State Based Armed Conflict

Julia Braz – Estudante de Relações Internacionais da ESPM e Analista do RAIA

Ana Clara Costa – Estudante de Relações Internacionais da ESPM e Analista do RAIA

Mariana Oreng – Professora do Curso de Relações Internacionais da ESPM e Coordenador do RAIA

Raphael Almeida Videira – Professor do Curso de Relações Internacionais da ESPM e Coordenador do RAIA

Há mais conflitos armados simultâneos entre Estados em curso do que em qualquer momento desde a Segunda Guerra Mundial.

É com esse dado que o Global Risks Report 2026 do Fórum Econômico Mundial (WEF) posiciona o conflito armado como o segundo risco global mais provável para 2026, com 14% das menções dos especialistas ouvidos pelo relatório[1]. O Global Peace Index 2025 do Institute for Economics & Peace (IEP), contabiliza 59 conflitos armados estatais ativos, o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com registros de mais de 1.000 mortes em conflito no último ano em 17 países[2]. O conceito é definido como uso da força militar entre Estados, além de englobar outros confrontos pautados nas guerras de procuração (proxy wars), guerras civis com envolvimento externo, golpes de Estado e ataques terroristas de base estatal[1].

O relatório aponta que a lógica da autossobrevivência de Estados e a manutenção de poder são incorporados no sistema internacional atual pautado na Realpolitik, em que os interesses nacionais sobrepõem normas internacionais, enfraquecendo organismos como a ONU e a OMC[1]. Além disso, o relatório destaca que esse risco está fortemente interligado ao confronto geoeconômico, como sanções, controles de exportação e fragmentação de cadeias de suprimentos, tais instrumentos funcionam como substitutos ou como motivadores de conflitos militares. Segundo o IEP, o custo econômico da violência global atingiu US$ 19,97 trilhões em 20242. Quanto mais as potências usam armas econômicas, maior é o risco de escalonamento para o campo militar[1].

No Brasil

O relatório não classifica o Brasil entre os países com alta exposição direta ao conflito armado, pois o país não apresenta nenhum foco ativo de tensão militar. No ranking de riscos nacionais do Executive Opinion Survey (EOS), as cinco maiores ameaças percebidas por executivos brasileiros são a desaceleração econômica, serviços públicos e proteções sociais insuficientes, endividamento (público, corporativo e familiar), crime e atividade econômica ilícita e inflação[1].

A ausência do conflito armado na lista não significa imunidade, é explícito que aos países não alinhados e economias emergentes com moedas fracas, podem enfrentar riscos particulares se não encontrarem novo equilíbrio na reestruturação internacional. O Brasil como uma das maiores economias exportadoras de commodities do mundo, está exposto à volatilidade geopolítica como a oscilação dos preços de matérias-primas (petróleo, grãos, metais), pressão sobre cadeias produtivas globais e instabilidade cambial ligada à fuga de capital em momentos de crise. A Eurasia Group, em sua análise Top Risks 2026, Implications for Brazil, reforça essa vulnerabilidade, o enfraquecimento da demanda chinesa reduz exportações brasileiras de commodities, especialmente o minério de ferro, principal produto exportado pelo Brasil à China, enquanto trajetórias fiscais frágeis deixam o país com espaço limitado para absorver choques externos[3].

O risco de alta relevância na América Latina é a polarização societal, quinta maior preocupação regional1. Embora distinto do conflito armado estatal, o documento aponta que violência interestatal e polarização são riscos interconectados. A polarização societal refere-se ao grau em que diferentes segmentos da sociedade passam a sustentar visões opostas sobre política, valores e ideologia, um processo que corrói a estabilidade social, paralisa a tomada de decisões coletivas e amplia divisões políticas[4]. Já a violência intraestatal são conflitos que ocorrem dentro de um mesmo país, entre grupos internos como; guerras civis, movimentos separatistas, terrorismo de motivação política ou ideológica, e perseguição de governos contra sua própria população[5]. O contexto de crime organizado e violência urbana no Brasil, presente na lista doméstica do EOS como “criminalidade e atividade econômica ilícita”, indica que em outros contextos, tais casos podem evoluir para conflito aberto[1].

Como já afeta empresas e mercados dentro e fora do país?

