Artigo GPS – A doutrina Trump e a questão da Venezuela

Professor responsável: Roberto Rodolfo Georg Uebel

Por: Luiza Milani Signoretti e Mariana Grandeza Paschoaleti

Esse artigo propõe analisar a nova doutrina “Donroe” na questão da Venezuela, no qual analisaremos a história venezuelana e a sua relação com os Estados Unidos ao decorrer dos anos. Além disso, dissertaremos sobre o novo corolário Trump e o papel do Estado sul-americano como “primeiro laboratório” dessa doutrina.

A trajetória histórica da Venezuela revela um processo de construção estatal marcado por profundas contradições entre soberania formal e fragilidade estrutural. Desde a independência em 1811, fortemente associada à liderança de Simón Bolívar, o país emergiu como um Estado soberano, porém institucionalmente instável, tal como seus vizinhos latinos. Essa conjuntura demonstra como a ruptura com a metrópole espanhola ocorreu em um contexto de guerras e influências liberais europeias, mas sem a consolidação de instituições sólidas. Esse cenário inicial contribuiu para a formação de uma economia dependente e pouco diversificada, que mais tarde seria profundamente marcada pela centralidade do petróleo.

Em continuidade a essa formação econômica, após o “boom petrolífero” do século XX a Venezuela passou por uma transformação econômica que posteriormente teria efeitos adversos, mais típicos da “doença holandesa”, onde a concentração de recursos no setor petrolífero limitou o desenvolvimento industrial e a diversificação produtiva em outras áreas, tornando o país altamente vulnerável às oscilações do preço internacional do barril.

Nesse contexto, o período entre 1958 e 1998, inaugurado pelo Pacto de Punto Fijo, representou uma tentativa de superação da instabilidade histórica. Esse acordo político estabeleceu uma democracia representativa relativamente estável, baseada na alternância de poder entre partidos e no respeito às regras institucionais. Além disso, a Venezuela manteve relações próximas com os Estados Unidos, inclusive com alinhamentos ideológicos em determinados momentos, como no segundo governo de Carlos Andrés Pérez, que adotou políticas neoliberais. Ainda assim, a estabilidade desse período mostrou-se dependente da renda petrolífera, o que a tornava estruturalmente frágil.

Após esse período, a crise dos anos 1980 e 1990 marcou o colapso do modelo. A queda dos preços do petróleo, em junção com a implementação de reformas liberalizantes e privatizações, gerou uma grande insatisfação social, e é nesse cenário que emerge a figura de Hugo Chávez, inicialmente como líder de levantes militares contra o governo. Apesar do fracasso das tentativas golpistas, Chávez conquistou apoio popular ao se apresentar como alternativa ao modelo vigente, defendendo uma redistribuição mais justa dos lucros da atividade petrolífera e defendendo maior soberania nacional.

Na sequência, com sua eleição em 1998 e a consolidação do chavismo a partir de 1999, inicia-se uma nova fase da política venezuelana, caracterizada pela nacionalização do setor petrolífero e pela ampliação de políticas sociais. A exemplo da Lei dos Hidrocarbonetos de 2001, que simboliza esse processo de reconfiguração econômica e política, ao reforçar o controle estatal total sobre a empresa PDVSA e manter royalties elevados. Um dos impactos iniciais foi uma primeira grande onda migratória da elite petrolífera descontente para os Estados Unidos, que será base para a construção de uma futura comunidade venezuelana essencial para as eleições que levaram Trump ao poder.

Paralelamente, as relações com os Estados Unidos, especialmente durante o governo de George W. Bush, tornaram-se mais tensas, e foi imposta a primeira leva de sanções ao governo venezuelano, embora ainda não levassem em conta a indústria petrolífera nestes embargos, ou seja, mantinham o pragmatismo econômico no setor energético com uma frase emblemática: “inimigos sim, negócios à parte”. Esse período também foi marcado pelo aumento do protagonismo internacional da Venezuela e pela polarização interna.

A partir de 2011, com o agravamento da crise econômica e a transição de liderança após a morte de Chávez, a Venezuela entrou em uma fase de instabilidade. O governo de Nicolás Maduro enfrentou questionamentos internos e externos quanto à legitimidade eleitoral. Durante a administração de Barack Obama, o país sul-americano foi classificado como uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, o que tornou as sanções econômicas mais abrangentes, incluindo congelamentos de ativos e restrições financeiras, incentivando a aproximação venezuelana com outras potências globais como China e Rússia, um estreitamento de relações que aumentou a desconfiança americana.

