Inventora do formato PDF e detentora de softwares como Photoshop e Ilustrator, a americana Adobe está implementando uma nova estratégia para expandir sua base de usuários e atender a requisitos de mercado que contrastam com aqueles que a consagraram.
Fundada no início dos anos 80, na Califórnia, a companhia tornou-se uma força global com ferramentas para produção e edição de fotos, vídeos, ilustrações, documentos e outros tipos de conteúdo profissional. Nos últimos cinco anos, sua receita aumentou de R$ 15,8 bilhões para R$ 23,8 bilhões – média anual de quase 11%. No ano fiscal 2025, encerrado em novembro, o lucro líquido cresceu 28%, chegando a US$ 7,1 bilhões. A projeção oficial é de alcançar faturamento entre US$ 25,9 bilhões e US$ 26,1 bilhões neste ano.
O cenário que propiciou resultados dessa ordem, no entanto, está mudando. Estimulado pelas redes sociais, um contingente crescente de pessoas comuns passou a se dedicar a tarefas criativas, reorientando a demanda para aplicativos simples, que não requerem treinamentos longos ou equipamentos sofisticados. A expectativa é de que a inteligência artificial reforce essa tendência.
“As novas gerações não criam necessariamente no computador, como acontecia antes. Muitos usam o celular e aplicativos móveis”, observa Renata Decoussau, diretora de marketing da Adobe para América Latina. Para alcançar esse público, a companhia tem lançado versões móveis de seus principais programas, como Photoshop e Premiere (de vídeo). O foco está em startups, profissionais liberais, criadores de conteúdo digital e outros que querem produzir com simplicidade, mas buscam resultados originais. “Nossos produtos estão evoluindo para alcançar desde clientes com demandas mais complexas até usuários com utilização mais simples.”
A estratégia combina medidas de longo prazo com ações rápidas que sinalizem o futuro da companhia. É o caso da mostra Adobe Borogodó, que vai até sexta-feira, 8, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. A convite da empresa, 20 criadores registraram suas impressões do Carnaval, incluindo fotógrafos, designers, ilustradores, videomakers, todos com forte presença na internet. “Carnaval também é trabalho”, Decoussau. “Envolve profissionais de várias áreas em numa conjunção de tudo que é criativo. É a maior manifestação cultural do país.”
Idealizado pela agência Sharp, o projeto mostra diferentes manifestações do Carnaval, com registros da festa em várias cidades, incluindo capitais como Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. A exposição tem curadoria do coletivo Batekoo, com apoio da equipe do museu. A Adobe é patrocinadora do MIS. “Apoiamos instituições em várias partes do mundo e essa é nossa primeira iniciativa no Brasil”, informa a executiva.
Ao mesmo tempo em que serve como convite para iniciantes experimentarem os softwares da companhia, a exposição funciona como um lembrete de que a atividade de criação pode ganhar status de arte e chegar ao museu. É um espaço de reflexão e memória cuja proposta é se contrapor ao excesso de informação, à sensação de isolamento e a conteúdos descartáveis.
“Nossa leitura de mundo está muito fragmentada. Antes, havia poucas opções [de conteúdo e mídia], então a maioria das pessoas assistia ou ouvia as mesmas coisas. Hoje é diferente”, diz Decoussau.
Com muito conteúdo à disposição, tempo insuficiente e níveis de atenção reduzidos, o indivíduo acaba se concentrando em bolhas de interesse, o que afeta a composição do tecido social. “Queremos empoderar a criatividade, mas sem deixar de valorizar a capacidade humana de gerar conexões”, afirma a executiva.
Pontos como esse ecoam questões de negócio latentes, como o papel da inteligência artificial. Cresce entre os investidores internacionais o temor de que a lA vá matar a indústria de software ao incorporar mais e mais funções a seus aplicativos. Executivos e analistas dizem que é exagero. Argumentam que grandes companhias não vão substituir softwares complexos, voltados a tarefas críticas, por aplicativos de IA. Recentemente, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, chamou essa ideia de “a coisa mais ilógica do mundo”, como publicou o jornal “The Wall Street Journal”.
Apesar disso, as ações de muitas empresas de software estão caindo. Desde o início do ano, o IGV – fundo que replica o desempenho das principais companhias de software americanas em bolsa – registra variação negativa entre 21 % e 22%. Nos últimos seis meses essa faixa oscilava entre quedas de 3% a 8%. Isso mostra uma piora do cenário.
Para Decoussau, o espaço que a lA vai ocupar no mercado de criação indica muitos cenários possíveis, mas a tecnologia não substituirá o ser humano. “Precisamos brigar pelo nosso lugar à mesa”, “, diz ela, numa frase que também vale para os negócios.
