Autores: Gilberto Parma Neto, João Victor Marconi Martinez, Lucas Junqueira Ayres Araujo e Marcos José Martins de Oliveira
Disciplina: Diplomacia e Disputa
Professor: Dr. Roberto Rodolfo Georg Uebel
CONTEXTUALIZAÇÃO DO CONFLITO
A instabilidade na Venezuela, monitorada pelo Council on Foreign Relations como um dos conflitos contemporâneos de maior relevância hemisférica, deixou de ser, ao longo de 2025 e 2026, uma crise predominantemente interna — eleitoral, econômica e humanitária — para se converter no principal caso-teste de uma nova doutrina de segurança dos Estados Unidos: o combate ao chamado “narcoterrorismo”.
A tensão diplomática entre os Estados Unidos e a Venezuela tem origem na chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999. Com um discurso anti-imperialista, a aproximação estratégica com Cuba e a formulação de um projeto bolivariano, Caracas passou a confrontar de forma mais direta a influência histórica dos EUA na América Latina. A relação, que antes do governo de Chávez era marcada sobretudo pelo pragmatismo em torno do petróleo, tornou-se progressivamente ideológica e confrontacional. Esse desgaste se intensificou após a tentativa de golpe contra o presidente venezuelano, em 2002, episódio que o chavismo passou a associar à ingerência norte-americana. Porém, foi só em 2005 que Hugo Chávez intensificou o enfrentamento público aos EUA, assumindo de vez a oposição a Washington como eixo central da política externa venezuelana
Desde a morte de Hugo Chávez (2013) e a ascensão de Nicolás Maduro, o país acumulou colapso econômico, êxodo de milhões de pessoas e erosão institucional. A eleição presidencial de julho de 2024, cujo resultado foi contestado (com a oposição alegando vitória de Edmundo González sobre Maduro), aprofundou a repressão e elevou para cerca de 800 o número de presos políticos.
A partir de 2025, Washington escalou a pressão sob uma moldura securitária: em fevereiro designou o Tren de Aragua como organização terrorista; em julho e novembro classificou o “Cartel de los Soles” (cuja existência como estrutura criminal hierárquica é contestada por especialistas) como entidade terrorista, atribuindo sua liderança a Maduro; bombardeou embarcações no Caribe sob alegação de combate ao tráfico; e elevou a recompensa por Maduro a US$ 50 milhões. Em 3 de janeiro de 2026, uma operação militar norte-americana capturou Maduro e sua esposa, Cilia Flores, levados a Nova York para responder por narcoterrorismo e tráfico de drogas. Desde então, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina, tolerada por Washington, promovendo lei de anistia, libertação gradual de presos e negociações econômicas, ao passo que o calendário eleitoral permanece incerto.
PRINCIPAIS ATORES ENVOLVIDOS
O conflito articula atores em múltiplos níveis. No plano externo, os Estados Unidos
— por meio de Donald Trump e dos secretários Marco Rubio (Estado) e Scott Bessent (Tesouro) — conduzem a estratégia do narcoterrorismo. No plano interno venezuelano, compõem o quadro Maduro (capturado), Delcy Rodríguez (presidente interina oriunda do chavismo), as Forças Armadas e a oposição democrática liderada por María Corina Machado (Prêmio Nobel da Paz de 2025) e Edmundo González. No plano regional, a Colômbia de Gustavo Petro nega a existência do “Cartel de los Soles” e enxerga as ações como instrumento político, enquanto Argentina, Equador, Peru e Paraguai alinharam-se a Washington, designando o grupo como terrorista. O Brasil, sob Lula, sustenta posição de defesa da soberania e da não-intervenção. No plano multilateral, atuam a ONU (António Guterres), a OEA (politicamente dividida), a CELAC e as instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial), além de potências extrarregionais (Rússia e China) cuja influência foi deslocada.
RISCOS E SINAIS ESTRATÉGICOS DO CENÁRIO
O risco estratégico central é a consolidação de um precedente: o uso unilateral da força legitimado por um rótulo elástico de segurança. A categoria “narcoterrorismo” funciona como um movimento de securitização: desloca o crime organizado do domínio da cooperação policial ordinária para o terreno da guerra e da exceção, autorizando medidas extraordinárias. A fragilidade jurídica é um sinal eloquente: após a captura, o próprio Departamento de Justiça suavizou a acusação de que Maduro liderava o “Cartel de los Soles”, revelando a distância entre o discurso político que precedeu a intervenção e a sustentação probatória perante os tribunais.
