Na China, IA substitui atores por versões digitais de si mesmos

Os atores e influenciadores digitais chineses têm um novo rival: programas avançados de geração de vídeo com inteligência artificial (IA) de baixo custo que ameaçam milhões de empregos em um setor outrora próspero no mercado de trabalho da China.

O lançamento de novos e poderosos softwares de vídeo com inteligência artificial — como o modelo Seedance 2.0 do grupo tecnológico ByteDance — permite que atores digitais substituam humanos, possibilitando a produção de vídeos originais de maior qualidade e com mais rapidez.

A ascensão da tecnologia digital se intensificou após o lançamento do Seedance 2.0 neste ano, disse Greg Wollner, ator e produtor de curtas-metragens em Pequim. Antes do lançamento, ele filmava três produções diferentes por semana. “Depois disso, tudo desmoronou.”

Muitos dos amigos de Wollner “tiveram que abandonar o que amavam e mudar para outra coisa”, disse ele.

Em maio, 89 dos 100 dramas animados mais populares no Douyin — versão chinesa do TikTok pertencente à ByteDance — eram produções de inteligência artificial, de acordo com a DataEye, empresa de análise de marketing.

No primeiro trimestre de 2026, cerca de 128 mil séries curtas foram lançadas na China, mais de três vezes o número de todo o ano anterior, sendo que 95% delas foram geradas por inteligência artificial, de acordo com a Associação Chinesa de Serviços de Transmissão On-line.

As consequências econômicas podem ser drásticas. A indústria de séries curtas na China emprega 690 mil pessoas diretamente, segundo um relatório de 2026 da Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim. Cerca de 15 milhões de pessoas citam a transmissão ao vivo como sua principal profissão, de acordo com um relatório de 2024 da Associação de Serviços de Transmissão On-line.

No comércio eletrônico ao vivo, apresentadores digitais gerados por inteligência artificial podem vender 24 horas por dia a um custo aproximadamente 10% menor, segundo estimativas da mídia estatal chinesa. Em março, os apresentadores digitais da plataforma de comércio eletrônico JD.com estavam sendo utilizados por mais de 70 mil comerciantes, de acordo com o portal de notícias financeiras Yicai.

Segundo a Baidu, uma das maiores empresas chinesas de tecnologia, um sósia digital do famoso streamer Luo Yonghao superou as vendas da pessoa real em diversas categorias de produtos, gerando 55 milhões de yuans (US$ 7,7 milhões) em apenas sete horas.

Em 2024, uma produção dramática de três a cinco minutos levava três meses para ser concluída por uma equipe de cinco pessoas. Hoje, um único funcionário realiza o mesmo processo em um ou dois dias, segundo o professor Shen Yang, diretor do laboratório de metaverso da Universidade de Tsinghua e diretor da empresa de animação com IA Zeelin.

O preço médio gira em torno de 600 a 800 yuans (US$ 90 a US$ 120) por minuto, 10% do custo de quando se utilizavam atores humanos. Em maio, a Zeelin publicou cerca de 8 mil episódios curtos de um minuto cada.

Em alguns casos, artistas estão sendo forçados a “emprestar” suas imagens, vozes e estilos de atuação a ferramentas de inteligência artificial antes de perderem seus empregos. “Eu estava praticamente encurralada”, disse a apresentadora de um popular programa infantil educativo, que foi informada em abril que precisava consentir com a criação de uma réplica de IA de si mesma, ou a empresa encontraria outros atores que aceitassem.

“No início, os atores que aceitavam esses papéis se sentiam envergonhados porque eram vistos como se estivessem roubando o trabalho de outros”, disse a apresentadora, que preferiu não ser identificada. “Agora parece que a mudança é inevitável.”

Além dos atores, há preocupações de que outros tipos de profissionais também estejam sendo forçados a treinar seus substitutos de IA antes de ser demitidos. Advogados afirmam que as disputas trabalhistas relacionadas à inteligência artificial aumentaram consideravelmente nos últimos dois a três anos.

Os trabalhadores podem usar a demissão provada pelo uso de IA como justificativa para negociar indenizações maiores, disse Jiang Xiaotong, advogado trabalhista de Zhejiang, que representou um profissional no que se acredita ser o primeiro caso judicial no polo tecnológico de Hangzhou, na China, envolvendo um funcionário supostamente substituído por IA. O tribunal determinou que a empresa pagasse uma indenização maior ao trabalhador.

A apresentadora de programas educativos infantis disse que sua oferta inicial de demissão era de 10 meses de salário pelo uso perpétuo de sua imagem, voz e semelhança. Ela acabou aceitando um contrato de cinco anos, um ano de salário e direito de veto.

O ator Todd Kuhns viu seu trabalho desaparecer. Ele e seus colegas disseram sentir uma “sensação geral de frustração e resignação ao verem seus meios de subsistência ser destruídos por ferramentas que exploraram suas próprias performances”.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/08/31/na-china-ia-substitui-atores-por-versoes-digitais-de-si-mesmos.ghtml

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