Laura Barreto – Estudante de Comunicação e Publicidade da ESPM e Analista do RAIA
Mariana Bortuluzi – Estudante de Relações Internacionais da ESPM e Analista do RAIA
Mariana Oreng – Professora do Curso de Relações Internacionais da ESPM e Coordenador do RAIA
Raphael Almeida Videira – Professor do Curso de Relações Internacionais da ESPM e Coordenador do RAIA
Em sua definição mais formal, o risco pode ser definido como a probabilidade de eventos (de natureza política, econômica ou outras) poderem causar desvios nos resultados esperados. Os riscos que são avaliados de forma mais comum são os riscos derivados de análises políticas, econômicas ou regulatórias porque eles possuem grande impacto no ambiente de negócios. Esse contexto se insere na crescente preocupação global com a desinformação.
Atualmente, em meio a tantos riscos, o Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum – WEF) fez um relatório, chamado Global Risks Report, no qual classificou “misinformation and disinformation” como um dos principais riscos de curto prazo mundial em 2026. (WEF, 2026).[1]
Ambas as palavras, ao serem traduzidas para o português, podem ganhar o mesmo significado, o que pode levar o leitor a tratar os dois termos como sinônimos. “Misinformation” refere-se, no seu sentido original, a “informação incorreta”, logo, informações que são falsas, mas transmitidas de maneira não-intencional por pessoas que não analisam sua veracidade.
Em contrapartida, “disinformation” refere-se às famosas fake news, mensagens também falsas, porém, espalhadas de maneira proposital por quem as gera (BBC, 2024)[2]. Desta forma, ambas as ações causam impactos significativos na sociedade, ao compartilhar informações que possam prejudicar outros.
A desinformação no Brasil já se manifestou diversas vezes, como na disseminação de informações falsas sobre vacinas, um dos temas mais recorrentes no país. No começo de 2025, um vídeo postado no Instagram e um livro publicado afirmavam falhas nos ensaios clínicos da Pfizer e a criação de uma nova doença, adquirida, segundo tais informações, pela vacinação. As afirmações foram desmentidas pelo próprio governo brasileiro. (Gov.Br, 2025)[3]
Outro caso emblemático foi revelado quando a Globonews fez uma pesquisa e obteve como resultado os temas “Bolsa Família” e “regulação do pix” como mais suscetíveis a fake news no país, além de assuntos relacionados a tributos. (G1, 2025).[4]
O primeiro impacto notável causado pela disseminação de informações falsas se dá diretamente na sociedade, tendo em vista que parte da população passa a moldar sua opinião com base em informações não verificadas, contribuindo para a crescente polarização do debate público. (Banco Central do Brasil, 2024).[5]
Além dos efeitos sobre a opinião pública, a desinformação também provoca consequências diretas no mercado financeiro. As fake news geram um efeito cascata. No mercado financeiro, as negociações das bolsas são realizadas e monitoradas em tempo real por High Frequency Trading (HFT), algoritmos de alta frequência. Ao receberem palavras negativas ou positivas em excesso, tendem a tomar decisões de maneira brusca, sem a verificação humana antes. Desta forma, acionam os stops, que pausam as operações momentaneamente, o que interfere diretamente no preço dos ativos. Por fim, um investidor individual, ao observar a queda abrupta do ativo, interpreta o movimento como sinal de crise real e decide não realizar o investimento (TIME ATIVA, 2026).[6]
Um exemplo de como as fake news interferem diretamente no comportamento dos ativos diz respeito a um evento no ano de 2013. A conta oficial da Associated Press publicou na rede Twitter (X) uma notícia sobre uma explosão na Casa Branca que, supostamente, teria ferido o presidente da época Barack Obama. A conta afirmou ter sido hackeada, mas esse post causou a queda abrupta nas bolsas de valores em apenas alguns minutos, pois os algoritmos do HFT, sem verificação humana, começaram a vender e comprar contratos futuros de diversas empresas. (CNBC, 2013)[7].
