Tensão política faz Argentina intervir para conter dólar

A Argentina começou ontem a intervir no mercado de câmbio por meio do Tesouro Nacional para conter a disparada do dólar no país. A guinada radical na política adotada pelo governo ameaça elevar a instabilidade em um momento de crescente incerteza devido à eleição na província de Buenos Aires no domingo, o pleito legislativo de outubro e o escândalo de corrupção que atinge aliados próximos de Javier Milei.

Segundo o secretário de Finanças, Pablo Quirno, o Tesouro atuará no mercado livre de câmbio para “contribuir para sua liquidez e funcionamento normal”, utilizando, a princípio, os cerca de US$ 1,7 bilhão em reservas disponíveis no final de agosto para aumentar a oferta de dólares em momentos de pressão sobre o peso argentino.

Estimativas iniciais de mercado sugerem que o Tesouro tenha feito uma venda inicial de cerca de US$ 100 milhões. Com a intervenção, a moeda americana recuou 0,72% ontem, fechando em 1.375, antes de atingir 1.400 pesos por dólar na véspera, o maior valor desde que o governo Milei revogou uma série de restrições cambiais.

“Isso quebra tudo o que Milei vinha propondo em termos de manter o mercado cambial sob controle, porque, na prática, não houve um plano onômico. Então, o que se faz é apagar incêndios à medida que eles surgem”, afirmou Dante Moreno, economista da consultoria EPyCA. “Como não há um roteiro definido, o mercado pressupõe que isso pode ter implicações maiores se o governo não conseguir obter um resultado eleitoral que se aproxime de uma vitória”.

A medida representa uma ruptura na política de bandas cambiais adotada pelo governo desde abril, quando o Banco Central passou a realizar intervenções pontuais para depreciar ou apreciar o peso dentro de limites pré-estabelecidos. Ontem, o teto da banda estava em 1.467 por dólar e o piso em 953.

O regime flutuante faz parte do acordo de US$ 20 bilhões firmado com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que limita ações do Banco Central para conter a disparada do dólar. Segundo o jornal Clarín, o FMI foi informado e teria concorda com a medida.

“Quando foi firmado o acordo com o FMI, houve um certo descuido das autoridades”. “, disse Luis Secco, economista e diretor da consultoria Perspectiv@s. “Ao se fechar o acordo, a ideia era de que o Tesouro ou o Banco Central interviriam dentro da banda para comprar dólares. Agora estão anunciando exatamente o contrário. Depois de prometerem várias vezes que não interviriam, agora estão intervindo para vender dólares.”

“Outro tema que pesa na situação atual é a fadiga com os ajustes de Milei”, acrescentou Secco. “Ou seja, há um certo cansaço de um ajuste que não chega a se completar. A economia já está estagnada desde o 1° trimestre deste ano.”

A pressão cambial se intensificou com acusações de corrupção antes da eleição provincial em Buenos Aires. O escândalo, envolvendo a irmã do presidente Karina Milei, levantou preocupações sobre a imagem de Milei, que precisa de um bom desempenho na província que representa quase 40% da população do país.

Segundo especialistas, investidores estão atentos ao pleito de Buenos Aires por considerá-lo uma prévia do que pode acontecer nas eleições legislativas gerais em outubro, em que Milei buscará aumentar seu apoio no Congresso para seguir com seus projetos.

“Temos uma situação em que, em geral, muitos governos já atravessaram momentos semelhantes, mas nem todos tiveram que enfrentar algo tão complexo, em que três fatores se sobrepõem: fragilidade política, cansaço do ajuste e corrupção”, diz Secco.

Diante do cenário desafiador, a intervenção cambial traz riscos importantes para o futuro da economia, alertam os analistas. Além de pressionar a inflação e o risco-país, a medida pode alimentar a desconfiança dos investidores.

“Eventos políticos futuros podem mudar a perspectiva dos investidores em relação ao governo e gerar talvez ainda mais pressão de alta do que temos até hoje”, afirmou Moreno. “Se o dólar sobe, os preços também são impactados, pois haverá um efeito direto no nível de preços internos, o que rompe com o que o presidente Milei vinha prometendo: dólar baixo ou estável e inflação baixa.”

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/09/03/tensao-politica-faz-argentina-intervir-para-conter-dolar.ghtml

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