Da onda rosa à maré azul: a América Latina vira à direita

Autora: Yasmin Cristina Câmera Rodrigues

Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)

Coordenador: Dr. Roberto Rodolfo Georg Uebel

A direita e a esquerda nem sempre foram tão bem definidas como nos dias atuais. Entretanto, após a Revolução Francesa, estes espectros políticos ganharam uma definição. Essas ideologias representam programas contrapostos com relação a diversos problemas. No cenário político, elas representam ideias, interesses e valores diferentes (BOBBIO, 2001).

A esquerda, segundo Bobbio (1995 apud SILVA, G., p. 152), é quem defende a igualdade, quem luta por uma maior justiça social. Basicamente, quem luta para reduzir as desigualdades econômicas e sociais. Já a direita, segundo a perspectiva de Bobbio, é quem vê a desigualdade como inevitável. Ou seja, em suas vertentes liberais, para que o livre mercado e as liberdades individuais sejam preservadas, a desigualdade social presente no país é um preço a se pagar.

Dessa maneira, é possível utilizar essa lógica para explicar o aparecimento de políticas mais à esquerda no início dos anos 2000. As ditaduras do Cone Sul acabaram por volta das décadas de 1980 e 1990. Sendo assim, nota-se que apesar de a década de 1980 ter sido desastrosa para a economia devido à reestruturação pós-ditadura militar, somada às privatizações e aos ajustes estruturais do Fundo Monetário Internacional (FMI), os movimentos sociais, mais voltados às causas indígenas, negras e feministas, começaram a emergir (CALZAVARA, 2021). Já na década de 1990, as críticas ao neoliberalismo ganharam força, devido à insatisfação popular quanto à economia e ao posicionamento estatal diante dos interesses dos oligarcas e dos empresários (CALZAVARA, 2021). Junto à onda de protestos, o boom das commodities ofereceu aos presidentes da época capital suficiente para fortalecerem os programas sociais (LISSARDY, 2022) e focarem em aumentar a autonomia do país.

Ao considerar os protestos, o apoio das massas e as novas políticas públicas em conjunto com a ascensão de partidos de centro-esquerda nos parlamentos europeus (SILVA, 2015), nota-se que a onda rosa emergiu na América Latina. Iniciada em 1998, com Hugo Chávez, na Venezuela, seguida de Ricardo Lagos (2000), no Chile, Luiz Inácio Lula da Silva (2002), no Brasil, Néstor Kirchner (2003), na Argentina, Tabaré Vázquez (2004), no Uruguai, Evo Morales (2005), na Bolívia, Rafael Correa (2007), no Equador, Daniel Ortega (2007), na Nicarágua, Fernando Lugo (2008), no Paraguai e por fim, Mauricio Funes (2009) em El Salvador (SILVA, 2015). Observando os presidentes da época, nota-se a disseminação das políticas de igualdade social e redução da desigualdade em âmbito econômico. Tal movimento foi tão expressivo no início do século XXI que os presidentes, em grande maioria, se reelegeram ou elegeram seus apoiadores.

Esses governos se estabeleceram no poder por meio da regulação do mercado e da percepção da necessidade de complementá-lo com o apoio estatal (SILVA, 2015). Além disso, promoveram maior cooperação e ampliaram as políticas públicas relacionadas aos direitos humanos e universais. A maior parte destes governos tiveram a redução das desigualdades, da miséria e da pobreza como algo em comum (SILVA, 2015), com o objetivo de aumentar o poder de consumo das classes menos favorecidas (CALZAVARA, 2021).

Contudo, essa onda rosa se manteve até o momento em que a população clamou por medidas mais eficazes contra o crime organizado e contra a violência (G1). Além disso, o fim do boom das commodities reduziu a capacidade de financiar os programas sociais, o escândalo da Lava Jato abalou a confiança da população (ALMEIDA, 2025) e o papel central das estratégias de comunicação da direita e extrema-direita, simplificando narrativas e disseminando notícias falsas fortaleceu o avanço da direita na região. Sendo assim, ao considerar os governos que vieram nessa nova “maré azul” nota-se o aproveitamento de narrativas e do neopopulismo, termo que se refere às novas estratégias utilizadas para espalhar suas ideologias e ideias, como a internet e as redes sociais (ALMEIDA, 2025).

Desse modo, observa-se que os governos emergentes nessa nova “maré azul” são focados na comunicação em massa, ampliando o poder midiático do partido e impondo medidas mais voltadas à segurança pública e ao combate ao crime organizado. Esses discursos se opuseram às falas dos políticos de esquerda na virada da “onda rosa” para a “maré azul” e fundamentaram-se na promessa de que as políticas da direita causariam uma ruptura com o sistema da época (ALMEIDA, 2025).

