É possível criar óculos inteligentes que não sejam assustadores?

Os computadores de rosto estão em ascensão, com empresas enormes e pequenas disputando espaço na corrida do ouro dos óculos inteligentes.

Isso também significa que o setor vem recebendo sua cota de críticas, principalmente pelo fato de que pessoas mal-intencionadas podem abusar de óculos inteligentes equipados com câmeras para capturar fotos e vídeos de pessoas sem que elas saibam ou consintam.

O principal alvo dessas críticas é a maior empresa do setor, a Meta. Os óculos inteligentes da empresa conseguem capturar imagens, áudio e vídeo de tudo e de todos para quem a pessoa usuária estiver olhando. Isso por si só já é suficiente para alarmar qualquer pessoa preocupada em proteger sua privacidade. Os óculos inteligentes da Meta têm uma luz indicadora para avisar pessoas ao redor quando elas estão sendo gravadas, embora alguns usuários da Meta tenham descoberto como contornar esses recursos de segurança e desativar as luzes. Mais recentemente, a empresa adicionou recursos antiviolação que desativam os óculos caso alguém tenha interferido neles.

Outras preocupações sobre os óculos continuaram a crescer. No início deste ano, a Meta programou um recurso que, se ativado, adicionaria tecnologia de reconhecimento facial aos seus óculos inteligentes. Depois que uma reportagem da WIRED revelou esse recurso, a Meta apagou o código de seu aplicativo. O CTO da Meta, Andrew Bosworth, confirmou a existência do recurso, chamado Name Tag, no podcast da The Atlantic The Most Interesting Thing in AI.

(Em um evento em junho, a Meta também disse que está considerando adicionar óculos inteligentes sem câmera à sua linha.)

Essa conversa sobre privacidade e óculos inteligentes só tende a crescer à medida que outras grandes empresas de tecnologia — especialmente Google e Samsung — entrarem nesse mercado ainda este ano. A Apple também estaria trabalhando em óculos inteligentes que poderiam chegar em 2027, embora tenha supostamente adiado a produção para lidar com questões de privacidade.

Por mais invasiva que a tecnologia possa parecer, muitas pessoas realmente querem e gostam de seus óculos inteligentes. A Meta já vendeu dezenas de milhões de unidades e, apesar dos debates acalorados sobre privacidade entre organizações de vigilância tecnológica e o público em geral, os óculos da empresa estão vendendo melhor do que nunca.

As pessoas encontraram motivos genuinamente úteis para usar os óculos, seja para tirar rapidamente uma foto ou gravar um vídeo no estilo GoPro de uma descida radical de mountain bike. Também há usos de acessibilidade em que a inteligência artificial pode ajudar, como legendas em tempo real para conversas faladas e a parceria da Meta com a Be My Eyes, que ajuda pessoas com deficiência visual a interagir com o mundo ao seu redor ao ativar a câmera dos óculos.

Marcas menores tentaram atrair o público anti-Meta com óculos inteligentes focados em privacidade. A Even Realities, por exemplo, fabrica óculos inteligentes sem câmeras em uma tentativa deliberada de se diferenciar das ofertas da Meta. Outros óculos, como os novos modelos da Solos, vêm com um escudo de privacidade que as pessoas usuárias podem encaixar sobre as lentes das câmeras em ambientes sensíveis.

“O fato de isso sequer ser um ponto de discussão é realmente ótimo para a indústria”, diz Matt Margolis, vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Vuzix, fabricante de óptica empresarial. “Se isso não importasse, não seria um foco de atenção, o que significa que estamos muito perto de ter uma massa crítica de produtos no mercado.”

Óculos inteligentes nem de longe são o primeiro produto a causar preocupação tão ampla. Defensores da privacidade lamentaram a adição de câmeras aos smartphones, assim como argumentaram contra câmeras em laptops e em outras tecnologias pessoais. A questão das câmeras e dos celulares, porém, é que o telefone ainda precisa ser retirado, erguido e ter a câmera ativada para capturar uma foto ou gravar um vídeo. Óculos inteligentes, com pequenas câmeras embutidas e a possibilidade de a pessoa usuária disfarçar a notificação de gravação, são muito mais sorrateiros.

“O fato de eles serem projetados para parecer inofensivos é a maior diferença”, diz Thorin Klosowski, ativista sênior de segurança e privacidade da organização sem fins lucrativos Electronic Frontier Foundation. “Alguém apontando um telefone ou uma câmera vai ser algo bastante óbvio. Mesmo com um telefone, você não consegue disfarçar totalmente o que está fazendo.”

Será que é possível criar óculos inteligentes que sejam verdadeiramente privados para quem os usa e para as pessoas ao redor? Uma forma de começar talvez seja tornar a luz indicadora mais vibrante ou fazer com que o visual dos óculos deixe mais evidente que há uma câmera acoplada. (Veja os primeiros óculos com câmera grandes e chamativos da Snapchat.) Mas as pessoas parecem não querer usar óculos com câmera que sejam óbvios; isso é parte do motivo pelo qual pessoas usando os desajeitados headsets Google Glass de 2013 foram ridicularizadas e chamadas de Glassholes.

“Não acho que seja realmente possível criar um par de óculos inteligentes assim”, diz Jitesh Ubrani, diretor de pesquisa em dispositivos de consumo da International Data Corporation. “Certamente existe um incentivo de mercado, certo? As pessoas querem esse tipo de coisa, mas, ao mesmo tempo, também querem óculos que pareçam normais e se pareçam com óculos comuns.”

Stacey Higginbotham, pesquisadora de políticas públicas da Consumer Reports, diz que não há razão para que esses dispositivos tenham de ser um pesadelo para a privacidade, mas os incentivos sociais e econômicos os encorajam a ser. Higginbotham e seu colega Justin Brookman, diretor de política tecnológica da Consumer Reports, defendem uma legislação no Senado da Califórnia que não apenas exigiria que empresas incluíssem indicadores visíveis em dispositivos capazes de gravar áudio e vídeo, mas também proibiria as pessoas de desativar esses indicadores.

“À medida que a tecnologia se desenvolve e passa a ter a capacidade de coletar cada vez mais tudo sobre todos nós o tempo todo, é aí que a política pública precisa entrar”, diz Brookman.

A reação contra os óculos inteligentes ocorre ao mesmo tempo em que outras tecnologias de vigilância vêm sendo alvo de críticas. Câmeras estão por toda parte, seja nas câmeras da Flock filmando nas ruas ou em uma rede draconiana de vigilância no Madison Square Garden. As pessoas sabem que estão sendo constantemente observadas, gravadas e registradas, e não gostam disso.

“Tudo isso neste ano tem gerado uma reação muito forte e pronunciada, de uma forma que eu não via há algum tempo”, diz Klosowski. “Parece que as pessoas estão começando a entender as implicações disso.”

https://www.wired.com/story/is-it-possible-to-make-privacy-friendly-smart-glasses

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