Outro exemplo de interferência das notícias falsas na economia ocorreu no fim do ano de 2024, quando fake news sobre taxação do PIX foram espalhadas digitalmente, o que causou efeitos quase imediatos na economia. Nas duas primeiras semanas de janeiro de 2026, as transações via PIX caíram cerca de 15,3% em relação a dezembro (UOL, 2025).[8]Segundo o advogado Ricardo Motta, entrevistado na mesma notícia do UOL, fake news causam danos não apenas à economia, mas também à reputação das empresas e das relações políticas.
Em vista disso, é notável o porquê de “misinformation” e “disinformation” serem um dos maiores riscos atuais não apenas no Brasil, mas no mundo. Considerando que uma simples informação falsa criada e repassada causa danos estruturais e perdas importantes para a sociedade, independente do ramo em que estas fake news são geradas, seja na economia, na política, em questões sociais ou em outras.
Dessa forma, como quem as cria obtém retorno rápido por meio da propagação em redes sociais, a quantidade de fake news espalhadas crescem cada vez mais, como os casos da influência política nas eleições, movimento anti-vacina em épocas da pandemia e a queda nas transferências via PIX. Em questão de semanas muitas pessoas mudam de opinião por não saberem a procedência dessas informações.Diante desse cenário, cabe a cada cidadão desenvolver o hábito de verificar fontes antes de compartilhar informações — prática conhecida como checagem de fatos ou fact-checking. Além disso, nos dias atuais é fácil disseminar fake news, principalmente por conta das redes sociais e das ferramentas de IA, que se tornaram de fácil acesso. No entanto, as plataformas não possuem sistemas de verificação de informação eficazes, o que facilita que informações errôneas sejam espalhadas, e muitas vezes sem consequências para os culpados (UniBrasil, 2025).[9]
Em vista disso, os cenários futuros são desafiadores, considerando que segundo o WEF, o risco será o mais impactante em 2027, devido ao avanço das IAs que, por não possuírem uma regulamentação adequada, contribuem para a polarização.
No Brasil existe uma lei, a PL 2630/2020, que propõe o uso das redes com maior transparência, como forma de combater a desinformação. (Senado, 2020).[10] Entretanto, as tentativas governamentais de equilibrar a segurança com a liberdade de expressão, enfrentam problemas éticos, além de riscos de censura. Para haver uma evolução, é necessário um trabalho conjunto entre governo, sociedade civil e plataformas, para evitar a disseminação das fake news, além de saber discernir o que é falso e o que não é.
[1] Disponível em: https://www.weforum.org/publications/global-risks-report-2026/digest/?gad_source=1&gad_campaignid=22228224717&gbraid=0AAAAeAoVy5F4FDOnR4CvSfh7CZQS_9XCP5&gclid=CjwKCAiAnoXNBhAZEiwAnItcG3gJB3L_7TvwqpD-Wp9caVhro3akPmhf9_Tg3slGKuJMpwk7y62-ORoC7BUQAvD_BwE
[2] Disponível em: https://www.bbc.co.uk/bitesize/articles/z3hhvj6
[3] Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-com-ciencia/noticias/2025/fevereiro/fake-news-sobre-vacinas-entenda-os-perigos-da-desinformacao
[4] Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/02/02/fake-news-sobre-pix-bolsa-familia-e-vacinas-sao-asmais-desmentidas-pelo-governo-lula.ghtml
[5] Disponível em: https://www.bcb.gov.br/noticiablogbc/8/noticia
[6] Disponível em: https://blog.ativainvestimentos.com.br/fake-news-e-o-mercado-financeiro-o-impacto-da-desinformação
[7] Disponível em:https://www.cnbc.com/2013/04/23/false-rumor-of-explosion-at-white-house-causes-stocks-to-briefly-plunge-ap-confirms-its-twitter-feed-was-hacked.html
[8] Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/01/16/fake-news-impacto-economia.htm,/
[9] Disponível em: https://www.unibrasil.com.br/qual-o-impacto-que-a-divulgacao-de-noticias-falsas-causa-em-redes-soci ais/
[10] Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/141944