Keiko Fujimori, no Peru, Abelardo de la Espriella, na Colômbia, Daniel Noboa, no Equador, José Antonio Kast, no Chile, e Nasry Asfura, em Honduras, chegaram ao poder com promessas duras em relação ao crime organizado na América Latina. Além destes líderes, observa-se o caso do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que se tornou referência na direita da região, reduzindo a criminalidade, ao impor um estado de exceção, concentrando o poder e reduzindo garantias constitucionais em seu país.

Além destas características do avanço da direita na América Latina, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, influenciou na retomada da “maré azul”. O atual governo dos Estados Unidos buscou se aliar com países de direita e extrema-direita na região, com foco na segurança pública, no combate ao crime organizado e na tentativa de manter a China longe da sua área de influência. Para além disso, o governo estadunidense segue a política do “Make America Great Again” (MAGA) e da “Doutrina Donroe”, releitura da Doutrina Monroe (HAESBAERT; SANTA BÁRBARA, 2026). Ou seja, o avanço da “maré azul” na região se dá tanto pelas políticas públicas relacionadas à segurança, quanto pela ampliação da influência norte-americana na América Latina, e pelos políticos neopopulistas, que se comunicam através das redes sociais simplificando assuntos de natureza complexa.

Em síntese, observa-se que no início dos anos 2000, a “onda rosa” dominava a América Latina com os governos progressistas, vinculados a uma maior presença de políticas públicas voltadas à classe trabalhadora, focando no avanço de pautas mais igualitárias socialmente. Entretanto, com o avanço dos escândalos de corrupção, o fim do boom das commodities, a necessidade de ampliar medidas de segurança pública, a “Doutrina Donroe” e a volta do “MAGA”, além do neopopulismo, os governos de esquerda foram perdendo força na região, ainda que existam exceções, como o México. Com isso, a chegada de governos de direita ao poder se espalhou pelas Américas.

Portanto, a América Latina vira à direita por um conjunto de fatores econômicos, sociais e políticos, assim como ela virou à esquerda no início do século, por fatores de natureza semelhante. Ou seja, a virada da América Latina a um determinado espectro político é um pêndulo e oscila a um determinado lado a depender das condições econômicas, sociais e políticas da época e da região.

REFERÊNCIAS:

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda razões e significados de uma distinção política. Unesp, 2001. Disponível em: https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=xmyEE4ShEiEC&oi=fnd&pg=PA5&dq=direita+e+esquerda+bobbio&ots=hTETpmoKLo&sig=EburTNqfPx4v3teUD6t8eNhdqiM&redir_esc=y#v=onepage&q=direita e esquerda bobbio&f=false. Acesso em: 11/10/2026.

SILVA, Gustavo Jorge. Conceituações teóricas: esquerda e direita., p. 149-162. Disponível em:https://share.google/2rnQn3RQa1z8NfY9d. Acesso em:11/10/2026.

CALZAVARA, João Carlos. Onda rosa: nuances e interpretações na América Latina do século XXI. Boletim Historiar, v. 8, n. 02, 2021. Disponível em: https://ufs.emnuvens.com.br/historiar/article/download/15950/11877. Acesso em: 11/10/2026.

DA SILVA, Fabricio Pereira. Da onda rosa à era progressista: a hora do balanço. Revista Sures, n. 5, 2015. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/sures/article/download/295/279 .Acesso em: 11/10/2026.

LISSARDY, Gerardo. As diferenças entre avanço da esquerda na América Latina e ‘onda rosa’ de duas décadas. BBC News Brasil, [local], 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61989885. Acesso em: 11/10/2026.

O mapa que mostra como a direita expandiu seu poder na América Latina e o que explica essa tendência. G1, 30 jul. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/30/o-mapa-que-mostra-como-a-direita-expandiu-seu-poder-na-america-latina-e-o-que-explica-essa-tendencia.ghtml. Acesso em: 11/10/2026.

ALMEIDA, Lara Abreu Vasconcelos. A onda azul no cone sul: estratégias neopopulistas no Brasil e na Argentina (2014–2024). 2025. 67 f. Monografia (Graduação em História) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2025. Disponível em: http://www.monografias.ufop.br/handle/35400000/8659. Acesso em: 11/10/2026.

DA DOUTRINA MONROE À “DOUTRINA DONROE”: BREVE ANÁLISE DA TERRITORIALIZAÇÃO GEOPOLÍTICA COLONIAL-IMPERIAL DOS ESTADOS UNIDOS NO “HEMISFÉRIO OCIDENTAL” . GEOgraphia, Niterói, v. 28, n. 60, 2026. Disponível em: https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/71139. Acesso em: 11/10/2026.

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