Crescimento de negócios com o país multiplica as ‘China Desks’ dos escritórios de advocacia

Na última década, os negócios com a China vêm multiplicando o número de escritórios de advocacia brasileiros com áreas específicas para atender esses clientes, as chamadas “China Desks”. E a tendência é de que este movimento cresça. Advogados destacam que o atendimento aos chineses exige, além da expertise jurídica, conhecimento da cultura asiática e habilidade para traduzir como funcionam a legislação e o Judiciário no Brasil.

O Brasil foi a economia emergente que mais atraiu investimentos chineses em 2024 e o terceiro país que mais absorveu capital produtivo da China no mundo, segundo dados do Conselho Empresarial Brasil China, de 2025, referentes a 2024. Naquele ano, empresas do país investiram em 39 projetos no território nacional, o que é apontado como um recorde, com aportes de US$ 4,18 bilhões, praticamente o dobro do valor registrado em 2023.

O setor de infraestrutura é o que tradicionalmente atrai os chineses para o Brasil. Mais recentemente, o automotivo também. “Uma reunião que temos com empresas estrangeiras, em geral, é para explicar o sistema jurídico brasileiro, por que existem tantos processos no Brasil, como funciona o direito do consumidor e as questões trabalhistas típicas daqui”, afirma Lorena Carneiro, responsável pelos desks internacionais no LBCA.

O LBCA tem clientes coreanos desde a fundação do escritório, por ligações de um dos sócios, o “L” do nome da banca, o que o aproxima da Ásia naturalmente. A China Desk, especificamente, foi criada no ano de 2025.

Segundo Lorena, explicar a quantidade de processos que a empresa acaba tendo no Brasil num primeiro momento é um choque. “Tem sempre essa ‘reunião do pânico’, já passamos por isso várias vezes, de acharem que tem muito problema no Brasil”, afirma. Depois do volume de litígios, vem o choque pelo complexo sistema tributário, segundo ela. Este ano, o país ainda entrou na fase de transição para uma reforma tributária.

Nos litígios, um ponto que impressiona em especial os chineses é o contencioso entre as empresas e o Estado. “Nosso papel de traduzir o ambiente brasileiro é mostrar como o Estado reage às ações contra o Estado”, afirma Izabella Pardinho Reis, sócia da área de mineração do Demarest e integrante da China Desk. “Nossa função não é traduzir do mandarim para o português, mas mostrar qual a realidade brasileira e o cenário futuro”, diz.

A área foi estruturada no escritório no ano de 2014 e conta com um sócio que tem licença de advogado na China. “Ele nos ajuda a traduzir o ambiente jurídico para o chinês. Como conhece as leis fiscais e trabalhistas chinesas e, ao mesmo tempo, a nossa realidade, consegue fazer essa tradução mais ampla”, explica Lucas Tavares, que integra e ajudou a fundar a China Desk. Entre os trabalhos recentes, o escritório assessorou a BYD na implantação da rede de concessionárias no país.

O movimento recente de demanda pelo registro de marcas e patentes levou o escritório Bhering Advogados, especializado em propriedade intelectual, a também criar a área. De acordo com o sócio Philippe Bhering, a banca já representava companhias chinesas no Brasil, principalmente dos setores de telecomunicações e automotivo. “Agora decidimos formalizar a criação desse núcleo para atender demandas da China”, afirma. “O objetivo é proporcionar alinhamento cultural, inclusive por meio do idioma”, diz.

Nos últimos três anos, ainda sem separação formal para o atendimento dessa área, o escritório registrou aumento de 50% no faturamento relacionado a clientes chineses. A projeção é que as demandas de propriedade intelectual vão aumentar, com a busca por proteger os ativos intangíveis das chinesas no Brasil (patente, desenho industrial e marca) e no combate da exploração desses ativos. Além disso, há a atuação em contratos que envolvem direitos de propriedade intelectual.

Dados da Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) de 2024 apontam a China como o 9° maior investidor no Brasil. Além disso, o país asiático foi o principal destino das exportações brasileiras naquele ano, respondendo por 28% do valor total exportado e por 41,4% do superávit comercial do Brasil.

Um caminho comum dos escritórios de advocacia para criar um primeiro contato com os clientes da China é participar de algum grupo ou câmara que reúna chineses e empresas latinas ou brasileiras. “Associações e câmaras de comércio que antes tinham um ou dois escritórios participantes, hoje têm dez ou doze e há negócio para todo mundo” “, afirma Cesar Amendolara, head do China Desk do Velloza.

De acordo com o advogado, depois, os escritórios precisam conhecer a cultura chinesa, os hábitos, como organizam os lugares nas reuniões, a troca de presentes nessas ocasiões, têm que ir ao país, participar de eventos das câmaras de comércio, do consulado. “É um investimento de longo prazo”, diz Amendolara.

“Começamos a ir para a China e percebemos que para trabalhar mais com o mercado chinês era necessário estar presente lá”, afirma Murillo Alevato, sócio do Bichara Advogados, que estruturou a China Desk da banca há seis anos. Além da questão da língua e da participação em associações, o sócio observa que os chineses gostam de ter uma compreensão profunda antes de fechar negócio.

“A forma como o chinês faz negócios é diferente da dos ocidentais”, diz Luiza Chang, também do Bichara Advogados. A questão relacional é fundamental, segundo a especialista, além da reputação. “O chinês não pensa nos negócios de hoje, ele pensa daqui 20 anos”, afirma.

A advogada destaca o desafio de explicar a burocracia de um país como o Brasil. “Se o chinês pergunta quanto tempo leva para abrir uma empresa, ele não quer saber mais ou menos. Ele quer saber quanto tempo a gente demora para fazer o contrato social, levar para a Junta Comercial, em quanto tempo ela analisa e quais os próximos passos”, afirma ela.

O movimento com a China teve um freio na pandemia e depois voltou, segundo Carlos Frederico Lucchetti Bingemer, sócio do BMA Advogados e líder da prática de China Desk “Estamos vendo uma retomada”, diz ele sobre o fluxo de consultas do ano passado em diante.

Segundo Bingemer, a China tem um mercado jurídico bem desenvolvido e vários escritórios ingleses e americanos a usam como “hub” para toda Ásia. Têm sócio com fluência em mandarim, “não é essencial, mas ajuda”, diz o advogado. Para ele, a confiança passa muito mais por ter alguém familiarizado com a cultura chinesa.

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