A União Europeia está oferecendo € 10bilhões (US$ 11,4) em financiamento para empresas construírem sete “gigafábricas” de inteligência artificial, em um esforço para reduzir a defasagem em relação aos Estados Unidos e à China no setor de IA, informou ontem o braço executivo do bloco de 27 nações.
A Comissão Europeia afirmou que espera que esse financiamento público atraia outros € 20 bilhões (US$ 22,8 bilhões) em investimentos privados. “O acesso a uma enorme capacidade de processamento computacional dentro de gigafábricas de IA é uma necessidade estratégica para a Europa à medida que o desenvolvimento da IA se acelera”, disse Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão responsável pela soberania tecnológica.
Os esforços de Bruxelas para estabelecer a “soberania tecnológica” ganharam urgência com a preocupação dos líderes em relação à dependência de tecnologias de fornecedores estrangeiros, as quais, segundo eles, poderiam ser usadas como “arma” contra os europeus.
O presidente dos EUA, Donald Trump, criticou duramente a UE por suas regulamentações tecnológicas, enquanto a China limitou o fornecimento de minerais essenciais para o setor.
As empresas agora podem concorrer a contratos para construir gigafábricas projetadas para abrigar pelo menos 100 mil chips de IA de última geração, tornando-as cerca de quatro vezes mais potentes do que os centros de dados atualmente em operação na UE. A atual capacidade computacional da UE – fornecida por uma rede de 19 centros de dados de IA que se estende da Finlândia à Espanha – mais do que dobrará quando essas sete gigafábricas entrarem em operação.A Europa está muito atrás dos EUA e da China em setores cruciais para o desenvolvimento da IA, segundo uma avaliação de 2025 do Federal Reserve dos EUA.
A China possui uma enorme capacidade de energia elétrica para centros de dados, enquanto os EUA concentram a maior parte dos investimentos privados em IA.
A Europa não fabrica muitos dos milhões de componentes necessários para centros de dados, e a eletricidade na UE pode custar o dobro ou o triplo do preço praticado nos EUA e na China, de acordo com um relatório da Comissão apresentado ao Parlamento Europeu em junho.
“As empresas e autoridades públicas europeias continuarão a depender de fornecedores de IA dos EUA, em detrimento dos Empresas prestadores de serviços europeus que lutam para atuar na fronteira tecnológica”, afirmou o relatório, apontando que os cinco principais fornecedores de serviços em nuvem do bloco são todos americanos. “A dependência de provedores de serviços de computação em nuvem de hiperescala e de IA – particularmente para casos de uso altamente críticos – continuará a expor dados ao acesso por parte de terceiros países e a acarretar riscos à continuidade dos serviços, comprometendo a autonomia operacional.”
A francesa Mistral opera atualmente um dos maiores data centers de IA da UE até o momento, em seu campus em Paris. A Mistral é a criadora do chatbot Le Chat, mas não acompanhou o ritmo de empresas americanas de IA, como a OpenAI (criadora do ChatGPT), e de rivais chinesas, como a DeepSeek.
Embora líderes políticos, como o presidente francês Emmanue Macron, tenham alertado para a falta de empresas de IA nativas da Europa, há uma profunda preocupação em todo o continente quanto às perturbações econômicas e às implicações para a privacidade decorrentes dessa tecnologia emergente.
A Comissão afirmou que os produtos de IA desenvolvidos com essa rede crescente de data centers “seguiriam os padrões da UE em matéria de proteção de dados, segurança e ética” – referindo-se, possivelmente, à Lei de Serviços Digitais e à Lei de Mercados Digitais do bloco.
Em junho, 40 prefeitos de diversas partes do mundo assinaram um pacto para mitigar os impactos negativos da construção de dat centers de IA sobre recursos naturais, preços de energia ou metas climáticas de cidades que vão de Phoenix a Melbourne.
