Ford elege um ‘transformador’ para o Brasil

A direção mundial da Ford anunciou ontem, nos Estados Unidos, mudanças na área de comando que atingem significativamente o Brasil e revelam que, para a companhia, o país definitivamente perdeu relevância. 

Dois dos seus mais experientes executivos foram escalados para tarefas estratégicas. A mais relevante é na China, o maior mercado do mundo. Já o Brasil ficará sob o comando de um cargo novo e curioso. O chamado “chefe de transformação” assumirá a reorganização de duas regiões – América do Sul e Índia. 

Enquanto no Brasil a empresa acaba de suspender toda a sua produção, na Índia há pouco meses foi desfeita a aliança negociada com um parceiro local, a Mahindra. 

Para ser o “transformador” das operações no Brasil e na Índia, cargo inédito na Ford e na indústria automobilística, foi escolhido o inglês Steven Armstrong, de 56 anos e 34 de carreira na Ford. Segundo nota da companhia, Armstrong “vai gerenciar a conclusão da reestruturação na América do Sul e ajudar a avaliar a alocação de capital na Índia”. 

Na China, a montadora acaba de formalizar uma joint-venture com uma empresa local, a Changan, comandada pelo próprio Armstrong. Para o comando, agora, da operação chinesa de veículos de passageiros foi escalado o atual presidente da Ford no Brasil e na América do Sul. O irlandês Lyle Watters segue para Xangai em julho. 

A missão de Watters no Brasil termina três meses depois de a montadora anunciar o encerramento definitivo da sua atividade industrial no país. A experiência de Watters, também com 34 anos de trabalho na Ford, será mais útil na China, onde a companhia planeja acelerar as vendas, principalmente de veículos elétricos. 

Watters terá sob seu comando He Xiaoqing, presidente da joint venture que acaba de ser formada. Aos 55 anos, Watters deixa o Brasil depois de um turbulento período de trabalho que assumiu em 2016, o pico da crise no setor. No país, o executivo exerceu também, junto com a esposa, importante trabalho pessoal junto a jovens em situação vulnerável.

Armstrong assume o novo posto já em maio. Ele deixa a China após 18 meses de trabalho para criar a aliança com a Changan. O executivo já passou por diversos países e por cargos de comando na Europa. Ele foi também o presidente das operações na América do Sul que antecedeu Watters. 

O novo presidente da Ford no Brasil e na América do Sul será o brasileiro Daniel Justo, hoje o principal executivo da área financeira da montadora na região. Justo e Amurag Mehrotra, diretor da Ford na Índia, se reportarão a Armstrong, que passa a responder à área de mercados internacionais da empresa. 

A equipe que assumirá o comando da Ford no Brasil tem grandes desafios pela frente. A empresa ainda está em processo de negociações com sindicatos de trabalhadores, fornecedores e concessionárias para o completo encerramento de sua atividade industrial no país. 

Depois de fechar sua fábrica mais antiga, em São Bernardo do Campo (SP), em 2019, em janeiro deste ano a montadora anunciou o encerramento das atividades das outras duas que ainda tinha no país – uma de veículos em Camaçari (BA) e uma de motores em Taubaté, no interior de São Paulo. A instalação em São Bernardo foi vendida a uma construtora. O destino das demais ainda não foi definido. 

A operação industrial na Argentina foi mantida. Na fábrica instalada em Pacheco, na região metropolitana de Buenos Aires, é produzida a picape Ranger, exportada, em grande parte, para o mercado brasileiro. A unidade argentina foi a única da regiãoque recebeu um plano recente de investimentos. Já no Brasil, o último programa 

Um dos maiores desafios da montadora no mercado brasileiro, agora, é manter a marca atrativa para o consumidor numa fase em que toda a sua linha de produtos será importada. 

As mudanças anunciadas ontem indicam que o Brasil perdeu o status de operação única para a Ford. Ganhou, no novo mapa estratégico da montadora, a companhia de um país distante, a Índia. 

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/04/29/ford-elege-um-transformador-para-o-brasil.ghtml

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