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Desafio da Apple é enxertar gene de serviços em seu DNA

Nesta semana, quando a Apple fará seu mais importante ritual anual com o anúncio do mais novo iPhone, valerá a pena prestar atenção em um detalhe acima de tudo: o preço. O preço de US$ 1 mil estabelecido no ano passado para o iPhone X provocou indignação em alguns círculos e acusações de extorsão. O ultraje foi inapropriado.
Os clientes da Apple perfazem um dos mais fascinantes grupos de consumidores do mundo. Há estimados 700 milhões a 800 milhões de usuários ativos do iPhone e historicamente eles possuem renda maior que a
dos usuários dos aparelhos com o sistema operacional Android. Para um subconjunto considerável, o acesso ao produto não será um problema. Esse é o dispositivo mais importante de suas vidas.
É hora de desafiar os limites do preço novamente. O ciclo de substituição do iPhone foi estendido. Três anos atrás, o usuário comprava um novo aparelho em média a cada 2,4 anos, segundo o ex-analista de Wall Street Gene Munster, hoje na Loup Ventures. De lá para cá essa média subiu para 3,5 anos.
Desde o iPhone 6, lançado há quatro anos com a tela maior, houve menos motivos a cada ano para trocar. Antes, a maioria dos usuários ansiava por uma mudança frequente de telefone (e em países como os Estados Unidos, a maioria dos planos de celulares cobria o custo das substituições regulares). A boa notícia é que o número de usuários é muito maior, o que significa que até mesmo o aumento no tempo de substituição não levou a uma queda das vendas.
Mas as intenções de aprimoramento se tornaram uma variável difícil de impor. Hoje, algo entre 150 milhões e 175 milhões de usuários do iPhone possuem aparelhos com dois a três anos de uso, segundo Neil Cybart, analista da Above Avalon especializado em Apple. Isso poderá resultar em um aumento considerável das vendas no próximo ano.
Tudo isso resultou num tipo de languidez próspera para o iPhone. As vendas atingiram o pico com o lançamento do iPhone 6. A maior parte das estimativas sugerem que as vendas do iPhone no ano que vem ficarão abaixo do pico de 231 milhões de unidades de 2015.
Isso torna significativa a capacidade da Apple de aumentar os preços. Ela fez isso com o iPhone 6 Plus, que veio com um aumento médio de 11%. Algo mais impressionante está ocorrendo neste ano, com um aumento de 15% nos primeiros nove meses do ano fiscal da companhia, graças ao modelo X.
Mas mesmo com outra elevação no topo da linha, é improvável um grande aumento em todos os modelos. Na verdade, a faixa de preços deverá ser ampliada nos próximos anos. Os donos de iPhones de segunda mão representaram 21% da base total de usuários em 2016, segundo o Morgan Stanley – uma proporção que segundo analistas deverá crescer para 36% até 2024. Com a concorrência de seus próprios modelos anteriores, a Apple terá de manter baixo o piso da banda de preços, para encorajar os usuários a comprar novos aparelhos.
Isso tudo ajuda a explicar a profundidade com que a história da Apple está mudando – e por que o evento anual de
lançamento do iPhone não é mais o acontecimento supremo para os fãs da companhia em Wall Street.
Apesar da pouca perspectiva de crescimento das vendas do iPhone nos próximos anos, as ações da Apple vêm passando por uma espécie de reavaliação. Elas acumulam valorização de 38% nos últimos 12 meses. Parte disso reflete a liberação de caixa da companhia no exterior depois da reforma tributária nos Estados Unidos. Mas algo mais vem ocorrendo. Os investidores passaram a ver o iPhone cada vez mais como uma âncora em um ecossistema maior que oferece novas maneiras de se ganhar dinheiro. Por exemplo, extensões de “hardware” como o relógio Watch contribuirão com 30% para o crescimento da receita total da Apple nos próximos cinco anos.
Mas o mais importante é que projeta-se que 62% do crescimento virá da venda de conteúdo e serviços. E graças à maior margem de lucro, 90% da alta dos lucros da companhia antes dos juros e impostos dependerá de coisas como a App Store, Apple Music e iCloud.
Faz apenas dois anos que Wall Street coçou sua cabeça coletiva ao esforço da Apple de atrair mais atenção para suas operações com serviços. Isso foi visto como tentativa de distração da fraqueza do crescimento das vendas do iPhone. A questão para a maioria dos investidores agora é diferente: conseguirá a Apple enxertar um gene de serviços em seu DNA de “hardware”?
O CEO da empresa, Tim Cook, fará tudo o que estiver ao seu alcance esta semana para manter os holofotes sobre o dispositivo que lançou a revolução do smartphone. Mas no que diz respeito a uma apreciação plena das possibilidades para a Apple, o foco mudou para outro lugar.

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