Financial Times; Encarregado de informar os executivos da Meta sobre o progresso da aposta de tudo ou nada da empresa na inteligência artificial, no fim do ano passado, Alexandr Wang optou por apresentar um relatório com poucos detalhes e mais subjetivo, com foco no clima.
A reunião não fez muito para tranquilizar a diretora financeira, Susan Li.
“Se isso não funcionar, será… muito, muito ruim em termos financeiros”, disse ela, segundo um relato da conversa feito por Wang durante uma entrevista em um podcast esta semana.
Wang ofereceu a Li e a todos os demais uma prova clara de que o investimento multibilionário está dando resultados: o lançamento, na semana passada, do novo modelo de IA da Meta, o Muse Wonder, fez as ações da empresa subirem, e o prestígio de Wang com elas.
O jovem de 29 anos que comanda o Laboratório de Superinteligência da Meta, cuja custosa contratação – por meio de uma transação de US$ 14,3 bilhões que envolveu sua empresa de marcação de dados, a Scale AI – causou surpresa no ano passado, está sendo festejado como o homem que pôs a Meta de volta à corrida da inteligência artificial.
De acordo com Mark Zuckerberg, CEO da Meta, o lançamento do Muse Wonder levou a empresa de volta à “fronteira” da IA. E isso apenas cinco semanas depois que o novo agente de IA da Meta, o Muse AI, viralizou e se tornou o aplicativo gratuito mais baixado nas lojas da Apple e do Android. Wang também anunciou que a Meta fará uma parceria com a Apple para integrar os modelos de IA de parâmetros abertos da Meta aos computadores Mac.
O bilionário que usa um corte de cabelo estilo mullet, camisetas e sandálias Crocs saiu dos bastidores solitários do desenvolvimento para o centro das atenções, e está se deleitando com os elogios.
Filho de dois físicos sino-americanos, Wang cresceu no Novo México e foi um prodígio da matemática que concluiu o ensino médio um ano antes do normal e se mudou para o Vale do Silício, onde trabalhou para o site de perguntas e respostas Quora. Aos 18 anos, se matriculou no MIT, mas abandonou o curso um ano depois para fundar a Scale AI, em 2016. A startup, que fornece dados selecionados para treinar modelos de IA, fechou transações com empresas como a OpenAI, de Sam Altman, e a Anthropic, de Dario Amodei.
“Alex não é apenas inteligente e técnico, como também criterioso em suas análises e em seu estilo de comunicação, algo que mostra uma maturidade muito além de sua idade”, diz Mike Volpi, um dos primeiros investidores da Scale e sócio da Hanabi Capital, empresa de capital de risco. “Ele é precoce e maduro para sua idade.”
Wang tem bons contatos no setor de tecnologia (Altman, por exemplo, foi seu colega de apartamento). A Scale assinou seu primeiro contrato com o Facebook em 2019, e Wang conheceu Zuckerberg dois anos depois. A relação passou por uma mudança radical no ano passado, depois que a gigante das redes sociais lançou um novo modelo de IA decepcionante e isso levou Zuckerberg a reformular a estrutura e a liderança da equipe de IA da Meta.
Segundo fontes, os dois começaram a discutir a possibilidade de um acordo para levar o fundador da Scale AI para a Meta no início de 2025, com reuniões nas casas de Zuckerberg em Tahoe e Palo Alto ao longo de vários meses. Uma fonte contou que eles definiram um roteiro de um ano para recolocar a Meta na vanguarda da área da IA.
Wang é considerado ‘um operador’ que consegue falar a língua dos engenheiros de IA, de acordo com fontes próximas a ele. Mas ao entrar na Meta como diretor de IA, ele enfrentou pressões internas e externas porque nunca trabalhara no treinamento de um modelo de IA. Dedicou os primeiros meses à frente da área para contratar talentos no Vale do Silício, em especial nas empresas rivais.
Anastasios Angelopoulos, executivo-chefe da Arena, uma plataforma aberta para avaliação de modelos de IA, acredita que a Meta fez progressos significativos sob a direção de Wang. “Ainda não está no mesmo nível dos modelos da Anthropic ou da OpenAI. Mas os avanços são massivos”, disse ele. “E todo o mérito disso é de Alex.”
Uma pessoa que trabalhou com os dois comentou que Wang lembra uma versão mais jovem do chefe da Meta, embora sem as cicatrizes resultantes dos embates frequentes com agências reguladoras e de superproduções de Hollywood pouco lisonjeiras.
“Mark é muito mais cínico em sua visão de mundo e sobre sua relevância e seu lugar na cultura pop”, avaliou essa pessoa. “Alex ainda não passou por tantas tempestades.”
A Scale esteve envolvida em várias controvérsias durante a gestão de Wang, entre elas um processo judicial que acusava a empresa de exigir que seus funcionários analisassem material de conteúdo extremo como parte do trabalho de rotulagem de dados. O processo acabou por ser arquivado com a desistência voluntária de seu autor. Wang também entrou em conflito com a cofundadora Lucy Guo, a quem demitiu em 2018.
Mas associados próximos acreditam que até agora o fato de a inteligência artificial ainda estar em sua infância tem protegido Wang de polêmicas de grande repercussão e permitido que ele mantenha uma imagem pública descontraída. Alguns de seus frequentes posts na rede social X fazem piada com a Meta, inclusive com imagens e vídeos maliciosos do Jolly, mascote do Muse. “Por algum motivo, os burocratas engravatados da empresa se recusaram a usar meu vídeo”, escreveu ele.
Zuckerberg sustenta que Wang é a pessoa certa para liderar as iniciativas de IA da Meta. Refere-se a ele como “o cara” e lhe dá uma autonomia que poucos na empresa têm. Wang já é apontado como um possível sucessor de Zuckerberg. “Às vezes, ele se via como um cidadão de segunda classe no espaço da inteligência artificial”, contou uma pessoa que costumava trabalhar com Wang. “Agora, ele tem a chance de provar que está no mesmo patamar de Sam, Dario e os outros.
