China impulsiona IPO de startup de tecnologia

O mercado chinês de ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) vive uma retomada impulsionada por empresas de tecnologia e inteligência artificial (IA), mas o movimento ainda não é suficiente para convencer investidores globais a ampliar significativamente sua exposição à China.

O país caminha para registrar seu melhor ano desde 2023 em volume e captações, enquanto incertezas regulatórias e tensões geopolíticas mantêm a preferência dos investidores concentrada nos mercados do norte da Ásia.

Os setores de IA, semicondutores e manufatura avançada lideram os IPOs de tecnologia na China, apoiado tanto pelas prioridades de Pequim quanto pelo maior apetite dos investidores. O governo tem estimulado listagens de empresas de alta tecnologia e investimentos em semicondutores, enquanto os avanços chineses em IA e a perspectiva de crescimento dos lucros aumentam o interesse dos investidores locais.

A chinesa CXMT, maior fabricante de memórias DRAM do país, estreou no mercado Star, conhecida como a Nasdaq da China, em julho e chamou a atenção dos investidores, com uma captação de 66 bilhões de yuans (US$ 8 bilhões) por meio de seu IPO de ações classe A, na maior listagem de uma empresa de semicondutores já realizada no país. O valor de mercado da CXMT é de cerca de 3,3 trilhões de yuans (US$ 480 bilhões), superando gigantes da internet e do setor financeiro, como a Tencent e o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC).

“Esperamos novos investimentos em formação de capital na China, especialmente nos setores de IA, semicondutores e manufatura avançada”, diz a chefe de pesquisa do Citi para Japão, Norte da Ásia, Austrália e Sul da Ásia, Erica Poon Werkun, ao Valor. “Essa tendência é sustentada por prioridades políticas genuínas, um vasto conjunto de empresas inovadoras e melhorias de condições nos mercados de capitais.”

O Citi afirma que, segundo cálculos baseados em registros nas bolsas, quase 50 empresas de tecnologia solicitaram IPOs em Xangai e Shenzhen até junho de 2026, incluindo fabricantes de semicondutores, empresas de IA, “startups” de robótica e outros negócios de tecnologia de ponta.

O apoio direcionado de Pequim, incluindo listagens prioritárias para empresas de “hard tech” no mercado Star, injeções de capital em fundos de semicondutores e a narrativa industrial do superciclo de IA criaram um ambiente regulatório favorável e um fluxo de oferta, destaca Werkun. Simultaneamente, o apetite dos investidores foi estimulado por avanços chineses em modelos de vídeo com IA, marcos na localização da produção de semicondutores e a demanda global pelo tema.

No primeiro semestre de 2026, a atividade global de IPOs apresentou um ritmo forte de crescimento, com os mercados da China continental e de Hong Kong ampliando participação nas ofertas globais, segundo dados da EY. Os IPOs no mercado de ações A e em Hong Kong representaram 33% do volume global de operações de IPO, ou 165 de 504 aberturas de capital, e corresponderam a 22% do total de recursos captados mundialmente por meio dessas ofertas, equivalente a cerca de US$ 43,3 bilhões.

O relatório da EY, de junho deste ano, pontua que o mercado de ações A teve cerca de 80 IPOs, captando mais de 105,7 bilhões de yuans, no maior ritmo de ofertas desde 2023, com crescimento tanto no número de novas listagens quanto no volume captado, embora os valores ainda permaneçam significativamente abaixo do pico de 2022. A expectativa é por um aumento gradual no ritmo de IPOs no mercado de ações A em 2026.

O economista sênior para Ásia Pacífico da Natixis, Gary Ng, afirma ao Valor que, em vez de uma realocação global mais ampla em direção à China, o movimento está mais relacionado ao interesse específico dos investidores pelas empresas chinesas de IA que vêm ganhando espaço.

