Marcas inovadoras devem ser veículos para a expressão de seus consumidores

Em tempos de alta demanda cognitiva, a tecnologia parece ter um papel paradoxal. Por um lado, ela ajuda em nosso cotidiano, em casa ou no trabalho. Por outro, também acelera ainda mais a velocidade, que já é intensa.

Para que marcas e pessoas não se percam nessa tempestade digital, Caio Amato, presidente global da Oakley e do hub de sports performance da EssilorLuxottica, defende que a inovação tenha sempre o ser humano como propósito central.

“Tudo deriva de valor e propósito. Mas, quando a gente entra no mercado corporativo, parece que as coisas ficam sérias e desumanizam”, diz o executivo, palestrante confirmado no São Paulo Innovation Week. “Transformar propósito e visão em valor é voltar a ser humano dentro do mundo corporativo.”

O melhor festival global de tecnologia e inovação aterrissa em uma das cidades mais potentes do mundo.

Este será o tema central de seu painel, no qual pretende conectar inovação, visão e propósito como a base de um negócio ou serviço sustentável e prolífico. “Nós, como marca, somos um veículo para as pessoas se autoexpressarem. E a gente tem de ter noção dessa insignificância. Se você não se coloca no lugar de veículo para as pessoas se expressarem, se acha que como marca você dita tendência, é aí que você não inova.”

Na entrevista a seguir, Amato fala da parceria com atletas multicampeões como Kylian Mbappé, da contribuição que o rapper estadunidense Travis Scott traz à Oakley como chief visionary officer e do desenvolvimento dos visores que os astronautas da missão Artemis II estão usando em sua viagem à Lua. Também faz um alerta contra pirataria e relembra a própria história, em que esporte e empatia foram vetores de sua jornada no marketing de grandes marcas como Mizuno e Adidas.

O São Paulo Innovation Week é um festival global de tecnologia e inovação realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos. O evento vai ocupar o Pacaembu e a Faap entre 13 e 15 de maio. Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.

Leia trechos da entrevista abaixo:

No seu dia a dia na Oakley, com sua equipe e suas metas, como você enxerga e integra inovação, visão e propósito?

Aprendi na minha carreira, muito cedo, que nós, como marca, somos um veículo para as pessoas se autoexpressarem. E a gente tem de ter noção dessa insignificância. Se você não se coloca no lugar de veículo para as pessoas se expressarem, se acha que como marca você dita tendência, é aí que você não inova. Acho que o segredo da inovação está em se colocar nesse lugar de humildade como marca, buscando verdades universais e tentando negar essas verdades universais. Onde você busca essas verdades universais? Pode ser com a Axiom, que está indo para o espaço agora, pode ser com um atleta de bicicleta, ou com uma pessoa com quem você convive. É tudo baseado nisso e voltar aos valores mais intrínsecos do ser humano. Nosso lado mais humano não tem vergonha de falhar e mostrar vulnerabilidade. E a partir daí é que nascem ideias e inovação.

Dentro da Oakley, a gente tem duas frases de que eu gosto muito. Uma é que a gente não prevê o futuro, que a gente cria o futuro — o que dá aquele senso de responsabilidade. A segunda frase é que a gente define o problema, acha a solução e embrulha em arte, necessariamente nessa ordem.

Um dos acontecimentos recentes que mais transpiram inovação na Oakley é a parceria com a Meta, que inclui, na EssilorLuxottica, a Ray-Ban. Vocês lançaram inclusive usando um canhão, o Super Bowl, com 120 milhões de pessoas assistindo à campanha. Queria entender como, de fato, essa inovação se embrenha ao humano do dia a dia, aquele que pratica esporte, corre, pedala.

