Anna Clara Pfuetzenreiter – Estudante de Relações Internacionais da ESPM e Analista do RAIA
Julia Emerich Lopes de Souza – Estudante de Relações Internacionais da ESPM e Analista do RAIA
Mariana Oreng – Professora do Curso de Relações Internacionais da ESPM e Coordenador do RAIA
Raphael Almeida Videira – Professor do Curso de Relações Internacionais da ESPM e Coordenador do RAIA
O que é o Risco?
O risco Geoeconomic confrontation (Confronto Geoeconômico), se define como o uso de instrumentos econômicos por potências globais ou regionais para reestruturar interações econômicas entre nações, bloqueando bens, serviços, tecnologias e fluxos de informação como objetivo de construir autonomia estratégica, conter rivais e consolidar esferas de influência(World Economic Forum, 2026)[1].Esse conjunto de instrumentos inclui: sanções, tarifas, controle de investimentos, subsídios industriais, restrições tecnológicas e manipulação monetária .
Nesse contexto, a geoeconomia pode ser entendida como a utilização de ferramentas econômicas como instrumentos de poder no sistema internacional, articulando objetivos econômicos e estratégicos. Ao contrário da lógica liberal de interdependência cooperativa, observa-se uma crescente instrumentalização da economia para fins geopolíticos.
A relevância desse risco decorre de sua centralidade no cenário internacional contemporâneo. O Global Risks Report 2026 do World Economic Forum identifica a confrontação geoeconômica como o principal risco global no curto prazo, refletindo a intensificação de disputas comerciais, sanções e rivalidade tecnológicas entre grandes potências. Esse cenário indica uma transformação estrutural na ordem econômica global, na qual a interdependência deixa de ser apenas fonte de ganhos mútuos e passa a ser utilizada como instrumento de coerção.
Como já afeta empresas e mercados?
A confrontação geoeconômica é um risco que já impacta diretamente empresas e mercados globais ao aumentar a incerteza, elevar custos e reconfigurar cadeias globais de valor. O relatório do World Economic Forum destaca que disputas econômicas entre países estão ampliando os riscos nas cadeias globais de suprimento e intensificando restrições comerciais e tecnológicas.
Diante desse cenário, empresas têm adotado estratégias de mitigação de risco, como diversificação de fornecedores, regionalização da produção (nearshoring e friend-shoring) e redução da exposição a mercados considerados politicamente instáveis. Essa reorganização implica custos adicionais, perda de eficiência e necessidade de duplicação de cadeias produtivas.
Setores estratégicos são particularmente afetados. A indústria de tecnologia enfrenta controles de exportação e restrições ao fluxo de conhecimento; o setor energético sofre com sanções e instabilidade geopolítica; e a mineração torna-se central na disputa por recursos críticos. Empresas globais passam a incorporar variáveis geopolíticas em suas decisões de investimento, deslocando o foco de eficiência econômica para segurança e resiliência.
Além disso, a geoeconomia altera o funcionamento dos mercados ao aumentar a volatilidade de preços — especialmente de commodities —, reduzir a previsibilidade regulatória e elevar o risco-país percebido por investidores. Como resultado, decisões empresariais tornam-se mais conservadoras e orientadas à gestão de risco geopolítico.
Como aparece no Brasil?
O risco se manifesta no Brasil principalmente por meio de disputas comerciais, dependência de grandes parceiros e vulnerabilidade das cadeias produtivas. Sendo uma economia emergente fortemente integrada ao comércio de commodities, o Brasil se encontra no centro dessa dinâmica de confrontos geoeconômicos.
A dependência comercial é um fator central. A China responde por cerca de 30% das exportações brasileiras, o que amplia a exposição do país às oscilações da relação sino-americana e limita sua margem de manobra estratégica (Modern Diplomacy, 2025)[2]. Nesse contexto, o Brasil é simultaneamente beneficiário e refém da fragmentação econômica global.
As tensões com os Estados Unidos também ilustram o uso estratégico de instrumentos econômicos. Em 2025, medidas tarifárias — descritas como um “tarifaço” — atingiram exportações brasileiras, com alíquotas que chegaram a 50% em determinados setores (Financial Times, 2025)[3]. Isso evidencia a utilização de tarifas como ferramenta geopolítica, com impactos diretos sobre competitividade e fluxo comercial.
A vulnerabilidade das cadeias produtivas também é evidente. O agronegócio brasileiro depende fortemente de fertilizantes importados, e cerca de 41% da ureia utilizada no país transita por rotas estratégicas do Golfo Pérsico, tornando o setor sensível a conflitos internacionais (Reuters, 2026)[4]. Choques geopolíticos podem, portanto, se traduzir rapidamente em aumento de custos e instabilidade produtiva.
