China e Rússia ignoram pressão dos EUA e lançam projeto de novo gasoduto

Rússia e China assinaram um acordo nesta terça-feira (2) para construir o gasoduto Força da Sibéria 2, um enorme projeto que pode remodelar os fluxos globais de energia e que coloca ainda mais em evidência que os dois países estão dispostos a aprofundar sua parceria, apesar das pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O gasoduto, que poderá transportar 50 bilhões de metros cúbicos por ano dos campos de Yamal, no Ártico, para a China, atravessando a Mongólia, daria ao governo de Xi Jinping mais opções de se proteger contra uma futura dependência em relação ao gás natural liquefeito (GNL) americano.

O anúncio de um “memorando legalmente vinculante”, feito pelo executivo-chefe da estatal russa Gazprom, Alexei Miller, veio na esteira do encontro de terça-feira entre o líder chinês, Xi Jinping, o presidente russo, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, em uma cúpula que a China delineou uma nova ordem global em contraponto à liderança exercida pelos EUA.

Nesta terça-feira, Putin foi chamado de “velho amigo” por Xi em um evento no Grande Salão do Povo, que antecedeu uma reunião privada entre eles. Hoje, o presidente russo participará, ao lado do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, de um grande desfile militar em Pequim.

Segundo o executivo-chefe da Gazprom, os dois países também firmaram um acordo para incrementar o fornecimento pelo gasoduto já existente — o Força da Sibéria -, que se estende do leste da Sibéria até a China. Com o pacto, os russos enviarão 44 bilhões de metros cúbicos por ano, contra os 38 bilhões exportados atualmente.

No entanto, o preço do gás que será fornecido pelo novo gasoduto, um dos fatores-chave para entender o custo da obra e como essas despesas serão divididas entre as partes, será negociada em outro momento, segundo a Gazprom.

“Os anúncios sobre o Força da Sibéria 2 são um grande ponto de virada na geopolítica da energia”, disse Michal Meidan, chefe da área de Pesquisas de Energia da China do Oxford Institute for Energy Studies, uma entidade ligada à universidade homônima. “O recado é: a China já nem mesmo finge cumprir as sanções dos EUA ou se importar com o que o Ocidente pensa. E ela não está sozinha.”

A China, que recentemente recebeu carregamentos de GNL do projetorusso GNL 2, que é alvo de sanções, está demonstrando que é capaz de resistir à pressão ocidental para isolar Moscou. No entanto, a falta de avanço na questão dos preços também indica que Pequim vem exigindo altos descontos do governo de Putin.

Tanto o presidente russo quanto o chinês empenharam-se em seus governos em reagir contra o que são consideradas humilhações pela queda soviética em 1991 e pelos séculos de domínio colonial europeu sobre a China. Agora ambos dizem que o mundo está entrando em uma nova era, com o Ocidente liderado pelos EUA em declínio.

Os EUA consideram a China como seu maior competidor e a Rússia como sua maior ameaça enquanto país, embora Trump tenha criticado iniciativas ocidentais que, segundo ele, aproximaram ainda mais Moscou e Pequim.

Descrita como “sem limites”. “, a parceria entre os dois países se fortaleceu depois que os EUA e a Europa impuseram sanções para punir Moscou pela guerra contra a Ucrânia. Com a perda de uma grande e lucrativa fatia do mercado europeu de gás, a Rússia se reorientou para a China. A Gazprom vem há anos tentando assinar o acordo sobre o Força da Sibéria 2.

“O grande acordo, enfim, está em andamento”, disse Kirill Babaev, diretor do Instituto da China e da Ásia Contemporânea, um centro de estudos em Moscou que assessora o governo russo em questões relacionadas à China.

Nesta terça-feira, em entrevista a uma rádio, Trump voltou a afirmar que está “muito insatisfeito” Putin e a sequência da guerra. As negociações para um cessar-fogo na Ucrânia estão estagnadas, mesmo após uma cúpula entre os dois no Alasca.

Além disso, Trump afirmou não estar preocupado com o que chamou de “eixo contra os EUA” formado por Moscou e Pequim.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/09/02/rssia-e-china-assinam-acordo-para-construo-de-gasoduto-na-sibria.ghtml

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