Anthony Inforçatti Oaks
Núcleo de Estudos e Negócios Americanos – NENAM
Coordenação: Prof. Roberto Rodolfo Georg Uebel
A relação entre os Estados Unidos e o Irã hoje é marcada por uma escalada de tensões que remete tanto ao passado quanto às dinâmicas atuais de poder. Historicamente, os dois países chegaram a ser aliados durante a Guerra Fria, quando Washington via Teerã como um contrapeso à influência da União Soviética. Essa parceria se desfez com a Revolução Islâmica de 1979, que transformou o Irã em um regime teocrático hostil ao Ocidente. Desde então, a política externa americana tem oscilado entre tentativas de contenção e confrontos diretos.
Em 2026, essa relação atingiu um novo patamar de conflito. O presidente Donald Trump confirmou ataques militares contra o Irã, realizados por via aérea e marítima, com o objetivo declarado de “defender o povo americano” e impedir que Teerã desenvolva armas nucleares. Sirenes de alerta chegaram a ser acionadas em Israel, e medidas emergenciais foram tomadas em países vizinhos diante da possibilidade de retaliações iranianas (G1). Além disso, Trump fez um discurso incisivo pedindo que os iranianos assumam o governo e alertando que membros da Guarda Revolucionária e das forças armadas deveriam “abaixar as armas” para evitar “morte certa” (Estadão Conteúdo). “Por 47 anos, o regime iraniano entoou “morte à América” e travou uma campanha interminável de derramamento de sangue e assassinato em massa, visando os Estados Unidos, nossas tropas e pessoas inocentes em muitos, muitos países. Entre os primeiros atos do regime esteve o apoio à tomada violenta da embaixada dos EUA em Teerã, mantendo dezenas de reféns americanos por 444 dias. Em 1983, os representantes do Irã realizaram o bombardeio do quartel da Marinha em Beirute, que matou 241 militares americanos, e em 2000, estiveram envolvidos no ataque ao USS Cole” – Donald Trump em sua fala na declaração. É importante entender que nesse processo histórico em que fez o regime Iraniano converter-se para o lado soviético, foi muito pelo fato de que entre os reféns americanos havia agentes da CIA (EUA) e da MI6 (Reino Unido) incentivando esses protestos contra o regime de Aiatolá Ali Khamenei.
Após décadas de governo da dinastia Pahlavi, o Shá Mohammad Reza Pahlavi manteve uma estreita aliança com os Estados Unidos e o Reino Unido, promovendo reformas de modernização conhecidas como “Revolução Branca”. Essas medidas, embora tenham impulsionado a economia e a infraestrutura, também geraram forte desigualdade social e repressão política, alimentando o descontentamento popular.
A partir daí, o Irã passou a se posicionar como um ator central na geopolítica do Oriente Médio, enfrentando os Estados Unidos em diversos episódios, como a crise dos reféns na embaixada americana em Teerã (1979–1981), que durou 444 dias, e a Guerra Irã-Iraque (1980–1988), marcada por milhões de mortos e pelo uso de armas químicas. Nos anos seguintes, o regime consolidou sua estrutura repressiva e manteve uma postura de confronto contra Washington e seus aliados, reforçando o papel da Guarda Revolucionária como guardiã da revolução islâmica. Esse histórico de tensões explica por que, em 2026, os ataques confirmados por Donald Trump contra o Irã reacenderam memórias de décadas de hostilidade, desde a deposição do xá até os embates diretos e indiretos que marcaram a Guerra Fria e o cenário pós-11 de setembro.
Os ataques, segundo o New York Times, tiveram como foco inicial alvos militares estratégicos, incluindo bases de mísseis e infraestrutura bélica, numa operação conjunta com Israel. Autoridades americanas descrevem dezenas de bombardeios lançados de porta-aviões e bases regionais, sinalizando uma ofensiva prolongada e de grande escala (Garcia). Esse nível de militarização mostra como os EUA utilizam seu poder bélico não apenas para conter ameaças, mas também para tentar enfraquecer o regime iraniano internamente, ao estimular o abandono e aumentar o custo político da repressão. “Nós garantiremos que o Irã não terá uma arma nuclear”, afirmou. “Sempre foi a política dos Estados Unidos, em particular da minha administração, que este regime terrorista nunca poderá ter uma arma nuclear” – fala do presidente Trump.