Conflitos armados perturbam infraestruturas críticas e bloqueiam rotas de transporte globais. Em 2023/2024, a seca no Canal do Panamá forçou a redução de um terço no número de navios em trânsito, elevou custos de frete e gerou escassez de produtos em mercados distantes, como o Reino Unido. O WEF cita o episódio para ilustrar o risco do uso deliberado de bloqueios a vias estratégicas como ferramenta de conflito armado, demonstra o tipo de rompimento que tensões geopolíticas podem amplificar no mercado internacional[6]. Agrava esse cenário o fato de que a resolução de conflitos está no nível mais baixo dos últimos 50 anos, segundo o IEP, apenas 9% dos conflitos encerraram-se por vitória decisiva nos anos 2010, contra 49% nos anos 1970, o que demonstra que as perturbações logísticas e econômicas tendem a ser mais prolongadas[7].

Para empresas brasileiras com presença global, como a Petrobras, esse cenário se traduz em incerteza sobre rotas de exportação, volatilidade no preço do petróleo e pressão cambial. Além dos impactos externos, oscilações no preço internacional do petróleo reverberam diretamente na política de preços domésticos, como ocorreu entre 2011 e 2014 e após a invasão da Ucrânia em 2022[8].

O impacto sobre empresas e mercados internacionais é imediato e complexo, com ameaças militares, agravam os riscos às cadeias de suprimento globais. Os conflitos perturbam infraestruturas, bloqueiam rotas de transporte e forçam reorganizações logísticas com altos custos financeiros. O fornecimento de recursos se torna uma ferramenta estratégica de conflito para imposição de influência, além de afetar diretamente custos operacionais energéticos e propagar rupturas entre relações comerciais entre blocos. Um caso concreto que ilustra essa dinâmica foram os ataques dos EUA e de Israel ao Irã em março de 2026, grandes consórcios de seguros cancelaram apólices contra riscos de guerra e o mercado de Londres expandiu sua lista de zonas de conflito. O prêmio de seguro para uma única viagem pelo Golfo Pérsico chegou a US$ 2-3 milhões para navios avaliados em US$ 100 milhões, quase dez vezes o custo anterior ao conflito, de cerca de US$ 250 mil, o Irã alertou ainda que o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do consumo global de petróleo, havia sido fechado. Ou seja, um único conflito armado foi capaz de ameaçar ao mesmo tempo cadeias logísticas, custos operacionais e o abastecimento energético mundial.[9]

É um risco de curto ou longo prazo?

Os dados do WEF 2026 apontam que o conflito armado entre Estados é, predominantemente, um risco de curto prazo. No ranking de severidade de curto prazo (2 anos), o risco ocupa a 5ª posição2. Já no ranking de longo prazo (10 anos), cai para a 12ª posição2. Essa queda reflete a percepção de que, embora os conflitos em curso sejam urgentes, seu potencial de impacto máximo está concentrado no presente e nos próximos dois anos.

Mas o terreno que torna esse risco possível não desaparece com o fim dos conflitos ativos. A mudança da ordem mundial, o enfraquecimento da legitimação de regras e a desconfiança crescente entre grandes potências são condições persistentes que o sistema internacional atual carrega. O GPI (Global Peace Index) 2025, que mede o nível de paz em 163 países, reforça essa leitura ao apontar que conflitos intraestatais internacionalizados cresceram 175% desde 2010, com 78 países hoje engajados em guerras além de suas fronteiras, sinal de que, mesmo sem conflito direto, nenhum país permanece inteiramente fora do sistema[10]. O conflito armado estatal pode ter seu pico nos próximos dois anos, segundo o WEF, mas a estrutura que o sustenta continua expandindo suas repercussões.

[1] Disponível em: https://www.weforum.org/publications/global-risks-report-2026/

[2] Disponível em: https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2025/06/Global-Peace-Index-2025-web.pdf

[3] Disponível em: https://www.eurasiagroup.net/issues/Top-Risks-2026-Implications-for-Brazil

[4] Disponível em: https://www.carnegie.org/our-work/article/why-polarization-is-a-problem/

[5] Disponível em: https://education.cfr.org/learn/reading/understanding-intrastate-conflict

[6] Disponível em: https://www.weforum.org/publications/global-risks-report-2026/

[7] Disponível em: https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2025/06/Global-Peace-Index-2025-web.pdf

[8] Disponível em: https://cdn.cloud.prio.org/files/31b69202-0728-4852-94e9-a08bdf662fe9/Rustad – Conflict Trends 1946-2024 – PRIO Paper.pdf?inline=true

[9] Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/seguradoras-cobram-4-vezes-mais-em-transporte-pelo-estreito-de-ormuz/

[10]  Disponível em: https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2025/06/Global-Peace-Index-2025-web.pdf

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