No campo da segurança, estruturas militares e paramilitares parcialmente intactas geram risco de violência residual e de fuga de grupos armados para países vizinhos: o Tren de Aragua já está ativo em território brasileiro, configurando ameaça transnacional concreta. No campo econômico, a dimensão petroleira é decisiva: a Venezuela detém as maiores reservas comprovadas do mundo, e a operação resultou em aumento das exportações para os EUA. Coexistem, por fim, sinais ambíguos: de desescalada administrada (anistia, libertação de presos, retorno do FMI e do Banco Mundial, reabertura de embaixada) e de agravamento, sobretudo a extensão da própria doutrina a outros países da região.
Cuba emerge nesse último sinal como próximo foco, objeto de leituras divergentes.
De um lado, há indícios de escalada: Trump vinculou explicitamente a ilha à ação na Venezuela, afirmando em março de 2026 que o país está “no fim da fila”; assinou ordens executivas declarando emergência nacional (janeiro) e sancionando o conglomerado militar GAESA (maio); intensificou voos de vigilância (etapa de coleta de inteligência que costuma preceder operações) e definiu a mudança de regime como objetivo até o fim de 2026, enquanto Havana já prepara suas forças para uma possível agressão. De outro lado, analistas consideram improvável uma intervenção militar: a revista The Economist classificou-a como altamente arriscada, e fontes da própria administração descrevem a estratégia como “aceleracionismo” (desgaste econômico gradual sem ataque direto), sem evidência pública de decisão de intervir. A estrutura estatal consolidada e a doutrina defensiva cubanas, somadas à improbabilidade da cooperação interna observada na Venezuela, tornariam o desfecho venezuelano dificilmente replicável.
OPORTUNIDADES POLÍTICAS, ECONÔMICAS, DIPLOMÁTICAS E GEOPOLÍTICAS
As oportunidades distribuem-se de forma assimétrica entre os atores. Para os Estados Unidos, a operação gerou ganho doméstico de curto prazo, acesso privilegiado ao petróleo venezuelano e deslocamento da influência de China e Rússia. Para a Venezuela, abre-se uma janela histórica (porém estreita) de transição democrática; a oposição adverte, contudo, que sem eleições livres uma mera “mudança de cartel” não equivale a mudança de regime. Para o Brasil, despontam oportunidades econômicas na eventual reconstrução venezuelana (petróleo e infraestrutura) e na integração energética regional (discutida entre Trump e Petro em fevereiro de 2026 quanto à exportação de gás via Colômbia e Brasil), além do aproveitamento da mão de obra venezuelana já integrada à economia nacional e da possibilidade de exercer mediação respeitável. No plano multilateral, paradoxalmente, o episódio revigora o debate sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU e sobre mecanismos regionais sólidos de prevenção de conflitos.
IMPACTOS DO CONFLITO PARA O BRASIL
O Brasil é o país sul-americano com maior exposição direta ao conflito, dada sua fronteira de mais de 2.000 km com a Venezuela e sua condição de principal receptor regional de refugiados: cerca de 700 mil venezuelanos vivem em território nacional, com forte pressão sobre Roraima, onde União e estado firmaram, em janeiro de 2026, acordo de R$ 115 milhões, para compensar parcialmente os impactos da migração venezuelana sobre os serviços públicos do estado. O presidente Lula condenou a operação como afronta à soberania venezuelana e precedente perigoso. No plano econômico, a volatilidade do petróleo reverbera sobre inflação, transporte e safra agrícola; no plano eleitoral, a captura de Maduro coloca o governo em posição delicada às vésperas das eleições de 2026, explorada pela oposição em torno das ligações históricas entre o chavismo e a esquerda brasileira.
Há um desdobramento recente que conecta diretamente o caso venezuelano ao Brasil. Foi exatamente sob o pretexto de combater uma facção criminosa designada como terrorista (o “Cartel de los Soles”, do qual Maduro foi acusado de ser líder) que a captura do presidente venezuelano se tornou “plausível” aos olhos de Washington. Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado norte-americano designou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como terroristas globais especialmente designados, com intenção de elevá-los a Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho de 2026. A designação prévia do Tren de Aragua havia sido o primeiro passo da estratégia que culminou na captura de Maduro.
O paralelo, contudo, precisa ser dimensionado com cautela. Diferentemente da Venezuela (regime isolado, deslegitimado eleitoralmente e alvo explícito de mudança de regime), o Brasil é uma democracia continental, grande economia e parceiro com canais diplomáticos e comerciais ativos com os EUA, como evidenciam as tratativas diretas entre Lula e Trump. Uma violação militar da soberania brasileira nos moldes venezuelanos é, portanto, altamente improvável. O efeito mais provável da medida é antes uma alteração de nomenclatura e de enquadramento jurídico (que amplia o alcance investigativo e a possibilidade de processar, por “apoio material”, estrangeiros vinculados às facções) do que uma intervenção armada. O risco real para o Brasil é, assim, sobretudo jurídico-diplomático: tensões sobre a soberania na condução da própria política de segurança e justiça e sobre a centralização da cooperação de inteligência, e não uma repetição do desfecho venezuelano.