Ao mesmo tempo, o Brasil possui ativos estratégicos relevantes. Reservas de minerais críticos — como terras raras — posicionam o país no centro da disputa global por insumos essenciais à transição energética e tecnológica (FAF, 2025)[5]. Reforçando assim seu papel ambíguo: vulnerável a choques externos, mas também estratégico para as grandes potências.
Empresas brasileiras já refletem esses impactos. A guerra comercial entre Estados Unidos e China redirecionou a demanda chinesa por commodities, beneficiando exportadoras como Bunge e Cargill. Em contrapartida, setores industriais mais complexos — como a indústria aeronáutica liderada pela Embraer — enfrentam maior exposição a restrições tecnológicas. Já empresas de mineração, como a Vale S.A., tornam-se peças-chave na disputa por recursos estratégicos.
Quais são as consequências econômicas?
Como consequência, a confrontação geoeconômica gera efeitos econômicos relevantes, especialmente com as tarifas. Em primeiro lugar, elas elevam preços ao encarecer insumos importados, pressionando a inflação. Em segundo, reduzem exportações ao limitar o acesso a mercados externos. Em terceiro, afetam a produtividade agregada, uma vez que empresas menos eficientes tendem a sair do mercado em contextos de retaliação comercial. Por fim, impactam a produção, com retração da atividade em setores expostos a disputas comerciais. Esses choques podem gerar efeitos persistentes — fenômeno conhecido como “histerese” — impedindo a economia de retornar ao seu nível anterior de crescimento.
Esse risco é mais de curto prazo (2 anos) ou longo prazo (10 anos)?
De acordo com o World Economic Forum (2026)[6], a confrontação geoeconômica é o principal risco global no curto prazo, sendo apontada por cerca de 18% dos especialistas como o risco mais severo nos próximos dois anos. No curto prazo, manifesta-se por meio de medidas imediatas — tarifas, sanções e restrições comerciais — que geram impactos rápidos sobre empresas, cadeias produtivas e mercados financeiros.
No entanto, seu caráter mais relevante é o estrutural. Ao longo do tempo, a recorrência dessas medidas tende a consolidar transformações duradouras na economia global, como a fragmentação em blocos econômicos rivais, a regionalização das cadeias de produção (reshoring e friend-shoring) e a politização de setores estratégicos como tecnologia, energia e minerais críticos (World Economic Forum, 2026; FGV, 2025)[7].
Assim, embora a confrontação geoeconômica seja percebida como um risco urgente no curto prazo, seus efeitos de longo prazo são potencialmente mais significativos, pois redefinem padrões de comércio, investimento e desenvolvimento tecnológico. Trata-se, portanto, de um risco que combina intensidade imediata com consequências estruturais, sinalizando uma mudança duradoura no funcionamento do sistema econômico internacional.
[1] WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Risks Report 2026. Geneva: World Economic Forum, 2026. Disponível em: https://www.weforum.org/reports/global-risks-report-2026.
[2] MODERN DIPLOMACY. Brazil’s multi-alignment: smart realism or opportunism wrapped in ideology? 2025. Disponível em: [https://moderndiplomacy.eu/2025/11/29/brazils-multi-alignment-smart-realism-or-opportunism-wrapped-in-ideology/.](https://moderndiplomacy.eu/2025/11/29/brazils-multi-alignment-smart-realism-or-opportunism-wrapped-in-ideology/)
[3] FINANCIAL TIMES. Brazil deadlocked with US over tariffs, finance minister says. 2025. Disponível em: https://www.ft.com/content/a2949b32-71e9-43fd-a749-5e183e273552.
[4] REUTERS. Expanding Iran conflict threatens Brazil grain exports, fertilizer supplies. 2026. Disponível em: [https://www.reuters.com/world/middle-east/expanding-iran-conflict-threatens-brazil-grain-exports-fertilizer-supplies-2026-03-05/.](https://www.reuters.com/world/middle-east/expanding-iran-conflict-threatens-brazil-grain-exports-fertilizer-supplies-2026-03-05/)
[5] FAF (FUTURE AFRICA FORUM). Brazil’s multifaceted transformation: geopolitical leverage, domestic policy tensions and the rejection of American interventionism. 2025. Disponível em: [https://www.faf.ae/home/2025/10/29/brazils-multifaceted-transformation-geopolitical-leverage-domestic-policy-tensions-and-the-rejection-of-american-interventionism/.](https://www.faf.ae/home/2025/10/29/brazils-multifaceted-transformation-geopolitical-leverage-domestic-policy-tensions-and-the-rejection-of-american-interventionism/)
[6] WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Risks Report 2026. Geneva: World Economic Forum, 2026. Disponível em: [https://www.weforum.org/reports/globalris s-report-2026.](https://www.weforum.org/reports/globalris s-report-2026.)
[7] FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (FGV). A expansão chinesa na América Latina. Disponível em: https://repositorio.fgv.br/bitstreams/b156b6be-f125-43eb-b103-7b87bec8bd69/download
