A inteligência artificial (IA) começa a produzir efeitos nas empresas familiares brasileiras. Pesquisa da consultoria PwC antecipada ao Valor com 4.400 CEOs em 95 países, incluindo o Brasil, mostra que 30% das organizações de origem familiar, no país, apontam aumento de receita com o uso da IA, enquanto 55% dizem não ter percebido alterações relevantes e apenas 4% registram queda padrão semelhante ao de empresas não familiares: 37%, 55% e 3%, no Brasil, respectivamente.
Em relação aos custos, predomina a estabilidade (45% nas empresas familiares e 48% na média geral), mas 32% das familiares já registram reduções de custos por ganhos de eficiência com a tecnologia, acima da média do país (28%).
Para Helena Rocha, sócia e líder de empresas familiares na PWC, os resultados da inteligência artificial nas empresas familiares indicam uma adoção gradual da tecnologia, com impactos moderados, mais claros na eficiência do que no crescimento imediato.
“A inovação é relevante nas empresas familiares, mas com menor intensidade”, explica, pontuando que 48% a consideram um componente crítico do negócio, abaixo da média nacional (56%). A colaboração externa para inovar também é mais limitada (31% contra 36%), mostra a pesquisa.
“Os mecanismos formais [para inovação] são menos disseminados [nas empresas familiares], com menor presença de centros de inovação e processos estruturados de P&D [pesquisa e desenvolvimento]. A tolerância ao alto risco também é mais baixa, o que indica uma abordagem mais cautelosa e com menor apetite para iniciativas disruptivas”, afirma Rocha.
Quanto aos efeitos da inteligência artificial sobre a força de trabalho, 62% dos CEOs de empresas familiares avaliam, na pesquisa, que suas organizações precisarão de menos profissionais em início de carreira nos próximos três anos, dois pontos percentuais acima da média observada no conjunto das empresas do país. Mais de metade desse grupo espera uma redução superior a 16% nos quadros.
Ao mesmo tempo, 28% projetam necessidade de novas contratações, o que equivale à média do país. Para cargos de nível médio e sênior, os CEOs esperam um impacto menor na redução de pessoal.
Segundo a pesquisa, os CEOs de empresas familiares no Brasil demonstram uma visão predominantemente otimista para os próximos 12 meses, tanto em relação à economia global quanto ao cenário doméstico, embora ainda exista uma parcela relevante de cautela.
Em relação ao cenário global, 48% desses líderes esperam aceleração do crescimento, enquanto 35% projetam estabilidade e 15% preveem desaceleração.
Em relação ao Brasil, as perspectivas são mais favoráveis. A maioria (58%) acredita em aceleração do crescimento econômico, ao passo que 23% esperam estabilidade e 19% antecipam desaceleração.
Rocha comenta que os CEOs de empresas familiares no Brasil entram em 2026 com expectativas majoritariamente positivas, sobretudo em relação ao mercado doméstico. “Apesar desse viés favorável, a confiança na receita é moderada: 42% estão muito ou extremamente confiantes para os próximos 12 meses – acima da média nacional [38%] – e o mesmo percentual se repete no horizonte de três anos, porém abaixo do índice do país [46%]”, diz a sócia da PwC.
Para ela, no curto prazo, os CEOs de empresas familiares no Brasil demonstram confiança moderada no crescimento, enquanto enfrentam múltiplos riscos. “A instabilidade macroeconômica lidera as preocupações do segmento, seguida pela inflação, pela disrupção tecnológica e pela escassez de talentos qualificados”. Outros riscos citados são tarifas e mudanças climáticas e, em menor escala, riscos cibernéticos, conflitos geopolíticos e desigualdade social.
Na pesquisa, 48% dos CEOs de empresas familiares afirmam que suas empresas passaram a competir em novos setores nos últimos anos, “o que sinaliza um ambiente econômico em transformação”, diz Rocha.
“As empresas familiares não buscam somente os resultados trimestrais, mas o crescimento de longo prazo, a longevidade e a perpetuidade de seus negócios e das novas gerações, reinvestindo grande parte dos resultados e assumindo riscos de longo prazo.”
Os CEOs de empresas familiares dizem que 56% de suas agendas é dedicada a tarefas de curto prazo (menos de um ano), enquanto 33% do tempo vai para ações de um a cinco anos e 11% do tempo para atividades de mais longo prazo (cinco anos ou mais). A pesquisa foi feita entre setembro e novembro de 2025.
