Desde o lançamento do ChatGPT, há três anos, analistas e tecnólogos – e até um engenheiro do Google e o exexecutivo-chefe da empresa – têm dito que o Google está atrasado na crucial corrida para desenvolver a inteligência artificial. Não mais.
A gigante da internet lançou novos softwares de IA e fechou transações, como uma parceria no setor de chips com a Anthropic, que tranquilizaram os investidores de que a empresa não perderá facilmente para a OpenAl, criadora do ChatGPT, e outras concorrentes.
O mais novo modelo de IA do Google, o Gemini 3, ganhou reconhecimento imediato por suas capacidades de raciocínio e programação, assim como por sua habilidade em tarefas especializadas. A unidade de computação em nuvem do Google tem crescido de forma constante, em parte por causa da pressa mundial para desenvolver serviços de IA e da demanda por poder de computação.
E há sinais de aumento da demanda pelos chips especializados de lA do Google, uma das poucas alternativas viáveis aos equipamentos da dominante Nvidia. A notícia, publicada na segunda-feira, de que a Meta está em negociações para usar os chips do Google, fez o preço das ações de sua controladora, a Alphabet, disparar.
As ações da empresa ganharam quase US$ 1 trilhão em capitalização de mercado desde meados de outubro. A Alphabet está no rumo de chegar a um valor de mercado de US$ 4 trilhões pela primeira vez. “Pode-se dizer que o Google sempre foi considerado o azarão na corrida da IA”, disse Neil Shah, um dos fundadores e analista da Counterpoint Research. “É um gigante adormecido que agora está totalmente desperto.”
Durante anos, os executivos do Google argumentavam que pesquisas aprofundadas e dispendiosas ajudariam a empresa a se defender das rivais, manter sua posição como o principal mecanismo de buscas da internet e inventar as plataformas de computação do futuro. Aí surgiu o ChatGPT, a primeira ameaça real a seu mecanismo de buscas em anos, apesar do fato de que o Google foi um pioneiro na tecnologia que sustenta o chatbot da OpenAl.
Ainda assim, o Google conta com muitos recursos que a OpenAl não tem: um conjunto de dados disponíveis para treinar e refinar modelos de inteligência artificial; um bom fluxo de lucros; e uma infraestrutura de computação própria. “Adotamos uma abordagem completa, profunda e de ponta a ponta para a IA”, disse o executivo-chefe do Google e da Alphabet, Sundar Pichai, aos investidores no último trimestre. “E isso realmente se reflete nos resultados.”
Além disso, quaisquer preocupações de que as agências reguladoras pudessem atrapalhar o avanço do Google estão desaparecendo. Recentemente, a empresa conseguiu evitar o pior resultado de um processo judicial antitruste nos Estados Unidos – o desmembramento de suas unidades -, em parte por causa da percepção de que novos rivais na área da IA eram uma ameaça.
E a gigante das buscas tem mostrado algum avanço em seu esforço de longa data para se diversificar para além de seu negócio central. A Waymo, unidade de carros autônomos da Alphabet, está chegando a várias novas cidades e acaba de acrescentar a condução em rodovias ao seu serviço de táxi, um feito possibilitado pela enorme quantidade de pesquisa e investimento da empresa.
Parte da vantagem do Google vem da estrutura de seu negócio. É uma das poucas empresas que produz o que o setor chama de pilha completa em computação. Ela cria os aplicativos de IA que as pessoas usam, como seu popular gerador de imagens Nano Banana, mas também os modelos de software, a arquitetura de computação em nuvem e os chips que a alimentam.
O Google tem uma mina de ouro de dados para desenvolver modelos de IA, obtidos com seu mecanismo de buscas, celulares com sistema Android e o YouTube – dados que muitas vezes não são compartilhados com outros. Isso significa que, em teoria, o Google tem mais controle sobre a direção técnica dos produtos de lA e não precisa necessariamente pagar fornecedores, ao contrário da OpenAl.
Várias empresas de tecnologia, como a Microsoft e a OpenAl, planejam maneiras de desenvolver semicondutores próprios ou forjar parcerias que as tornem menos dependentes dos campeões de vendas da Nvidia. Durante anos, o Google era, na prática, seu próprio e único cliente no caso dos processadores que desenvolveu internamente, chamados de Unidades de Processamento de Tensor (TPUs na sigla em inglês), projetados há mais de uma década para manejar tarefas complexas de IA. Isso está mudando. Em outubro, a startup de IA Anthropic anunciou que usaria até 1 milhão de TPUs do Google em uma transação avaliada em dezenas de bilhões de dólares.
“Pode-se dizer que o Google sempre foi considerado o azarão na corrida da IA” Neil Shah
Na segunda-feira, o site de notícias The Information informou que a Meta planejava usar os chips do Google em seus centros de dados em 2027. O Google não quis comentar planos específicos, mas informou que sua unidade de computação em nuvem tem “acelerado a demanda” tanto por suas TPUs personalizadas como pelas unidades de processamento gráfico (GPUs na sigla em inglês) da Nvidia. “Estamos comprometidos em dar suporte a ambas, como temos feito há anos”, escreveu um porta-voz em um comunicado.
A Meta se recusou a comentar a notícia na noite de segunda-feira. “Estamos felizes com o sucesso do Google”, disse um porta-voz da Nvidia em uma nota ontem (25). “Eles fizeram grandes avanços em IA e nós continuamos a fornecer para o Google.” O porta-voz acrescentou: “A Nvidia está uma geração à frente do restante do setor – é a única plataforma que executa todos os modelos de IA e faz isso em todos os lugares onde a computação é realizada.”
Analistas interpretaram a notícia da Meta como um sinal do êxito do Google.
O Google assumiu riscos para chegar até aqui. No início de 2023, consolidou suas iniciativas na área de IA sob a liderança de Demis Hassabis, o líder de seu laboratório de IA em Londres, o DeepMind.
A reestruturação teve alguns percalços, sendo que o mais notável foi o fiasco do lançamento de um produto de geração de imagens. Apesar disso, Hassabis, um renomado cientista da computação, ajudou a manter na empresa engenheiros de IA importantes. Pichai, seu chefe, tem se disposto a gastar com talentos.
O Gemini 3 Pro subiu ao topo dos rankings de IA. O Google diz que seu modelo é capaz de resolver problemas complexos de ciência e matemática, além de lidar com questões irritantes e persistentes – como gerar imagens com sobreposição de textos com erros de ortografia – que podem levar clientes empresariais a desistirem de adotar serviços de IA de forma mais generalizada.
“Não há dúvida de que é justo dizer que o Google está de volta ao jogo com o Gemini 3”, disse Thomas Husson, analista da Forrester. “Na verdade, parafraseando uma citação atribuída a Mark Twain, os relatos sobre a morte do Google foram grandemente exagerados, para não dizer irrelevantes.” (Tradução de Lilian Carmona)
