The New York Times; Um aumento recorde nas exportações da China superou amplamente suas importações em setembro, à medida que o vasto setor manufatureiro do país produzia carros, painéis solares, equipamentos elétricos e outros bens para mercados em todo o mundo.
A Administração Geral das Alfândegas da China informou que o país registrou um superávit comercial de US$ 133,5 bilhões no mês passado, o segundo maior valor mensal já registrado. Os números mais recentes colocam a China a caminho de superar consideravelmente o superávit comercial recorde de US$ 1,19 trilhão do ano passado.
Espera-se que mais um mês de exportações disparadas aumente ainda mais as tensões com muitos parceiros comerciais, inclusive na Europa, onde a indignação com a enxurrada de veículos chineses e outros itens está levando alguns líderes a propor um chamado “kill switch” para bloquear a entrada de produtos da China.
Os economistas divergem sobre em que medida o enorme superávit comercial da China é impulsionado por exportações mais fortes e em que medida decorre de importações mais fracas. Uma moeda desvalorizada ajudou a tornar os produtos chineses mais competitivos no exterior, ao mesmo tempo em que elevou o custo dos produtos importados no mercado interno.
O valor do renminbi, a moeda da China, caiu mais de 14% em termos ajustados pela inflação em relação a um amplo conjunto de moedas desde março de 2022, de acordo com o Banco de Compensações Internacionais, uma instituição de propriedade dos bancos centrais do mundo, incluindo o da China. Março de 2022 foi quando a China iniciou um lockdown de dois meses devido à Covid-19 em Xangai, o que desferiu um golpe duradouro na confiança do consumidor.
Amplos incentivos fiscais para exportadores também impulsionaram o boom das exportações. Esses incentivos custaram ao Ministério das Finanças da China cerca de US$ 318 bilhões no ano passado.
A agência alfandegária informou que as exportações dispararam 36,3% em setembro em relação ao mesmo mês do ano anterior. Esse foi o maior aumento percentual ano a ano nas exportações chinesas desde julho de 2010, excluindo os meses distorcidos pelo calendário do Ano Novo Lunar.
As exportações atingiram um recorde de US$ 447,2 bilhões. O superávit comercial de setembro ficou atrás apenas do registrado em janeiro de 2025, quando o período do Ano Novo Lunar levou os exportadores chineses a anteciparem os pedidos antes do feriado prolongado.
Apesar do aumento nas exportações, Pequim tem se mostrado relutante em reduzir os incentivos fiscais para os exportadores ou permitir uma valorização acentuada da moeda, temendo a perda de empregos em setores já pressionados pelas tarifas. Em Guangzhou, um centro de produção de roupas, os fabricantes enfrentam dificuldades para competir com países onde os salários são mais baixos.
Em uma tarde recente, uma fábrica de jaquetas acolchoadas estava praticamente vazia por falta de pedidos. “Se você está produzindo para exportação, precisa lidar com tarifas, e os tecidos e a mão de obra são caros; por isso, muitas pessoas não querem mais exportar”, disse o gerente da fábrica, que se identificou apenas pelo sobrenome, Ling.
Ao mesmo tempo, uma prolongada crise no mercado imobiliário e o aumento do desemprego deixaram muitas famílias chinesas relutantes em gastar. Pequim também tem direcionado apoio governamental para o desenvolvimento das indústrias manufatureiras nacionais, reduzindo a dependência do país em relação a produtos importados.
As empresas chinesas também estão sendo pressionadas pelo aumento dos custos das matérias-primas e pela fraca demanda do consumidor, o que deixa pouca margem para aumentar os preços. Os preços na fábrica e os preços das minas subiram 5% em setembro em relação ao mesmo mês do ano anterior, informou o Departamento Nacional de Estatísticas nesta quarta-feira, enquanto os preços ao consumidor aumentaram apenas 0,9%.
A demanda fraca do consumidor e a expansão da produção doméstica reduziram as importações de quase todos os produtos, exceto matérias-primas como petróleo e cobre, grande parte das quais é utilizada na fabricação de outros produtos destinados à exportação. As importações aumentaram 31% em setembro em relação ao mesmo mês do ano anterior, em parte devido ao aumento substancial nos custos do petróleo importado.
A indústria automotiva chinesa oferece um quadro particularmente gritante da divisão entre a fraca demanda interna e as exportações em expansão. As vendas de automóveis no varejo despencaram 28% em setembro em relação ao ano anterior, de acordo com a Associação Chinesa de Veículos de Passageiros, que trabalha em estreita colaboração com as concessionárias do país.
Do verão de 2024 até o final de 2025, a China ofereceu generosos subsídios para incentivar os consumidores a trocarem veículos antigos que consumiam muita gasolina por carros elétricos e híbridos plug-in (a gasolina e elétricos). O programa antecipou compras que, de outra forma, poderiam ter ocorrido neste ano, contribuindo para a atual queda nas vendas.
Mas a desaceleração econômica mais ampla parece agora estar causando um impacto maior do que o fim desses incentivos. O número de carros vendidos nas concessionárias em setembro também ficou quase 20% abaixo do nível registrado em setembro de 2023, antes do início do programa de troca de veículos.
Enquanto as vendas no mercado interno vacilaram, as exportações de carros da China dispararam, tendo aumentado 11 vezes desde 2020. A enxurrada de veículos fabricados na China nos mercados internacionais alarmou as montadoras de outros países, particularmente na Europa.
Na sexta-feira, a União Europeia e a China anunciaram que haviam chegado a um “acordo” para limitar as exportações chinesas de carros híbridos recarregáveis para a Europa. O superávit comercial da China com a Europa bateu mais um recorde no mês passado.
As exportações de produtos manufaturados da China dispararam desde que o país aderiu à Organização Mundial do Comércio em 2001, quando Pequim se comprometeu a abrir o setor de serviços financeiros, incluindo cartões de crédito, à concorrência estrangeira. Após 25 anos de atrasos, durante os quais a China construiu seu próprio sistema de pagamentos eletrônicos, a Visa anunciou na terça-feira que Pequim deu um passo para permitir que a empresa estabelecesse um negócio de compensação de cartões bancários, embora ainda sejam necessárias aprovações adicionais.
Após décadas de reclamações americanas sobre atrasos, a decisão da Visa, juntamente com o acordo com a Europa sobre carros híbridos recarregáveis, sugere que Pequim pode estar dando pequenos passos para abordar as preocupações estrangeiras sobre seu superávit comercial.
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