Riscos de confronto entre EUA e China só crescem

Financial Times; Quando dois trens estão em rota de colisão, o operador ferroviário os coloca em trilhos diferentes. Infelizmente, na geopolítica cabe aos maquinistas adotar ações evasivas. No caso dos EUA e da China, cada um questiona a habilidade do outro de conduzir trens. A história nos oferece poucas esperanças de que desastres iminentes se resolvem organicamente.

Quando se trata de Joe Biden e Xi Jinping – os dois líderes mundiais que mais precisam se encontrar pessoalmente, mas que ainda não o fizeram desde que Biden assumiu – a ação evasiva é notável por sua ausência, especialmente no caso de Taiwan. Biden sugeriu que os dois países retomem algum tipo de diálogo estratégico. Qualquer conversa rotineira, até aos gritos, seria melhor do que a atual escalada. Mas a China não está interessada. Os EUA precisam primeiro parar com o que o embaixador chinês em Washington chama de “desinformação, informações falsas e mentiras” sobre assuntos internos de Pequim, especialmente sobre Hong Kong e Xianjiang.

Quem pode resolver esse impasse? Pela conceito da Armadilha de Tucídides, de Graham Allison, um poder hegemônico ascendente geralmente colide com o poder hegemônico existente em sua trajetória para baixo. A principal exceção foi a passagem do Reino Unido para os EUA, e mesmo assim por pouco evitou-se uma guerra em várias ocasiões. Mas o passado não oferece nenhuma orientação sobre como evitar o conflito entre dois gigantes em declínio, que sem dúvida é uma descrição melhor da China e dos EUA de hoje. 

O declínio relativo dos EUA é bem compreendido, principalmente por causa de suas divisões políticas. A China, porém, é amplamente vista como programada para dominar o mundo até 2049 – o aniversário da Revolução Chinesa, o que Xi estabeleceu como meta. Mas e se Xi – e o consenso global sobre a ascensão da China – já estiver obsoleto? As chances de a China retomar as altas taxas de crescimento das primeiras duas décadas deste século já estão diminuindo, principalmente por causa do envelhecimento demográfico. 

Além da provável “armadilha da renda média”, Xi acrescentou a estratégia “covid zero”, que está prejudicando o crescimento econômico sem nenhuma vantagem epidemiológica óbvia. Como as vacinas do país são apenas parcialmente eficazes, sua população cada vez mais frustrada não consegue ver um fim dos “lockdowns”. Além da expectativa de crescimento chinês menor, podemos acrescentar agora uma nova preocupação: dúvidas sobre a racionalidade de sua liderança. Nenhum observador da China acredita que a política do covid zero seja inteligente. 

É aqui que entra Taiwan. Xi deixou claro que quer resolver o status da ilha enquanto estiver no poder, o que significa colocá-la sob controle da China nos próximos anos. Como Xi não quer que nada o distraia da conquista de seu terceiro mandato como líder na convenção do Partido Comunista em outubro, isso significa que 2023 deve ser o ano de maior perigo. 

Biden não pode achar que as dificuldades de Vladimir Putin na Ucrânia impedirão a China de agir contra Taiwan. Na verdade, as dificuldades militares de Putin poderão até acelerar o cronograma de Xi, já que os EUA estão tirando lições da Ucrânia para dar a Taiwan uma maior capacidade defensiva. 

Além disso, Xi estará ciente do calendário político dos EUA. Ele poderá ver como menos arriscado avançar sobre Taiwan durante o mandato de Biden do que esperar, digamos, por um eventual presidente Mike Pompeo, ou Ron DeSantis ou Tom Cotton. A retórica de Biden e suas ações nem sempre estão alinhadas. O presidente destruiu a chamada ambiguidade estratégica dos EUA ao declarar que Washington defenderá Taiwan, apenas para ter suas observações “esclarecidas” pela equipe da Casa Branca. Mas as ações de Biden na Ucrânia sugerem uma profunda cautela quanto ao risco de um confronto militar com a Rússia. Essa mesma cautela provavelmente se aplicaria na prática à China. 

O que está claramente ausente é qualquer iniciativa de Xi ou Biden para alterar a narrativa. Em seu aguardado discurso sobre a China em maio, Antony Blinken, o secretário de Estado dos EUA, disse que a China é o único país do mundo com a “intenção” e a “capacidade” de alterar a ordem internacional. Muitos países acrescentariam os EUA a essa lista. Os EUA seguem as regras que criaram apenas quando elas são convenientes aos seus propósitos. De qualquer forma, o governo 

americano deixou claro seu diagnóstico sombrio sobre a China. Assim, a diplomacia americana está concentrada em se aproximar dos vizinhos de Pequim, em vez de pressionar por um diálogo. 

Esse é um caminho perigoso. Mesmo se Blinken estiver certo sobre a intenção da China, isso torna a diplomacia ainda mais importante, e não menos. O custo de um erro de cálculo seria letal – e os riscos apenas aumentam. A conversa telefônica de Biden com Xi nesta quinta-feira poderá ser útil, mas não substituirá um diálogo rotineiro entre EUA e China. Como diz Kevin Rudd, ex-premiê da Austrália, EUA e China são como “dois vizinhos fazendo trabalhos de soldagem numa oficina de fundo de quintal sem calçados com sola de borracha, com faíscas voando por todos os lados… cabos não isolados por todo o chão de concreto molhado. O que poderia dar errado?”. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2022/07/28/riscos-de-confronto-entre-eua-e-china-so-crescem.ghtml

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