Cuba como pivot político das midterms

 Estudantes: Anthony Oaks e Kaue Gelascov

Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)

Coordenador: Prof. Dr. Roberto Rodolfo Georg Uebel

O Sistema Internacional atual representa uma crescente incerteza e muito disso se faz presente pelas atitudes tomadas por atores relevantes dentro desse sistema. A chegada de Trump à Casa Branca mudou a postura dos EUA em sua política externa, resgatando posicionamentos e políticas utilizadas na história desse país. A Doutrina Donroe, uma releitura da Doutrina Monroe ou o Corolário Trump, uma releitura do Corolário Roosevelt, nos demonstram uma guinada realista dos posicionamentos dos EUA. Dentro desse contexto, após Trump ter capturado Maduro e iniciado uma guerra contra o Irã, o próximo alvo parece ser uma antiga “pedra no sapato” dos norte-americanos, Cuba.

O episódio das acusações contra Raúl Castro e a retórica entre Cuba e Estados Unidos, o qual carrega décadas de tensões históricas e agora se insere em um cenário global marcado pela fragmentação do multilateralismo, pela disputa de influência e pela fragilidade crescente das normas internacionais, vem a ser um passo para encontrar na ilha mais uma conquista do atual governo da Casa Branca. O indiciamento de um ex-chefe de Estado estrangeiro por crimes cometidos fora do território norte-americano abre um debate complicado sobre soberania e jurisdição internacional. Para Washington, é uma forma de pressão política; para Havana, uma afronta à autodeterminação. Esse tipo de ação exemplifica o chamado “lawfare”, o uso da lei como arma em disputas geopolíticas. Além disso, com as recentes medidas tomadas os Estados Unidos relembram a “diplomacia de canhoneiras”, uma prática de coerção internacional em que uma nação poderosa mobiliza navios de guerra para a costa de um país para coagi-lo.Embora líderes norte-americanos minimizem a chance de um conflito direto, a retórica de mudança de regime e a mobilização militar criam um ambiente de incerteza. Para os países da região, qualquer intervenção poderia aprofundar a instabilidade já causada pelo episódio na Venezuela.A incursão política e militar dos Estados Unidos em Cuba, pode ser uma estratégia diante das eleições de midterms em Novembro de 2026, buscando retirar as atenções da guerra no Irã e tentando diminuir sua rejeição, a qual está crescente devido a alta da inflação, impulsionada pelo aumento no preço do petróleo, resultado da guerra no Oriente Médio, Com isso, a incursão em Cuba seria um distrativo, além de que a opinião pública norte-americana, por toda tensão histórica existente entre os dois Estados, é favorável a esta ação do governo.No dia 20/05/2026 (quarta-feira) o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de descendência cubana, fez um discurso provocativo ao governo, em seu reforço a essa narrativa, defendendo que a pressão sobre Havana é não apenas legítima, mas necessária. Seu discurso funciona como elo entre Washington e a comunidade cubano-americana, fortalecendo a ideia de que a política externa deve refletir as aflições de seus eleitores. Rubio, nesse contexto, torna-se uma voz que legitima a estratégia da Casa Branca, ampliando seu alcance político. Assim, sua atuação fortalece a estratégia dando credibilidade doméstica a uma política externa que, em outro contexto, poderia ser vista como oportunismo eleitoral.

O episódio da aceitação de U$100 milhões por parte de Cuba revela a complexidade da relação bilateral. Para Havana, a contribuição é uma necessidade diante da crise econômica profunda que o país vem enfrentando, marcada por escassez de alimentos, energia e insumos básicos (matéria prima, mão de obra e entre outros). A aceitação do recurso não significa aproximação política, mas sim de sobrevivência. Para Washington, no entanto, o gesto é usado como narrativa de “vitória”, pois a pressão teria forçado Cuba a aceitar essa ajuda, demonstrando a eficácia da estratégia norte-americana. Essa leitura, porém, é limitada. O auxílio não altera a estrutura da relação, que por sua vez continua marcada por desconfianças, rivalidade e tensões históricas. Em termos práticos, os U$100 milhões funcionam como “amenizador” econômico, mas não como ponte diplomática.Esse contraste evidencia como, mesmo em momentos de aparente cooperação, a lógica política prevalece sobre a economia. Cuba aceita o recurso sem abrir mão de sua soberania, enquanto os EUA utilizam o episódio como argumento eleitoral, reforçando a imagem de força e liderança de Trump diante seu eleitorado.

As eleições de meio de mandato, funcionam como um termômetro da popularidade presidencial e da capacidade de mobilização da base. A política externa, especialmente em relação a Cuba e Venezuela, é instrumentalizada para reforçar a imagem de liderança forte e conquistar votos em estados chave como a Flórida, onde a comunidade cubano americana exerce influência significativa.

Assim, Cuba deixa de ser apenas um tema de política internacional e se transforma em ferramenta de disputa eleitoral doméstica. A retórica de mudança de regime, combinada com gestos econômicos e discursos de figuras como Rubio, compõe um mosaico político que conecta a arena internacional às urnas norte-americanas.

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