A gente sempre fica se perguntando como que vai desafiar grandes accepted beliefs, grandes crenças universais. Óculos sempre foi um objeto para corrigir a visão ou proteger contra raios solares. Essa é a verdade universal. Conversando entre nós, e até com o Gabriel Medina um dia, (pensamos) o quão legal não seria se eu conseguisse surfar com um amigo na Austrália e eu estando no Brasil. O quão legal não seria jogar tênis de quadra ou de mesa com um amigo que está do outro lado do planeta. Nesse momento a gente começou a pensar em transformar os óculos em um objeto de expansão humana. Eu gosto muito da forma límbica, da forma mais emocional, afinal, somos todos seres humanos cheios de propósito. Você pode explicar como um óculos com câmera 4K, com som, que grava vídeos, tira foto e fala com AI. Ou posso te explicar da seguinte maneira: esses óculos são um amplificador humano, não estão aqui para te fazer menos humano, estão aqui para te amplificar. Você passa a não capturar conteúdo mais, você passa a capturar vida. Eu estou num show, não preciso parar de assistir para gravar o show. Posso gravá-lo enquanto assisto. Eu estou andando de bike, vejo um pôr do sol, não preciso mais parar e tirar o meu telefone do bolso para gravar aquilo. Eu posso viver enquanto eu gravo.

A segunda coisa que eu gosto de dizer é que esses óculos trazem toda a informação que a humanidade já criou a um ‘Hey, Meta’ de distância de você. Está na frente de um monumento, pode perguntar: ‘Hey, Meta, o que é esse monumento?’, e ele vai te contar. Pode perguntar onde está a borracharia mais próxima se o seu pneu furar e por aí vai. Muita gente tem medo do que a IA pode trazer pra humanidade, mas nós, da Oakley, escolhemos ver a IA como um amplificador humano. Nossa marca no passado foi distópica, via o mundo com certa negatividade, um mundo pós-apocalíptico. De uns anos para cá, a gente virou ‘protópico’. Vemos o mundo com os defeitos que ele tem, mas escolhemos criar aquele futuro, que é um futuro cheio de esperança e inovação.

A inovação da Oakley vem antes da moda? A gente viu agora, por exemplo, nas Olimpíadas de Inverno, o Lucas Braathen, que ganhou no esqui e usava óculos Oakley, como muitos atletas de alta performance, ou até a Nasa, sendo a Oakley fornecedora de visores. Mas queria entender como funcionam essas parcerias com atletas de alta performance nas mais variadas modalidades.

Como te disse, a gente busca definir problema, criar solução, embrulhar em arte. E, nessa definição de problema, a gente geralmente fala com pessoas ou companhias representativas de uma comunidade ou de um grupo de pessoas. Por exemplo, o Mark Cavendish, o maior velocista de bike da história: falo com ele porque ele eleva o corpo a um extremo de que eu posso tirar inspirações para criar tecnologias que sirvam depois para pessoas dos mais diversos níveis. O Travis Scott, nosso chief visionary officer, é um tópico legal. Por que a gente escolheu o Travis Scott? Porque ele tem uma habilidade de transformar sentimento em produto que é única.

Somos uma empresa open source. Temos nosso código-fonte aberto, e a gente traz pessoas e entidades que nos ajudam a criar para esse código-fonte, que é criar para o futuro e entregar no presente. Um desses papos foi com um dos capitães da Axiom, que me contou uma coisa que eu e o time todo, a gente ficou incrédulo: quando se está no espaço, imaginamos flutuando naquele fundo negro, todo escuro e parece que está em paz. Quando você olha para o sol sem o que temos na Terra, sem gases nos protegendo, sem a atmosfera, são 120°C no seu olho. É como se você tivesse enfiando a sua cara dentro de um fogão, basicamente. Aí você fala: ‘Mas, Caio, vai pra sombra. Por que que cê vai ficar olhando pro sol?’ A sombra é -100°C. O nível de radiação que você tem, quando você está no espaço, é surreal, ao ponto de, em três minutos, ter 85% de chance de ter um problema no olho, como câncer. Falando com eles, a gente percebeu essa necessidade de criar um produto que protegesse da radiação e desses 120°C ou -100°C. Aí a gente foi de volta para os nossos cientistas, testou milhares de materiais e, por incrível que pareça, o material que mais bloqueou a radiação, esse calor e frio, quase em sua totalidade, foi o ouro. E também faria com que a pessoa visse com mais contraste. Desenvolvemos uma máquina específica à vácuo: colocava o ouro em pó no fundo da máquina e o visor no topo, aí tira todo o ar, esquenta esse ouro e as partículas vão subindo enquanto o visor gira em cima da máquina, para colorir uniformemente.

https://www.estadao.com.br/midia-mkt/caio-amato-marcas-inovadoras-devem-ser-veiculos-para-a-expressao-de-seus-consumidores

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