Em um vídeo de oito segundos no TikTok, a universitária americana Tinsley chora soluçando, olhos vermelhos, ao contar aos espectadores que foi rejeitada pela “república feminina” à qual ela esperava se juntar.
“Ah, meu bem, alguma república vai querer você, então, por favor, continue procurando!!!”, diz uma usuária do TikTok, em resposta ao vídeo, que teve quase 150 mil visualizações. “Não desista”, diz outra.
As palavras de consolo não serviram de nada. Tinsley, que em questão de dias arregimentou várias centenas de milhares de seguidores, na verdade, é uma “influenciadora 100% de inteligência artificial”, segundo sua criadora, Olivia Moore, sócia da a16z, uma firma de investimentos de capital de risco no Vale do Silício.
Para fazer um experimento, Moore gastou menos de dez minutos por dia, ao longo de uma semana em agosto, para gerar um perfil falso, usando apenas três ferramentas de lA, segundo explicou na plataforma de relacionamento social on-line X. “Este pode ser o futuro das marcas, do marketing e até do entretenimento”, disse Moore.
As ferramentas de lA de produção com qualidade cinematográfica vêm ajudando a criar milhares de avatares digitais, ou “influenciadores criados por lA”, na economia dos criadores de conteúdo, um mercado estimado em US$ 250 bilhões em 2023, seja na forma de novas personas criadas ou de clones de influenciadores existentes.
A tecnologia consegue ser tão convincente que uma influenciadora, Mia Zelu, conseguiu mais de 150 mil seguidores, graças a vídeos seus em plataformas sociais on-line que pareciam mostrá-la em Wimbledon neste verão europeu, até a revelação de que, na verdade, ela estava sendo gerada por IA e que o cenário era artificial.
É perigoso para os artistas. É perigoso para todos os criativos envolvidos em uma sessão de fotos” — Gabriella Halikas
Os defensores argumentam que essas ferramentas podem ajudar influenciadores existentes ao automatizar parte de seu trabalhotraduzir o conteúdo dos vídeos a outros idiomas, responder a seguidores ou criar versões animadas de si próprios para conseguir contratos de marketing, tudo isso enquanto eles podem até estar dormindo.
Para as marcas, há a promessa de um marketing barato e instantâneo feito por influenciadores, e ainda tendo o controle total sobre a aparência do avatar e o que ele diz. De acordo com Alexandru Voica, chefe de assuntos empresariais e diretrizes da startup de geração de mídia Synthesia, trata-se de um “grande igualador”, , que permite até às pequenas marcas, sem grandes orçamentos ter um “conteúdo bemacabado e de qualidade de estúdio, em escala”.
Por outro lado, a novidade tem deixado alguns influenciadores humanos – em particular, aqueles que não desejam usar a lA como parte de seus processos de criação de conteúdo – e suas equipes com medo de que as marcas os tirem da jogada.
Uma pesquisa com 500 profissionais de marketing realizada pela plataforma de marketing Influencer Marketing Hub e publicada em 2024 mostrou que quase 60% dos consultados já tinham experiência usando influenciadores gerados por lA em suas campanhas e que 15,5% planejavam fazê-lo. Para a maioria dos que já o fizeram, a capacidade de personalizar ou controlar o comportamento do influenciador criado por IA foi apontada como um fator importante.
“É perigoso para os artistas”, disse a criadora e modelo “plus-size” Gabriella Halikas. “É perigoso para todos os [profissionais] criativos envolvidos em uma sessão de fotos – seja de cabelo, maquiagem, estilista, modelo, fotógrafo, ‘videomaker’, trabalhador de sets, produtor.”
“Isso saiu do controle […] Então, você vai começar a ver mais pessoas tentando despertar a consciência [nas demais]”, acrescentou Halikas. “Acho que estamos apenas começando.”
A proliferação de conteúdo gerado por IA – e de contas 100% de IA – é um pilar central da estratégia de plataformas sociais on-line do Vale do Silício, de acordo com executivos. Em outubro, o executivo-chefe (CEO) da Meta, Mark Zuckerberg, previu que a lA prenunciaria uma “nova categoria inteira de conteúdo”. “Esta será uma das tendências importantes e uma das aplicações importantes”, disse Zuckerberg.
O próprio Al Studio, da Meta, permite aos criadores “gerarem uma extensão de lA de si mesmos”, usando dados de publicações anteriores para “mimetizar seu tom e expressões”. Muitos acreditam que, com o tempo, será possível fazer uma personalização em grande escala do conteúdo dos influenciadores específica para diferentes grupos de seguidores.
Ainda assim, Adrienne Lahens, ex-chefe de estratégia e operações de conteúdo global do TikTok, argumenta que os maiores vencedores serão os que se posicionarem como um novo tipo de influenciador: “artistas criados por lA”, pessoas com habilidades técnicas avançadas e conhecimento dos modelos de vídeo de lA criados por empresas como Google e OpenAl, que geram personagens com enredos convincentes, segundo Lahens.