IMPACTOS PARA O MULTILATERALISMO E AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS
O conflito produz seus efeitos mais profundos no plano do multilateralismo e da soberania westfaliana. O princípio consagrado na Paz de Vestfália (1648), a soberania territorial e a não-intervenção nos assuntos internos dos Estados, constitui o pilar normativo da ordem internacional moderna e do próprio sistema das organizações internacionais. A captura de um chefe de Estado em seu próprio território por força estrangeira, justificada por uma categoria de segurança unilateralmente definida, atinge esse pilar de forma direta, em precedente comparável, em gravidade, à invasão do Iraque em 2003.
A reação institucional explicitou a fragilização do sistema. O secretário-geral da ONU manifestou preocupação com o desrespeito ao direito internacional, e vozes do direito penal internacional qualificaram a ação como possível crime de agressão nos termos do Estatuto de Roma. Entretanto, a paralisia do Conselho de Segurança (pelo mecanismo de veto) e a divisão política da OEA revelaram a incapacidade das instâncias multilaterais de oferecer resposta efetiva. Soma-se a isso a instrumentalização das instituições de Bretton Woods: o retorno do FMI e do Banco Mundial a Caracas, em 2026, configura uma reintegração econômica conduzida sob condições impostas por Washington, e não por mediação autônoma das organizações, esvaziando sua percepção de neutralidade.
A extensão da mesma lógica ao Brasil e a pressão crescente sobre Cuba (anunciada por Trump como o próximo país “no fim da fila”) demonstram que a doutrina (de narcoterrorismo, no caso brasileiro, e de segurança nacional, no cubano) não é específica de um caso, mas um instrumento transversal que desestabiliza o princípio westfaliano em escala regional. Visto em perspectiva, o conflito ilustra uma transição estrutural na ordem internacional: o multilateralismo baseado em regras universais perde espaço para uma lógica de coerção unilateral legitimada por narrativas de segurança. O desafio imediato para o Brasil e para a América Latina é construir uma resposta coletiva capaz de elevar o custo político das intervenções unilaterais sem provocar retaliação, tarefa dificultada pela fragmentação regional e pela dependência econômica em relação a Washington.
REFERÊNCIAS
A NOVA DEMOCRACIA. “Operação militar real” contra Cuba seria altamente arriscada, alerta The Economist. 30 maio 2026. Disponível em: https://anovademocracia.com.br.
AGÊNCIA BRASIL. EUA passam a designar CV e PCC como organizações terroristas. Brasília, 28 maio 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br.
AOS FATOS. Como o Cartel de los Soles virou motivo para prender Maduro, mesmo sem existência comprovada. 7 jan. 2026. Disponível em: https://www.aosfatos.org.
AGÊNCIA PÚBLICA. Cartel de los Soles: como os EUA inventaram para atacar a Venezuela. 11 jan. 2026. Disponível em: https://apublica.org.
CARTACAPITAL. Trump decide classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas. 28 maio 2026. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br.
FRANCE 24. Trump acelera la estrategia para Cuba: presión económica y disuasión militar. 28 maio 2026. Disponível em: https://acento.com.do.
COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. Instability in Venezuela — Global Conflict Tracker. Nova York, 2026. Disponível em: https://www.cfr.org/global-conflict-tracker.
GAZETA DO POVO. EUA eliminam menção a Maduro como líder do Cartel de los
Soles em nova acusação. 6 jan. 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br.
JORNAL DE BRASÍLIA. Inclusão de grupo venezuelano em lista de terroristas dos EUA foi 1º passo para captura de Maduro. 29 maio 2026. Disponível em: https://jornaldebrasilia.com.br.
OBSERVADOR. O novo equilíbrio de poder na Venezuela após janeiro de 2026.
Lisboa, 28 fev. 2026. Disponível em: https://observador.pt.
PÚBLICO. Opositores venezuelanos pedem comissão eleitoral e início do processo de transição. Lisboa, 15 maio 2026. Disponível em: https://www.publico.pt.
ROLLING STONE (ES). Así se construyó la narrativa del supuesto “Cartel de los Soles” que justificó la intervención militar en Venezuela. 2026. Disponível em: https://es.rollingstone.com.
U.S. DEPARTMENT OF STATE. Sanções dos EUA têm como alvo o regime militar e as elites de Cuba. Washington, maio 2026. Disponível em: https://www.state.gov.
U.S. EMBASSY BRAZIL. Terrorist Designation of Comando Vermelho and Primeiro Comando da Capital. Brasília, 28 maio 2026. Disponível em: https://br.usembassy.gov.
