A OpenAl assinou neste ano cerca de US$ 1 trilhão em acordos para obter poder de computação destinado a operar seus modelos de inteligência artificial, compromissos que superam em muito sua receita e levantam dúvidas sobre como a empresa vai conseguir financia-los.
O acordo firmado nesta segunda-feira (7) com a fabricante de chips AMD segue outros semelhantes com Nvidia, Oracle e CoreWeave, enquanto a OpenAl corre para garantir a capacidade computacional que acredita precisar para sustentar serviços como o ChatGPT.
Esses contratos dariam à OpenAl acesso a mais de 20 gigawatts de capacidade computacional, o equivalente aproximado à energia gerada por 20 reatores nucleares, ao longo da próxima década.
Segundo estimativas de executivos da própria OpenAl, cada 1 GW de capacidade de computação em IA custa cerca de US$ 50 bilhões para ser implantado aos preços atuais, o que eleva o custo total para cerca de US$ 1 trilhão.
Os acordos amarram alguns dos maiores grupos tecnológicos do mundo à capacidade da OpenAl de se tornar um negócio lucrativo que pode cumprir suas obrigações financeiras cada vez mais pesadas.
“A OpenAl não está em posição de assumir nenhum desses compromissos”, disse Gil Luria, analista da DA Davidson, acrescentando que a empresa pode perder cerca de US$ 10 bilhões neste ano.
“Parte da filosofia do Vale do Silício de finja até conseguir’ é fazer com que as pessoas tenham algo a perder. Agora, muitas grandes empresas têm muito a perder com a OpenAl”, completou.
A OpenAl está queimando dinheiro em infraestrutura, chips e talentos, sem dispor do capital para bancar seus planos grandiosos.
Os acordos também envolvem arranjos circulares entre a startup mais valiosa do mundo e seus parceiros, além de termos financeiros complexos que, em muitos casos, ainda não foram definidos.
Segundo cálculos do “Financial Times”, os contratos com Nvidia e AMD podem custar até US$ 500 bilhões e US$ 300 bilhões, respectivamente, embora ambos incluam incentivos que podem ajudar a OpenAl a pagar pelos chips adquiridos.
O acordo com a Oracle custará outros US$ 300 bilhões, enquanto o grupo de “data centers” CoreWeave já revelou contratos de computação com a OpenAl no valor de mais de US$ 22 bilhões.
A OpenAl também lançou em janeiro, em parceria com SoftBank, Oracle e outros, a iniciativa Stargate, que promete investir até US$ 500 bilhões em infraestrutura nos EUA para apoiar a empresa. Ainda não está claro como os acordos com Nvidia e AMD se encaixarão no Stargate.
A criadora do ChatGPT não informou se vai comprar os chips diretamente ou por meio de parceiros. É esperado que alugue parte dos chips da Nvidia.
A OpenAl garantiu incentivos financeiros significativos de seus fornecedores em troca das compras de chips.
A Nvidia planeja investir na OpenAI US$ 100 bilhões ao longo da próxima década, fornecendo recursos que a empresa poderá usar para comprar chips da própria Nvidia para seus “data centers” de IA.
A AMD concederá à OpenAl bônus de subscrição que lhe dão o direito de adquirir até 10% das ações da empresa por um centavo por ação, dependendo do cumprimento de certas metas, incluindo vinculadas ao preço de ações da AMD.
As ações da AMD fecharam em US$ 211,51, alta de 3,8%, nesta terçafeira, na Nasdaq, de Nova York. Se continuarem subindo, a OpenAl poderá vender essas ações para financiar seus gastos com chips da AMD.
“É uma estrutura bastante inovadora, que não surgiu de modo frívolo”, disse a CEO da AMD, Lisa Su, na segunda-feira.
Os acordos com a OpenAl também geraram impulso financeiro imediato aos parceiros da startup. O valor de mercado da Oracle saltou US$ 244 bilhões após o anúncio de seu acordo. As ações da AMD subiram quase 24% na segunda-feira, elevando seu valor de mercado em US$ 63 bilhões.
Essas relações circulares aumentaram as preocupações com uma possível bolha em torno da IA, em um momento em que investidores temem que os gastos com “data centers” de inteligência artificial estejam sustentando artificialmente o crescimento econômico dos EUA.
Para financiar sua expansão, a OpenAl levantou grandes volumes de capital próprio e começou a recorrer ao mercado de dívidas. A empresa obteve US$ 4 bilhões em empréstimos bancários no ano passado e levantou cerca de US$ 47 bilhões em rodadas de capital de risco nos últimos 12 meses, embora boa parte desse valor dependa de uma complexa negociação com a Microsoft, sua maior apoiadora.
O risco de crédito percebido da startup tem gerado preocupação. A agência Moody’s destacou o quanto do futuro negócio de “data centers” da Oracle depende da OpenAl e de seu caminho ainda incerto para a lucratividade. (Colaborou Cristina Criddle, de San Francisco) (Tradução de Marina Della Valle)
