Mudanças climáticas e o encarecimento do chocolate

Julia Mendonça Vieira

Estudante do NENAF

Natalia Fingermann

Coordenadora do NENAF

A África Ocidental é a principal produtora de cacau do mundo. Somente Gana e Costa do Marfim são responsáveis por cerca de 60% da oferta global. Entretanto, as mudanças climáticas vêm comprometendo cada vez mais a produção do insumo na região, o que tem provocado altas históricas nos preços internacionais do cacau, afetando diretamente o bolso do consumidor final.

A publicação “The crumbling empire of chocolate” (UNDP, 2025) alerta que empresa Mondelez International, responsável pelas marcas Milka e Cadbury, prevê a inviabilidade no cultivo de cacau nessas regiões da África em um horizonte de 30 anos, devido às mudanças climáticas. De acordo com os dados levantados, as últimas duas safras já sofreram uma retração, com a previsão de queda ainda de 10% para os anos de 2025 e 2026 (Reuters, 2025). A Costa do Marfim, por exemplo, deve colher aproximadamente 1,6 milhão de toneladas nesta temporada, contra mais de 2 milhões há cinco anos. Em Gana, a queda é ainda mais expressiva, uma vez que a colheita usual de 1 milhão de toneladas reduziu pela metade no último ano.

A primeira consequência da escassez do cacau é a escalada nos preços da commodity no sistema internacional. Os preços globais do cacau quase triplicaram desde 2023, atingindo picos de cerca de US$ 13.000 por tonelada em dezembro, antes de cair para aproximadamente US$ 9.000 em julho deste ano (Bloomberg, 2025; Vesper, 2025). Os contratos futuros de cacau têm apresentado alta volatilidade, refletindo a desconfiança do mercado quanto à capacidade de produção na África Ocidental, onde as condições de plantio vêm se deteriorando gradativamente devido às mudanças climáticas. As recentes chuvas excessivas na região têm facilitado a disseminação de pragas e doenças, como a podridão parda (brown rot) e o vírus do inchamento do cacau (Cocoa Swollen Shoot Virus – CSSV).

A segunda consequência é o impacto que isso gera para o consumidor final de produtos a base de cacau. De acordo com a União Européia, o preço do chocolate e do chocolate em pó aumentou em 16% entre maio de 2025 e 2024, gerando dificuldades para as vendas durante a Páscoa. As empresas do setor buscaram contornar a alta dos preços com a  redução na grama de cada Ovo de Páscoa, além da inclusão de outros insumos na composição dos produtos.

Por fim, a terceira conseqüência é o crescimento da pobreza na África Subsaariana. Ainda que os governos africanos tenham buscado mitigar a crise por meio da atuação de órgãos reguladores, como o Conseil du Café-Cacao (CCC), na Costa do Marfim, e a COCOBOD, em Gana, sabe-se que o pequeno agricultor local é aquele que acaba sofrendo diretamente com a perda da sua produção, uma vez que eles normalmente não conseguem realizar a venda do produto pelo valor fixado no mercado internacional. A disparidade entre o preço pago ao produtor local (farmgate) e o valor praticado no mercado internacional tem ampliado o comércio ilegal de cacau para países vizinhos, como Guiné, Togo e Libéria. Esse fenômeno gera mais conseqüência danosa, que são as perdas significativas de arrecadação fiscal e o comprometimento com a rastreabilidade da produção local.

Com a realização da COP 30 em Belém, estimam que haja uma melhora na produção do cacau. A proposta de a Amazônia expandir a sua produção de cacau orgânico pode reorganizar o preço da commodity no mercado internacional. Entretanto, os problemas presentes no setor cacaueiro de Gana e Costa do Marfim devem ser apontados como um exemplo da necessidade de cumprimento das metas globais ambientais. Governos, empresas e membros da sociedade civil devem criar estratégias que busquem garantir a continuidade desse setor na África Subsaariana de maneira que propague o desenvolvimento econômico e social das populações agrícolas locais.

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