The Economist: Por que cúpulas como a do Alasca prometem mais do que podem entregar?

Se ao menos ele tivesse pensado nisso a tempo. O presidente Donald Trump poderia ter usado sua cor favorita para transformar a base americana em Anchorage, no Alasca, em um novo Encontro no Campo do Pano de Ouro do século XXI, como Henrique VIII da Inglaterra e Francisco I da França fizeram perto de Calais, em 1520. Houve reuniões, banquetes suntuosos, lutas e uma missa solene. Foi um espetáculo maravilhoso, mas que produziu muito pouco. Dois anos depois, Henrique aliou-se ao grande rival de Francisco, o imperador do Sacro Império Romano.

As cúpulas muitas vezes prometem mais do que podem cumprir. Os russos apresentaram a cúpula de Anchorage como uma grande vitória, e talvez para eles seja mesmo, mas os americanos não podem afirmar o mesmo. É claro que haverá mais conversas — Trump se reuniu com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, e uma série de outros líderes europeus na Casa Branca três dias após Anchorage, e Zelenski ainda pode ter uma cúpula bilateral com Vladimir Putin, seguida por uma cúpula tripartite envolvendo Trump também. Mas se este é um processo de paz, ele não teve o início mais auspicioso.

Mesmo as cúpulas mais bem planejadas — e Anchorage não foi — dependem muito da personalidade e da química dos líderes. Com líderes poderosos, os sentimentos são importantes. Uma suposição de superioridade ou, inversamente, orgulho ferido e desejo de vingança podem levar a problemas futuros. Josef Stalin tratou Mao Tsé-tung como um subordinado após a vitória comunista na guerra civil chinesa e o manteve em Moscou por meses antes de oferecer alguma ajuda à China, de maneira relutante.

Isso deixou uma marca duradoura nos chineses e contribuiu para a divisão sino-soviética. Na cúpula de Viena em 1961, Nikita Khrushchev humilhou o presidente John Kennedy. Khrushchev concluiu que Kennedy era um fraco e mais tarde fez a terrível aposta de estacionar armas nucleares em Cuba. Kennedy jurou que nunca mais seria intimidado.

A realização de cúpulas pode sinalizar desprezo — Adolf Hitler convocando o infeliz chanceler austríaco a Berchtesgaden para ameaçar seu país, por exemplo — ou amizade, como Trump aplaudindo a chegada de Putin na pista de pouso em Anchorage. Mas se uma cúpula apenas encobre as diferenças, ela pode levar à guerra em vez da paz.

Napoleão e Alexandre I da Rússia se encontraram em uma jangada no rio Neman, perto de Tilsit, em 1807, para negociar a paz e uma aliança. Eles também dividiram a Prússia, enfurecendo os prussianos, cujo rei, não convidado para a jangada, vagava tristemente pela margem do rio. No entanto, as duas grandes potências nunca resolveram suas diferenças subjacentes. Cinco anos depois de Tilsit, Napoleão invadiu a Rússia.

Em seu primeiro encontro durante a 2ª Guerra Mundial, ao largo de Newfoundland, no verão de 1941, Winston Churchill e Franklin Delano Roosevelt fizeram visitas formais aos navios de guerra um do outro e rezaram e cantaram hinos juntos com seus marinheiros para enfatizar a amizade entre seus países. Eles e seus altos comandantes militares tiveram conversas sérias sobre a guerra na Europa, seu novo aliado, a União Soviética, o agravamento do conflito com o Japão e a forma do mundo pós-guerra. O encontro foi um marco no aprofundamento de uma relação sem a qual a guerra não poderia ter sido vencida.

As cúpulas funcionam quando são sustentadas por objetivos comuns, confiança e compromisso de trabalhar em conjunto. Também ajuda estar bem preparado. Em uma reunião crítica entre Churchill e Roosevelt em Casablanca, em janeiro de 1943, para decidir a estratégia geral para a guerra nos meses seguintes, os britânicos, que trouxeram documentos detalhados e um navio cheio de especialistas, persuadiram os americanos a adiar o desembarque na França até 1944. Como reclamou um general americano: “Nós viemos, ouvimos e fomos conquistados”.

O mesmo poderia ser dito de Anchorage. Foi um triunfo russo e um embaraço americano. Putin não cedeu em nada, nem mesmo em um cessar-fogo — e para os americanos afirmarem que conseguir o grande acordo é mais importante é uma ilusão, já que Putin certamente prolongará as negociações se puder continuar lutando e conquistando mais terras. A sugestão de Trump em reuniões subsequentes com líderes europeus de que os Estados Unidos poderiam apoiar garantias de segurança para a Ucrânia pouco contribuiu para aliviar as preocupações em todo o continente sobre a confiabilidade de seu governo.

Anchorage ainda pode produzir algo útil — levantando a questão de se as cúpulas são a melhor maneira de conduzir as relações internacionais. Muitas vezes, elas são fortemente coreografadas e todo o trabalho real já foi feito. Ou, como aconteceu com Trump, os líderes podem ignorar seus assessores e documentos informativos e se orgulhar de conseguir chegar a um acordo com seus homólogos. Tal improvisação, como Trump demonstrou, pode ser improdutiva ou imprevisível.

As cúpulas aumentaram em frequência desde 1945, em parte porque os líderes, sejam eles de democracias ou ditaduras, gostam delas. Elas são uma distração bem-vinda da política interna: Richard Nixon certa vez cogitou deixar tudo para seu gabinete enquanto lidava com as questões globais que lhe interessavam. Os líderes gostam de sentir que estão fazendo história.

No entanto, muitas vezes os resultados são muito aquém do anunciado. Neville Chamberlain trouxe de Munique um pedaço de papel assinado por ele e Hitler que simbolizava, segundo ele, o desejo de seus dois povos de nunca mais entrar em guerra. Um ano depois, o Reino Unido e a Alemanha estavam em guerra.

Resta saber o que Anchorage e as cúpulas subsequentes desta semana produzirão, além de mais reuniões e, provavelmente, uma guerra contínua. Pressão dos Estados Unidos sobre a Ucrânia para que ela abra mão até mesmo de terras que a Rússia não tomou? Resistência da Ucrânia e das potências europeias? Uma visita de Trump a Moscou? Talvez ainda não seja hora de ele receber o Prêmio Nobel da Paz.

Margaret MacMillan é professora emérita de história na Universidade de Toronto e na Universidade de Oxford, e autora de dezenas de livros sobre as guerras mundiais, entre eles A Primeira Guerra Mundial (Globo Livros) e “How Conflict Shaped Us” (Guerra: como os conflitos nos moldaram).

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