“Embora a China seja o principal concorrente dos Estados Unidos no desenvolvimento de IA, as empresas americanas ainda são muito mais lucrativas e agressivas nos investimentos, com perspectivas de receitas maiores”, diz. Ng pontua que as fabricantes de chips da Coreia do Sul, Japão e Taiwan provavelmente capturarão uma parcela maior da demanda impulsionada pelas “hyperscalers” dos Estados Unidos.

A China também possui empresas líderes nacionais no setor de chips de memória e se beneficia dos preços mais altos, diz Ng, mas o foco recai mais sobre a autossuficiência interna. “Considerando que as [trecho não identificável no documento original] passaram por um ajuste significativo, estas últimas provavelmente são mais atraentes.” O índice CSI 300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, acumula alta de cerca de 14% no ano, enquanto o Kospi, índice referência na bolsa de Seul, sobe cerca de 66% no ano.

O Goldman Sachs mantém uma visão otimista para as ações asiáticas e vê espaço para novas altas, apoiadas por um cenário macroeconômico favorável, crescimento dos lucros concentrado em tecnologia, “valuations” atrativos e posicionamento de investidores menos esticado em alguns mercados, segundo relatório da equipe liderada pelo estrategista-chefe de ações regionais da Ásia-Pacífico, Timothy Moe. O banco mantém preferência pelo norte da Ásia.

O argumento mais convincente a favor de uma visão positiva sobre as ações da região é o crescimento excepcionalmente forte dos lucros gerado por mercados com alta exposição à cadeia de suprimentos de hardware de tecnologia, afirma Moe e equipe. Os lucros na Coreia do Sul devem crescer 350% em 2026 e mais 35% em 2027. No Japão, a projeção de crescimento dos lucros em 2026 foi elevada de 13% para 19%.

O Goldman Sachs diz ainda que Coreia do Sul e China negociam a múltiplos baixos, com o mercado sul-coreano a 5 vezes os lucros projetados e a China “offshore” a 12 vezes, enquanto o Japão está em níveis entre 18 e 20 vezes. Entre os principais riscos estão as eleições de meio de mandato nos EUA, os níveis elevados dos rendimentos dos Treasuries e as tensões no Oriente Médio. O Goldman Sachs tem recomendação de compra para ações classe A e neutra para a China “offshore.”

Já o Citi elevou sua recomendação para a China para “compra” em suas perspectivas para o segundo semestre de 2026, citando crescimento excepcional de lucros, forte “momentum” e “valuations” atrativos. O Citi vê o índice CSI 300 em 5.600 pontos no final de 2026 e 5.700 para o final do primeiro semestre de 2027. Para o Hang Seng Index (HSI), o lucro por ação é robusto, projetado em 9,9% para 2026 e 11,9% para 2027.

Para Werkun, do Citi, a ascensão da CXMT ao topo das listas de valores de mercado da China é amplamente significativa, e reflete a crescente divisão do mercado chinês entre a nova economia, impulsionada pela IA, e setores tradicionais mais fragilizados. A economia da China apresenta uma dinâmica em “K”, com o ciclo de IA sustentando exportações, produção e empresas de tecnologia, enquanto a menor expansão da infraestrutura tradicional pressiona a velha economia. “A rotação setorial em direção a semicondutores, infraestrutura de IA e tecnologia em geral é evidente e real.”

Além disso, ainda existem várias barreiras significativas que impedem muitos investidores globais de aumentar substancialmente sua exposição a ações de tecnologia chinesas. “Para muitos investidores institucionais globais, a principal preocupação não são os fundamentos das empresas, mas sim incertezas geopolíticas, como novos controles de exportação e restrições a investimentos”, diz Werkun.

Ng, da Natixis, afirma que a China está pressionando os mercados para apoiar empresas de tecnologia, mas não há garantia de que essas empresas sempre terão um bom desempenho, como visto em Hong Kong. “A CXMT oferecerá aos investidores a opção de investir na produtora chinesa de memória, mas não é significativa o suficiente para impulsionar o sentimento geral nos mercados de capitais da China.”

https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/10/05/china-impulsiona-ipo-de-startup-de-tecnologia.ghtml

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