Crise oferece chance de mudança no perfil das grandes metrópoles globais

A pandemia de coronavírus expôs os profundos problemas sistêmicos das grandes cidades e vem levantando questões sobre a possibilidade de algum dia elas voltarem a ser o que eram antes. As capitais financeiras dos países mais ricos e as megalópoles fervilhantes do mundo em desenvolvimento ganharam uma chance de se transformar, segundo urbanistas, economistas e historiadores.

Evidentemente, o desafio da mudança não é um fenômeno novo. A história das epidemias, há centenas de anos, mostra que os centros urbanos sempre foram os principais vetores do contágio e do sofrimento. Dos 5 milhões de contaminados com a covid-19, cerca de 95% vivem em áreas urbanas. O fato de muitas cidades terem se recuperado da devastação causada por doenças no passado não significa que todas conseguirão superar a crise atual.

 “Até o momento, as cidades sempre se recuperaram”, escreveu no Financial Times Camilla Cavendish, ex-assessora do governo britânico. “A necessidade de fazer negócios, de despachar bens de consumo e de trocar ideias, inexoravelmente, produziu talentos e dinheiro. Os empregos migraram para as cidades, e as pessoas migraram com eles.”

Mas talvez agora não seja este o caso. As necessidades do distanciamento social mergulharam o mundo em um gigantesco experimento com o trabalho remoto e alguns funcionários de escritórios talvez nunca mais queiram voltar ao mesmo estresse de antes, incluindo o alto custo de vida e os riscos para a saúde associados ao dia a dia em uma grande e densa metrópole. 

De acordo com Camilla, as tendências que já vinham se concretizando talvez se acelerem. As populações de cidades globais, como Nova York, Paris e até mesmo Xangai, estavam diminuindo antes da eclosão da pandemia, em grande parte como consequência dos preços exorbitantes dos aluguéis.

O impacto da pandemia na vida urbana será enorme e de longo alcance. Na terça-feira, a Unesco, a agência cultural da ONU, advertiu que a crise pode acabar com um em cada oito museus do mundo. Inúmeros comerciantes e empresas locais, que contribuem para distinguir as cidades dos subúrbios e periferias, serão extintos. 

Por mais de um século, as cidades prosperaram. Mas esquecemos que as doenças contagiosas moldam o destino delas desde que a Peste do Egito matou Péricles. Nos últimos 100 anos, os empregos foram transferidos das fazendas para as fábricas e para os setores de serviços, que agora empregam 80% dos trabalhadores americanos. Somente nos EUA, 32 milhões de empregos estão nos setores de varejo, lazer e hospitalidade – eles é que estão na linha de frente da pandemia.

Uma recente pesquisa realizada nos EUA concluiu que 70% dos pequenos restaurantes não esperam reabrir, caso a crise dure mais de quatro meses. Centenas de cidades americanas e centros menores pretendem reduzir os serviços públicos no próximo ano, porque a arrecadação está caindo.

Inúmeras empresas darão fim às instalações físicas e, com a desaceleração da demanda por imóveis comerciais, os arranha-céus que marcam o horizonte de Manhattan e Mumbai serão mais elefantes brancos do que símbolos de poderio financeiro. E a vida talvez se torne ainda mais incerta para os que trabalham nas ruas, pois centenas de milhões dependerão da economia informal para sua subsistência.

“Se a pandemia se tornar o novo normal, dezenas de milhões de empregos no setor de serviços deixarão de existir nas grandes cidades”, escreveu Edward Glaeser, professor de economia de Harvard. “A única chance de impedir este armagedon do mercado de trabalho será investir bilhões de dólares de maneira inteligente em infraestrutura de saúde para fazer frente às pandemias, para que este terrível surto nunca mais se repita”, disse Glaeser. 

Em outros tempos, as doenças inspiraram inovações e mudanças substantivas. “Nos anos 1850, as cidades de Nova York, Paris e Londres reconstruíram suas redes de esgotos para acabar com uma pandemia global de cólera que durou um século, matou mais de 1,5 milhão de pessoas e introduziu uma nova era de serviços públicos urbanos que se espalharam por todo o planeta”, escreveu Steve LeVine na revista Medium‘s Gen.

“Quando as cidades foram atingidas por pandemias, no início do século 20, a sociedade respondeu com a ‘desdensificação’. Manhattan passou de 2,5 milhões de habitantes, em 1920, para 1,5 milhão, em 1970. Um processo semelhante ocorreu em Londres e Paris”, escreveu Joel Kotkin, urbanista da Chapman University, da Califórnia. “À medida que mais pessoas se mudaram para a periferia, as cidades se tornaram mais seguras. Uma estratégia semelhante nos ajudará no futuro.”

As cidades também se tornarão bases para uma onda de ensaios, desde experiências benignas – como as de muitas localidades que fecharam as ruas ao trânsito de automóveis e expandiram a vida ao ar livre, com espaços reservados para pedestres ou bicicletas – até as mais sinistras – no caso das novas tecnologias de vigilância e do rastreamento de contatos que poderão dominar a vida urbana mesmo após a pandemia.

No início do mês, a revista Foreign Policy publicou uma série de análises de urbanistas com visões do futuro das cidades. São muitas as razões para temermos a incapacidade de regeneração de algumas delas, mas o seu resultado serão centros metropolitanos mais equitativos, mais acessíveis e mais seguros em termos de saúde pública.

“Artistas e músicos poderão voltar, atraídos por aluguéis mais baixos, graças às consequências econômicas do vírus. A crise oferece ainda uma breve oportunidade para que as cidades caras e com alto grau de gentrificação possam começar de novo e reorganizar suas cenas criativas”, escreveu o urbanista Richard Florida, da Universidade de Toronto. “As previsões sobre a morte das cidades costumam ser seguidas de choques como este. Mas a urbanização mostrou sempre uma força maior do que as doenças infecciosas.

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