Nacionalismo ameaça ser um efeito colateral do avanço do coronavírus

O livro “Mundo sem Fronteiras”, de Kenichi Ohmae, foi publicado em 1990, um ano após a queda do Muro de Berlim. Tornou-se um dos textos clássicos da era da globalização. Mas as fronteiras voltam agora com muito mais força – impulsionadas pelo coronavírus. 

Quando a pandemia acabar, as barreiras mais rigorosas para viagens serão revogadas. Mas é pouco provável que haja uma restauração completa do mundo globalizado como existia antes da covid-19. O Estado-nação está de volta, alimentado por esta crise extraordinária. 

Existem três motivos principais para isso. Primeiro, a pandemia demonstrou que, em tempos de emergência, as pessoas recorrem ao Estado-nação – que tem as forças financeiras, organizacionais e emocionais de que as instituições mundiais carecem. Segundo, a doença revelou a fragilidade das cadeias de fornecimento globais. É difícil acreditar que países grandes e desenvolvidos continuarão a aceitar uma situação em que precisam importar a maioria de seus suprimentos médicos vitais. 

Por último, a pandemia reforça tendências políticas que já eram fortes antes do início da crise – em particular a demanda por mais protecionismo, produção localizada e controles de fronteira mais rígidos. 

Na situação atual, faz sentido endurecer os controles de fronteira por um tempo. E, se a reversão ao Estado-nação for mantida dentro de limites, isso não precisa ser ruim. Seria simplesmente o tipo de correção do curso político que ocorre nas democracias, em resposta a acontecimentos e a mudanças de ânimo da opinião pública. Mas o perigo é que o renascimento do Estado-nação caia no nacionalismo descontrolado e leve a quedas no comércio global e ao abandono quase total da cooperação internacional. Os piores cenários incluem o colapso da União Europeia (UE) e uma ruptura nas relações entre EUA e China, o que poderia culminar em uma guerra. 

A reversão para o Estado-nação tem sido especialmente impressionante na Europa, porque se supõe que a UE seja a organização que mais avançou na direção de transcender a nação. Quando a premiê alemã, Angela Merkel, fez um discurso de emergência à nação, ela não mencionou a UE nem uma vez. Os controles de fronteira que tinham praticamente desaparecido – por exemplo, entre a França e a Alemanha – foram restaurados de repente. A ajuda financeira para empresas e trabalhadores desempregados vem em grande parte dos países europeus, não da UE. Políticos de destaque na Polônia, Itália e Espanha criticaram a UE por fracassar em cumprir sua promessa de solidariedade. 

Considerando os tamanhos relativos dos orçamentos da UE e dos países europeus, é inevitável que os governos assumam a maior parte da conta, enquanto lutam para evitar uma depressão. Nos próximos dias, a UE tentará apresentar grandes medidas fiscais pan-europeias. Mas, à medida que a crise se intensifica – e os recursos financeiros e médicos se tornam cada vez mais escassos – as pressões sobre a solidariedade europeia aumentarão. 

O antagonismo que a pandemia abriu entre EUA e China são mais visíveis. A decisão de Donald Trump de rotular a covid-19 de “vírus da China” é típica do estilo político do presidente dos EUA, de distribuir insultos e transferir responsabilidades. Mas também é uma reação aos esforços das autoridades chinesas em sugerir que o vírus pode ter se originado nos EUA. Bill Bishop, um observador experiente, comentou há pouco tempo: “Não consigo pensar em um momento mais perigoso do relacionamento EUA-China nos últimos 40 anos.” 

A pandemia também fortalece, dentro do governo Trump, a posição dos que defendem há muito tempo o desmantelamento das cadeias de fornecimento internacionais e a repatriação da produção para os EUA. Peter Navarro, o protecionista mais ardoroso da Casa Branca, argumenta que o vírus demonstra que “em uma emergência de saúde pública mundial, os EUA estão sozinhos”. Sem dúvida é verdade que uma situação em que 97% de todos os antibióticos nos EUA são importados da China nunca mais parecerá aceitável. 

Essas considerações vão muito além de medicamentos e da tensa relação EUA- China. Há apenas algumas semanas era possível para um consultor do governo britânico sugerir (no contexto do Brexit) que não havia necessidade real de o Reino Unido produzir sua própria comida. Mas agora que nações inteiras, assim como indivíduos, têm de praticar o autoisolamento, ninguém pode presumir de forma casual que os gêneros de primeira necessidade possam ser sempre importados do exterior. 

Inicialmente, a rejeição estimulada pela pandemia contra a globalização virá de protecionistas e linha-dura na segurança nacional. Mas ela ganhará força à medida que se fundir com outras correntes políticas que conquistavam espaço antes de que qualquer um tivesse ouvido falar da covid-19. Na esquerda, o movimento ambientalista já estigmatizava as viagens aéreas e reivindicava que o local devia reverter a globalização. Na direita, o clamor por muros para impedir a entrada de refugiados e imigrantes ilegais era cada vez maior. 

Mas, embora os adversários da globalização possam ter os ventos políticos a seu favor na sequência da pandemia, eles na verdade não têm as melhores soluções. Pelo contrário, uma pandemia é um problema mundial por excelência, que em última instância exige alguma forma de governança internacional. Reviver a economia mundial também será muito mais difícil se os países rumarem para a autossuficiência 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/03/24/nacionalismo-ameaca-ser-um-efeito-colateral-do-avanco-do-coronavirus.ghtml

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