Brasil é destaque na parceria entre GM e Hyundai

O presidente de mercados globais da General Motors, Rory Harvey, trabalha na montadora americana há 36 anos e afirma ter presenciado mais mudanças no setor nos últimos cinco anos do que nos 31 anteriores. “E haverá ainda mais nos próximos dois”, diz. Para acelerar a adaptação, a companhia aposta na parceria com a coreana Hyundai, que começou a ganhar corpo na segunda metade de 2025 e terá na América do Sul, segundo Harvey, seu principal foco de sinergias.

“Buscamos sempre oportunidades para desenvolver produtos de forma eficiente. Poder fazer isso com um parceiro neste cenário é benéfico para nós, para a Hyundai e para o consumidor”, disse Harvey ao Valor, durante recente visita ao Brasil.

O compartilhamento de plataformas de veículos é o eixo do acordo entre as montadoras americana e coreana, celebrado em 2024 e que começou a ser detalhado há seis meses. Para a América do Sul, foi definido o desenvolvimento conjunto inicial de quatro modelos, entre carros e SUVs compactos e picapes.

Com a fábrica da Hyundai em Piracicaba (SP) e mais quatro da GM, em São Caetano do Sul (SP), São José dos Campos (SP), Gravataí (RS) e Joinville (SC), o Brasil desponta como o principal polo de produção dessa união na região.

Para Harvey, escala é o caminho para a indústria automobilística atravessar tempos voláteis. “Diante de toda essa volatilidade, todo o mundo está buscando escala, eficiência e como fazer as coisas da maneira mais econômica possível. Às vezes, surgem oportunidades de fazer parcerias que permitem alcançar objetivos que talvez não fossem possíveis de outra forma”, afirma.

A conversa com Harvey e a pausa para as fotos aconteceram no intervalo de uma agenda que envolveu desde compromissos locais a tomadas de decisões globais. Na noite anterior à entrevista, ele teve encontros com concessionários brasileiros; no dia da conversa com o Valor, pela manhã, já havia revisado normas regulatórias na região do Pacífico.

São os ossos do ofício do executivo que está no comando das operações da segunda maior montadora do mundo, com vendas anuais de 6,18 milhões de veículos, faturamento de U$ 185 bilhões (2025), presente em 140 países e uma estrutura industrial que emprega 150 mil pessoas.

Nascido em Brighton, cidade turística na costa sul da Inglaterra, Harvey tem formação em engenharia mecânica e sua história com a GM começou na Europa, quando a montadora ainda era dona da marca britânica Vauxhall e da europeia Opel, posteriormente adquiridas pela Stellantis. Harvey ocupou cargos de comando em ambas.

Mais tarde, chefiou a Cadillac, marca icônica do grupo GM, entre outras funções nas áreas de vendas na América do Norte. Lidera, agora, as operações da América do Norte, China e mercados internacionais.

Ao lado do alemão Thomas Owsianski, que acaba de assumir a presidência da GM na América do Sul, Harvey diz que a instabilidade econômica da região serve de aprendizado para outros mercados. “Acho que se você conseguir se adaptar a algumas das mudanças, e às diferentes circunstâncias que existem na América do Sul, é uma ótima prova de que pode aplicar alguns desses aprendizados em outras partes do mundo, porque a complexidade aqui é bastante significativa e, em outras regiões, nem sempre é tão complexa”, destaca.

Harvey faz uma pausa no raciocínio, com o cuidado de evitar ser malentendido. “Não quero que isso seja interpretado erroneamente como se fosse difícil fazer negócios aqui. Mas existe um certo grau de variabilidade na América do Sul. E acho que isso é uma vantagem para podermos dar o nosso melhor, sermos capazes de nos adaptar, e aplicar essas lições em outros lugares.”

“Precisamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir um futuro sustentável nesta região e acredito que temos todas as condições para isso”, completa o executivo.

A América do Sul se insere nas discussões em torno da eletrificação, um dos temas mais polêmicos na indústria automobilística hoje. Para Harvey, a realidade não é a mesma em todos os países. “E nisso precisamos ser ágeis. A quantidade de carros elétricos é significativa na Noruega, por exemplo, onde a infraestrutura (de recarga) também é”, “, diz.

“Já nos Estados Unidos, havia regulamentações de emissões que precisavam ser cumpridas e a venda de elétricos progredia rapidamente. Mas havia um incentivo [do governo] de US$ 7,5 mil em cada carro que terminou em setembro. Obviamente, alguns anteciparam as compras para aproveitar o incentivo”, afirma. Então, diz, a adoção de novas energias depende de regulamentações, da demanda do consumidor e da infraestrutura.

O executivo lembra que os custos da tecnologia dos veículos elétricos em relação aos motores a combustão têm diminuído e continuarão a cair à medida que a escala continuar a crescer e a tecnologia de baterias evoluir.

Para ele, a eletrificação ainda é o “objetivo final”. Resta saber qual caminho seguir. “E esse caminho não é uniforme em todos os países”, destaca.

Além da eletrificação, outro desafio nessa indústria hoje é a direção autônoma, a evolução do carro que dispensará o motorista. Segundo Harvey, o setor trabalha com diferentes tecnologias. “Já utilizamos o ‘supercruise’ em diversos países”, diz. Trata-se de um sistema de reconhecimento que permite ao motorista tirar as mãos do volante por períodos limitados, mas sem tirar os olhos dele e do caminho. Se o sistema detectar que o condutor não está prestando atenção, ele receberá alertas e terá que assumir o controle.

Como outras montadoras veteranas no Brasil, a GM, que completou 100 anos no país em 2025, está atenta ao aumento da concorrência chinesa. No ano passado, a marca manteve-se em terceiro lugar no mercado brasileiro de carros e comerciais leves, com 10,82%. Entretanto, enquanto o mercado cresceu 2,1% e as fatias de algumas marcas chinesas dispararam, as vendas da GM recuaram 12,45%.

Harvey está atento ao debate em torno de um dos temas mais discutidos no setor no Brasil hoje: a expectativa sobre eventuais reivindicações de marcas chinesas ao governo brasileiro para garantir cotas de veículos importados semimontados livres de impostos.

O executivo diz que não é possível saber se as regras vão mudar. Por isso, ele não pode dizer o que a GM faria nesse caso.

“Acredito que, se temos uma industrialização profunda, deveria haver alguma forma de reconhecimento”. A GM do Brasil está em meio a um plano de investimentos de R$ 7 bilhões que abrange o período de 2024 a 2028. O programa prevê modernização de fábricas e desenvolvimento de tecnologias de eletrificação.

“Se estivermos ajudando a promover o PIB do país e gerando empregos significativos, eu gostaria de pensar que essas coisas são dignas de reconhecimento, sim”, diz.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/02/20/brasil-e-destaque-na-parceria-entre-gm-e-hyundai.ghtml

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