A tentativa de Schleswig-Holstein, pequeno Estado no Norte da Alemanha, de se desvincular da Microsott não tem sido um mar de rosas. Quando as contas de e-mail dos funcionários do departamento financeiro de Schleswig-Holstein foram transferidas para sistemas alternativos de código aberto em setembro, mensagens começaram a chegar a caixas de entrada erradas. Alguns juízes e policiais não receberam nenhum e-mail.
Foram algumas semanas árduas para o diretor de tecnologia da informação (TI), Sven Thomsen, até que a falha fosse corrigida. “Foi muito estressante”, diz ele.
Mas isso fazia parte de um esforço mais amplo: a busca por “soberania digital” que transformou Schleswig-Holstein em um teste para a Europa, à medida que líderes defendem cada vez mais que o continente precisa reduzir sua dependência das grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos.
“O importante é que nos tornemos independentes de provedores centralizados e monopolistas”, diz Thomsen. “É isso que estamos buscando, passo a passo.”
A ideia tem sido recebida com ceticismo, escárnio e admiração. Um blogueiro alemão de TI comparou Schleswig-Holstein ao herói dos quadrinhos franceses Asterix e sua “pequena aldeia de gauleses indomáveis” resistindo aos invasores romanos.
Schleswig-Holstein, uma região costeira com 3 milhões de habitantes, discutiu pela primeira vez o fim da dependência da Microsoft há cerca de 15 anos. Na época, a motivação era em grande parte financeira, com as autoridades demonstrando indignação com o custo das licenças e a dependência de um único provedor.
Agora, em meio às tensões na aliança transatlântica e à preocupação com as ameaças de Trump à Europa, autoridades locais também veem a necessidade de soluções próprias que protejam os dados da região dos braços longos dos tribunais americanos. Alguns alertam para o risco de “interruptores de desligamento” (“kill switches”) ou “portas dos fundos” (‘back doors”) que poderiam permitir que softwares americanos fossem controlados à distância.
“Depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, todos passaram a perceber as dependências que tínhamos no setor de fornecimento de energia”, “, diz Dirk Schrödter, ministro de Digitalização do Estado. “Acho que agora todos também perceberam que temos dependências semelhantes no campo digital.”
Muitos países europeus estão agora buscando várias formas de “desacoplar” das tecnologias dos EUA. As forças armadas da Áustria abandonaram o Microsoft Office, a Dinamarca anunciou planos parecidos e a França determinou que funcionários públicos deixem de usar o Zoom, ao mesmo tempo em que lançou seu próprio aplicativo de mensagens seguro para substituir o WhatsApp e o Signal.
Mas o esforço em andamento em Kiel, a capital do Estado de SchleswigHolstein, é um dos mais ambiciosos – e avançados – da Europa. Ele está sendo observado por outras autoridades públicas e privadas, segundo Schrödter. Ele acrescenta: “Estamos desenvolvendo um modelo, quase um roteiro, de como abordar isso”.
O projeto entrou em sua fase mais decisiva há cerca de dois anos, quando o gabinete concordou em começar a substituir todos os produtos e serviços da Microsoft por alternativas de código abertosoftwares gratuitos sobre os quais os desenvolvedores podem adaptar e modificar. Exemplos conhecidos incluem o sistema operacional Linux, o navegador Firefox e o reprodutor de mídia VLC.
Isso não significa necessariamente que eles sejam gratuitos. Embora Schleswig-Holstein tenha economizado € 15 milhões em licenças da Microsoft só no ano passado, grande parte dessa economia está sendo investida em provedores de TI – em sua maioria alemães – que ajudam a implementar os produtos alternativos e adaptá-los às necessidades do governo.
Schrödter, um membro do partido de centro-direita União Democrata Cristã da Alemanha, diz que “não estamos mais financiando o progresso tecnológico em outras partes do mundo; em vez disso, estamos usando recursos públicos para financiar nosso próprio progresso tecnológico aqui em casa e fortalecer a economia digital”.
A transição começou para valer no ano passado. O primeiro grande passo foi a migração do Microsoft Office para um equivalente de código aberto. Esse processo transcorreu em grande parte sem falhar. O software de videoconferências Teams foi trocado por um programa chamado OpenTalk.
Em seguida, foi a vez do e-mail, exigindo a migração do Exchange e do Outlook da Microsoft para as alternativas de código aberto OpenXchange e Thunderbird. A migração envolveu 44 mil contas e cerca de 110 milhões de itens, incluindo e-mails e entradas de calendário.
As primeiras 29 mil contas foram transferidas sem problemas. Mas então ocorreu a falha, que era esporádica, mas causou grandes dores de cabeça. “Isso nos fez regredir à Idade da Pedra”, diz Michael Burmeister, diretor de um dos tribunais da região e porta-voz de uma associação de juízes. “Tivemos que voltar a usar telefone e fax. Tivemos sorte de não ter havido grandes violações do Estado de Direito”, acrescenta.
A causa foi um problema no centro de dados do Estado, com um componente que falhou no encaminhamento correto de pacotes de dados. “Foi um erro técnico – uma configuração incorreta”, diz Thomsen. “Não foi culpa do novo software nem do provedor. Mas nos custou quase três semanas.”
Apesar do revés, o Estado segue em frente. Este ano, ele pretende migrar do sistema operacional Windows para o sistema Linux. Outros planos incluem substituir sua plataforma de telefonia, fabricada pela Cisco, pelas alternativas de código aberto Kamailio e Asterisk.
As autoridades estão buscando integrar seus novos sistemas com assistentes baseados em inteligência artificial usando o Llama, o modelo aberto de linguagem de grande escala da Meta, que, segundo elas, oferece mais controle e confidencialidade. Existem planos para usar a tecnologia da Mistral, empresa de tecnologia da França, no futuro.
Críticos afirmam que os funcionários do governo de Schleswig-Holstein estão sofrendo uma perda de funcionalidades após a saída dos produtos da Microsoft, com cuja facilidade e eficiência eles estavam familiarizados.
Alguns especialistas e grandes empresas de tecnologia alertam que os softwares de código aberto podem apresentar maiores riscos de segurança cibernética.
Thomsen diz que gerenciar a segurança cibernética do novo modelo é mais complexo.
“É preciso estar convencido de que se está no caminho certo – e perseverar diante da resistência”, diz o ministro da Digitalização.
