das competências diretamente relacionadas à inteligência artificial, de habilidades complementares, como treinamento e capacitação, melhoria de processos, desenvolvimento de software e análise de negócios. São competências, segundo Francis, que ajudam as organizações a incorporar a IA e utilizá-la de forma mais eficaz.

Um dado relevante, segundo o relatório, é que cerca de um terço dos profissionais das áreas de artes, design, entretenimento, esportes e mídia já atua em funções que exigem competências em IA, a mesma proporção observada entre profissionais de computação e matemática. Isso mostra que a demanda por competências em inteligência artificial não está restrita às funções técnicas e já começa a se expandir para atividades criativas e relacionadas à produção de conteúdo. O número de vagas que exigem fluência em IA cresceu quase 11 vezes mais na região latino-americana do que o daquelas que exigem competências técnicas ligadas às áreas de STEM, sigla usada para ciência, tecnologia, engenharia e matemática. No Brasil, houve um aumento de 19,1 vezes no número de vagas que exigem fluência em IA.

O McKinsey Global Institute utilizou ferramentas desenvolvidas em estudos anteriores para medir o grau de exposição das competências à automação e o índice de transformação de competências. Na amostra analisada, todas as 100 competências mais demandadas pelas companhias apresentaram algum nível de exposição às transformações provocadas pela automação.

Francis lembra que a América Latina enfrenta o desafio da desaceleração do crescimento populacional, do envelhecimento da força de trabalho em diversos países e de um histórico problema de baixa produtividade. Elevar o padrão de vida da população dependerá, cada vez mais, da capacidade de integrar pessoas e tecnologia de forma eficiente. “A gente tem um privilégio no momento quando se pensa no mundo. Nunca se teve tanta oportunidade, tanta coisa para pensar e resolver ao mesmo tempo.”

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2026/08/13/ia-tem-potencial-de-automatizar-56-das-horas-de-trabalho-no-pais.ghtml

Deixe um comentário