Alex Mashrabov, fundador da Higgsfield Al, disse que alguns criadores de conteúdo vêm usando sua plataforma de vídeo para administrar “agências de talentos de lA”, direcionando seguidores para uma lista de influenciadores gerados por IA e ganhando receita de patrocínio sem precisar pagar por gravações reais ou viagens.
“O próximo império da mídia não surgirá em Hollywood ou no Vale do Silício, mas […] a partir de alguém de vinte e poucos anos com um pequeno grupo de personalidades de lA”, disse Mashrabov, ex-chefe de IA do Snap. Criadores individuais com as ferramentas certas, acrescentou ele, podem “superar estúdios, criar mais que agências e superar Hollywood em ditar as tendências”.
Já começa a surgir um rápido mercado para atender à economia dos criadores de lA, composto por estúdios dedicados a gerar personas virtuais e a gerenciar suas narrativas, e por empresas de publicidade conectando marcas a influenciadores virtuais.
Uma das primeiras influenciadoras virtuais, Lil Miquela, foi criada pela Brud, de Los Angeles, que chega a cobrar centenas de milhares de dólares por contratos com marcas como Burberry, Prada e Givenchy.
A Fameflow Al, que permite às marcas licenciarem avatares de lA de celebridades para campanhas de marketing, disse ter assinado com mais de 100 estrelas.
Outras firmas tiram totalmente os influenciadores reais da equação. Dylan Fournier, cofundador da Arcads, diz que pagar atores 100% gerados por lA para criar anúncios curtos custa “€ 10 em comparação aos € 300” de um criador real.
Várias grandes marcas vêm aderindo à experiência. No mês passado, a H&M revelou imagens de seu primeiro conjunto de “gêmeos digitais” (clones de modelos gerados por lA), que está usando em anúncios. A Hugo Boss trabalhou com a influenciadora virtual de cabelo cor-de-rosa Imma, que já tem cerca de 500 mil seguidores.
No entanto, outras grandes empresas de publicidade permanecem cautelosas, em particular, a respeito da questão ética de “se” e “como” o uso de lA precisa ser divulgado.
O “júri ainda está para decidir sobre o grau de aceitação pelo consumidor”, disse um executivo de uma grande agência de publicidade. “Há algumas exceções óbvias e de alta visibilidade que negociaram bem o fato de que são IA, mas se essa não for a estratégia e se for ‘apenas’ marketing de influenciadores, acho que há uma hesitação em ‘enganar’ as pessoas. Mesmo que transparente, é uma área espinhosa.”
Alguns sustentam que a lA não substituirá totalmente o papel do influenciador humano, pois não é possível se relacionar com ela, algo que parece ser confirmado pelos números. De acordo com um relatório da Twicsy, que analisou os ganhos, fluxos de receita e engajamento do público de mais de 11,5 mil influenciadores gerador por lA e reais, as publicações de influenciadores humanos tiveram 2,7 vezes mais engajamento do que as de personas de lA.
Influenciadores humanos ganham em média US$ 78.777 por publicação em comparação aos US$ 1.694 pagos aos de lA, segundo o relatório.
“A lA não pode experimentar coisas. Não pode ser um pai cansado. Não pode ter um problema de pele, não pode provar uma comida”, disse Jago Sherman, chefe de estratégia da The Goat Agency, subsidiária de influenciadores da WPP. Ele citou dados da eMarketer mostrando que 65% dos adultos se sentiam desconfortáveis com anúncios gerados por IA.
Ele previu que haveria um “aumento na fraude de influenciadores”. , em que alguns poderiam ser contratados para produzir conteúdo real, mas usariam a lA como um atalho. “Se pagamos por conteúdo humano e recebemos conteúdo não humano em troca, isso é ouro de tolo.”
Halikas advertiu que os influenciadores criados por lA estão estabelecendo padrões de beleza irreais, o que pode ser prejudicial para saúde mental. “Eles literalmente não são reais e acho que isso é muito preocupante para nossa juventude e para as mulheres.”
A tendência também alimenta temores de que plataformas como a Meta sejam inundadas pelo chamado “‘ixo de IA’- spams de baixa qualidade, com conteúdo bizarro ou enganoso gerado por lA, feitos para aumentar o engajamento do usuário para obter lucro.
A podcaster canadense e criadora de conteúdo Shira Lazar disse que esse tipo de material seria o “conteúdo fast-food” da internet e levaria mais usuários de plataformas sociais on-line a fazer pesquisas para saber de onde vem seu conteúdo. (Tradução de Sabino Ahumada)
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/09/02/a-ascensao-do-influenciador-criado-por-ia.ghtml
