Feminicídio bate recorde no Brasil e expõe limites da resposta pública

Maria Eduarda Fibla

Orientação: Profa.Natalia Fingermann

Nos últimos anos, tem-se notado uma maior visibilidade para o tema de violência contra mulher no Brasil e, posteriormente, a desigualdade de gênero que ecoa sob esse assunto. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.568 feminicídios em 2025, o que é o maior número anual de incidentes desde que o crime foi tipificado como tal e, apenas em janeiro de 2026, o judiciário registrou 947 novos casos. Esse cenário, agora entendido como uma “epidemia”, tem influenciado o debate público sobre violência de gênero e os diversos contextos sociais, econômicos e culturais em que essa problemática se faz presente.

O crime de feminicídio, que é o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero, ganhou validação jurídica com a promulgação da lei nº 13.104, em 2015, e reforçou a necessidade de enfrentar a violência de gênero como um fato específico e que merece tipificação. Diante disso, entre 2013 e 2023, dados do Atlas da Violência enfatizaram que mais de 47 mil mulheres foram assassinadas no Brasil e a maior parte desses crimes ocorre em contextos domésticos e familiares, no qual os próprios parceiros ou ex-parceiros das vítimas são os feitores do feminicídio. Logo, mesmo dentro da própria casa, mulheres são submetidas a um ciclo contínuo de abusos que, comumente, acarreta mais um caso de agressão e assassinato.

A persistência dessa violência está enraizada em anos de desigualdade estrutural e relações de dominação, controle e abuso dos homens com mulheres nos diversos âmbitos da vida cotidiana. Dessa forma, assim como a socióloga Heleieth Saffioti argumenta, a superioridade masculina é naturalizada e acaba por legitimar as diversas formas de domínio sobre a vida e o corpo de mulheres. Assim, a violência de gênero não pode ser entendida como resultado de conflitos individuais, mas sim como um reflexo da relação vertical entre o gênero masculino e feminino, que se faz presente há séculos na conjuntura, e que aparece em dados de desigualdade salarial, baixa representatividade em cargos políticos, assédio verbal e sexual, abuso psicológico, agressão física e feminicídio.

Sob essa perspectiva, cabe relacionar a maior incidência de casos com o surgimento e crescimento da “machosfera” que são comunidades online que incentivam comportamentos agressivos de homens e incitam a superioridade masculina, a submissão feminina e a misoginia. Dentro dessa comunidade, existem grupos como “Red Pill”, “Incel” e “MGTOW” – todos popularizados virtualmente – em que o ódio contra a mulher é explicitamente posto em pauta, validado e apoiado por um grupo masculino que acredita estar sendo privado dos seus “direitos” pelas mulheres que não se colocam posição de submissão e, por isso, atos de violência são justificáveis.

A exposição de casos mais emblemáticos desempenha papel crucial para explicitar certas brutalidades pelas quais as mulheres estão sujeitas, e casos como o de Tainara Souza Santos, que foi arrastada por cerca de 1km embaixo do carro conduzido por seu ex-namorado, geram o impacto preciso na opinião pública e ajudam a transformar o feminicídio em um tema de interesse coletivo, com debates sobre a cultura do machismo e a urgência de responsabilização dos agressores.

Nesse contexto, a atuação conjunta da mídia, movimentos feministas, mobilizações promovidas nas redes sociais e a cobertura de casos por redes jornalísticas, impulsionaram um crescimento na visibilidade desse tema e atraíram atenção pública para o fenômeno. Nos últimos meses de 2025 e nos primeiros de 2026, a frequência com que esses crimes têm sido expostos, ajudou a criar espaços para denúncias e discussões que trazem maior conscientização da relevância dessa problemática, o que faz com que a voz de mulheres tenha mais alcance social e o problema possa ser enfrentado de forma coletiva, assim como a própria demanda.

No entanto, ainda que haja um aumento da visibilidade desses crimes, isso não tem sido o suficiente para prevenir o crescente número de casos de feminicídio no país. Para um resultado mais efetivo, é preciso que o Estado brasileiro atue de maneira efetiva em três frentes: formação do corpo policial e judicial sobre a identificação e tipificação dos crimes contra a mulher; regulamentação das redes sociais com danos criminais àqueles que propagam crimes de ódio e punição adequada aos homens que ainda hoje ficam ilesos após cometerem diversas agressões contra a mulher no país.

Referências bibliográficas:

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