Do ponto de vista analítico, há sinais de fragilidade no regime iraniano: repressão violenta contra protestos, isolamento internacional e pressão econômica das sanções. No entanto, a queda imediata do governo não é garantida. O Irã ainda possui uma elite política e militar consolidada, além de influência regional por meio de grupos aliados. A ofensiva americana pode acelerar fissuras internas, mas também pode fortalecer o discurso nacionalista iraniano contra “agressões externas”, o que historicamente já ajudou o regime a se manter. Com essa fragilidade do regime Iraniano, o presidente dos EUA, Donald Trump, levou vários recursos militares para o Irã, na qual mostra ainda mais essa fragilidade do governo xiita.
Em resumo, os ataques atuais dos EUA representam uma intensificação da política de contenção e militarização contra o Irã. Eles ampliam o desgaste do regime, mas a possibilidade de queda dependerá da combinação entre pressão externa e mobilização interna da sociedade iraniana. A história da relação entre os dois países (da aliança contra a URSS ao confronto atual) mostra que o equilíbrio de forças é dinâmico e sujeito a mudanças rápidas.
Lentes teóricas explicam a queda do regime Iraniano?
A análise da possibilidade de queda do regime iraniano diante da pressão americana precisa necessariamente mencionar o papel central do Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã desde 1989, assassinado no último final de semana a partir da incursão militar norte-americana. Khamenei era a figura que concentrava o poder político e religioso no país, sendo responsável por definir as diretrizes estratégicas, inclusive na política externa e na postura militar frente aos Estados Unidos. Sua liderança é fundamental para entender por que o regime ainda se mantém, mesmo sob forte pressão internacional e ataques militares, mesmo após a sua morte.
Sob a lente do realismo, a sobrevivência do regime iraniano depende da capacidade de Khamenei, e agora seus sucessores, de mobilizar recursos internos e manter a coesão das forças armadas e da Guarda Revolucionária. Os ataques americanos e o envio de recursos bélicos para a região demonstram a superioridade militar dos EUA, mas a permanência dos sucessores de Khamenei no poder mostra que o regime ainda consegue garantir sua segurança mínima, mesmo em condições adversas.
O neorrealismo reforça essa visão ao destacar que o Irã busca equilibrar o poder contra os EUA por meio de alianças estratégicas com Rússia e China. Essa tentativa de contrabalançar a hegemonia americana é uma forma de evitar que a pressão externa leve à queda imediata do regime.
Por fim, o liberalismo mostra que, apesar da força simbólica de Khamenei, o regime enfrenta sérias dificuldades econômicas devido às sanções e ao isolamento internacional. A deterioração das condições de vida da população aumenta a insatisfação interna e pode minar a legitimidade dos sucessores do líder supremo. Se a crise econômica se aprofundar, mesmo o discurso nacionalista pode não ser suficiente para manter o regime estruturado.
Em síntese, a figura de Aiatolá Khamenei é decisiva para entender a resiliência do regime iraniano. Ele concentrava poder, controlava as forças armadas e moldava a narrativa de resistência contra os EUA. No entanto, a pressão militar americana, combinada com o impacto das sanções e o desgaste interno, colocam em xeque a capacidade do regime de se sustentar indefinidamente. A queda do governo iraniano dependerá da interação entre esses fatores: a força militar dos EUA, a habilidade dos sucessores de Khamenei em manter a coesão interna e a reação da sociedade iraniana diante da crise econômica e política.
Referências:
Estadão Conteúdo. “Trump Pede Que Iranianos Assumam O Governo E Alerta Para “Morte Certa” de Quem Resistir.” Diario de Pernambuco, 28 Feb. 2026, http://www.diariodepernambuco.com.br/mundo/2026/02/11708749-trump-pede-que-iranianos-assumam-o-governo-e-alerta-para-morte-certa-de-quem-resistir.html? Accessed 28 Feb. 2026.
G1, Redação. “Trump Confirma Ataques Ao Irã E Diz Que Objetivo é “Defender O Povo Americano” de “Ameaças Do Governo Iraniano” | G1.” G1, 28 Feb. 2026, g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/28/trump-ataques-ao-ira.ghtml? Accessed 28 Feb. 2026.
Garcia, Gabriel. “Foco Inicial Dos Ataques Dos EUA Ao Irã São Alvos Militares, Diz NYT.” InfoMoney, 28 Feb. 2026, http://www.infomoney.com.br/mundo/foco-inicial-dos-ataques-dos-eua-ao-ira-sao-alvos-militares-diz-nyt/. Accessed 28 Feb. 2026.