Por fim, nos governos de Donald Trump, especialmente em seu primeiro mandato, observa-se novamente um aprofundamento das sanções, incluindo medidas diretamente voltadas ao setor petrolífero, como o confisco da companhia CITGO. Esse endurecimento contribuiu para o aprofundamento da crise econômica e social, bem como para o aumento dos fluxos migratórios venezuelanos para países vizinhos como Brasil e Colômbia. Além de realizar a segunda onda migratória de uma elite conservadora para os Estados Unidos, contribuindo à comunidade venezuelana que já havia se estabelecido na região norte americana em 2001.

No contexto mais recente, a política externa estadunidense em relação à Venezuela revela elementos de continuidade histórica na forma de intervenção na América Latina, frequentemente interpretada como uma lógica de controle estratégico de recursos, especialmente o petróleo. Assim, a trajetória venezuelana evidencia a interseção entre fatores internos tais quais a fragilidade institucional e dependência econômica além das dinâmicas externas, que moldam de forma decisiva seu desenvolvimento histórico e político.

Ademais, aprofundando a relação dos dois países no segundo mandato de Trump, observamos a heterogeneidade nas políticas voltadas à Venezuela. Em um primeiro momento, Trump preservou uma ação de cunho econômico, voltada à imposição de tarifas unilaterais primárias e secundárias, no entanto, no segundo semestre de 2025, o presidente americano muda sua estratégia e eleva tensões militares no Caribe, culminando nos bombardeios a capital, Caracas, e ao sequestro de Nicolás Maduro. Uma ação inédita, visto que foi a primeira ingerência direta americana na região sul-americana, sem uma terceirização da ação.

Além do mais, o presidente norte americano justificou a ofensiva através do combate ao narcoterrorismo presente e infiltrado no governo, da necessidade de estabilização territorial e de obtenção democrática. No entanto, para além dessas justificativas oficiais, há de se analisar motivações que em um primeiro momento são menos explícitas, como a obtenção do petróleo venezuelano, pelos termos estadunidenses e não venezuelanos como estavam negociando antes dos ataques, o reposicionamento geopolítico venezuelano, para conter a ação de potências como China e Rússia na região, e a pressão do lobby venezuelano nos Estados Unidos, composto pelos mesmos cidadãos da primeira e segunda onda migratória já analisada anteriormente, formando um voto latino conservador.

A captura de Maduro levou a três grandes impactos: O plano de Marco Rubio, as primeiras vendas do petróleo e a alteração da Lei dos Hidrocarbonetos. Em primeiro ponto, o Secretário de Estado, Rubio, determinou um plano de três fases para o futuro da Venezuela, iniciando com uma estabilização, passando por uma reconstrução e só no final adotando uma transição política, argumentando que se houvesse uma alteração da liderança logo após os ataques não seria uma transição eficaz para as motivações reais já elencadas. Em um segundo momento, o Secretário anunciou as primeiras vendas do petróleo venezuelano, que, por sua vez, iriam para a subsidiária CITGO, a mesma empresa que foi confiscada no primeiro governo Trump, ou seja, nenhum lucro da venda retornará à sede venezuelana. Por fim, a Lei dos Hidrocarbonetos, implementada há 25 anos, passou por mudanças, anunciando o fim do monopólio da PDVSA e a flexibilidade nas taxas de royalties, medidas que vão contra as ações chavistas de nacionalização e repartição de ganhos.

Diante da situação exposta, avalia-se esta ingerência americana como um primeiro laboratório da política americana baseada na Doutrina Donroe e no Corolário Trump. Isto é argumentado no próprio documento da Estratégia de Segurança Nacional, ao passo que está redigido que nas últimas décadas houve negligências cometidas as premissas da Doutrina Monroe (não interferência externa) e que chegava o momento de reposicionar estes elementos históricos no novo governo Trump.

É a partir deste momento que se cria o termo Doutrina Donroe e Corolário Trump, remetendo à Doutrina Monroe e o Corolário Roosevelt, uma vez que retorna as premissas de não interferência externa ao garantir uma política de ordenação interna e alinhamento ideológico na área de influência histórica americana. Assim, é colocada esta última camada motivacional para a invasão venezuelana, que para além de analisar um país que, historicamente, tem uma política de maior confrontação em relação aos EUA, obtêm uma das maiores reservas de um recurso estratégico, o petróleo, e se aproxima à potências externas antagônicas ao pensamento americano, observa-se também a institucionalização de ingerências para o alcance de interesses pragmáticos americanos, como a Segurança Nacional.

Referências

THE WHITE HOUSE. National Security Strategy of the United States of America. Washington, D.C, 2025. Disponível em: Acessar documento. Acesso em: 4 abr. 2026.

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