Por Laura Roza e Nathalie Bourdoukan
Professora Orientadora: Han na Kim
O sistema internacional vive hoje uma fase de transição marcada pela redistribuição de poder, especialmente com a China se consolidando como um ator central na ordem global. Em meio a um cenário cada vez mais fragmentado e incerto, potências médias como Brasil e Coreia do Sul enfrentam o desafio de construir estratégias que equilibrem autonomia, inserção econômica e capacidade de resposta às pressões das grandes potências.
É nesse contexto que se insere a palestra do embaixador Fausto Godoy e da Dra. Yunhee Kim, realizada na ESPM-SP em 24 de março de 2026, durante o evento “Global Perspective Summit”. O encontro propôs uma reflexão sobre as possibilidades de uma parceria estratégica entre os dois países. O momento não poderia ser mais oportuno: um mês antes, em fevereiro de 2026, durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Seul, Brasil e Coreia do Sul elevaram oficialmente suas relações ao nível de Parceria Estratégica, com a assinatura do Plano de Ação 2026–2029 e de um acordo voltado ao comércio e à integração produtiva (BRASIL, 2026a; BRASIL, 2026b).
Interdependência e poder de atração
A análise apresentada na palestra dialoga com dois referenciais clássicos das relações internacionais: a ideia de interdependência complexa, desenvolvida por Robert Keohane e Joseph Nye (1977), e o conceito de soft power, também formulado por Nye (1990).
A noção de interdependência complexa, apresentada ainda nos anos 1970, questiona a visão tradicional de que a política internacional é guiada principalmente pela segurança militar. Em vez disso, destaca que diferentes temas, como econômicos, tecnológicos e institucionais, passam a ter peso equivalente, e que múltiplos atores participam desse processo (KEOHANE; NYE, 1977). Essa abordagem ajuda a entender a parceria entre Brasil e Coreia do Sul, que se estrutura justamente em áreas não militares, como minerais críticos, inovação e cooperação digital.
Já o conceito de soft power, que foi esboçado em Nye (1990) e consolidado em Nye (2004), amplia a compreensão de poder ao incluir a capacidade de influenciar por meio da atração, e não da coerção. Cultura, valores e políticas públicas passam a ser recursos estratégicos. Esse ponto é central na fala da Dra. Yunhee Kim, ao destacar como a projeção cultural sul-coreana se tornou um ativo relevante na política externa do país.
A combinação dessas duas abordagens permite compreender a relação Brasil-Coreia como uma parceria baseada menos em hierarquia e mais em complementaridade. Ainda que existam assimetrias, sobretudo tecnológicas, há potencial para ganhos mútuos justamente por meio da interdependência.
Complementaridade como estratégia
Um dos pontos centrais da palestra é a distinção entre similaridade e complementaridade. Brasil e Coreia do Sul não são países semelhantes, mas isso não impede a construção de uma parceria estratégica — pelo contrário, até favorece.
O Brasil se posiciona como liderança regional na América Latina e como voz do Sul Global, enquanto a Coreia do Sul atua como um ator-chave no Leste Asiático, com forte vínculo com os Estados Unidos. Suas vulnerabilidades também diferem: de um lado, a dependência de commodities e desafios tecnológicos; de outro, a escassez de recursos naturais e a forte dependência das exportações.
Apesar dessas diferenças, ambos enfrentam pressões semelhantes no sistema internacional, típicas de potências médias que precisam navegar entre grandes centros de poder. É nesse ponto que a ideia de “pressões estratégicas paralelas”, mencionada na palestra, ganha relevância.
A complementaridade aparece, então, como base da parceria na fala da Dra. Yunhee Kim: o Brasil oferece recursos naturais, energia e acesso a mercados, enquanto a Coreia contribui com tecnologia, inovação e capacidade industrial. Mais do que semelhança, é essa combinação que sustenta o potencial da relação.
Da lógica comercial à segurança econômica
Outro ponto importante discutido na palestra é a mudança de foco: a relação bilateral não deve ser vista apenas em termos de comércio, mas como parte de uma agenda mais ampla de segurança econômica.
Isso envolve garantir cadeias produtivas estratégicas, reduzir dependências críticas e fortalecer setores sensíveis, como tecnologia e energia. Os dados apresentados mostram que, embora o comércio bilateral seja relevante, ele ainda reflete uma divisão tradicional: o Brasil exporta principalmente produtos primários, enquanto importa bens industrializados de maior valor agregado.
A proposta dos palestrantes é clara: o avanço da parceria depende de uma mudança qualitativa, ou seja, a transição de uma lógica de ‘mais comércio’ para um comércio mais estratégico. Isso inclui cooperação em áreas como semicondutores, baterias para veículos elétricos e economia digital.
Essa agenda já começa a se materializar nos acordos assinados em 2026, que preveem desde maior coordenação política até iniciativas em transição energética, minerais críticos e inovação tecnológica.
Soft power como infraestrutura
Um dos pontos mais interessantes apresentados é a forma como o soft power sul-coreano é interpretado. Em vez de tratá-lo apenas como difusão cultural, Dra. Kim propõe entendê-lo como uma espécie de infraestrutura para a construção de parcerias.
O modelo apresentado se organiza em três níveis: primeiro, a atração cultural (K-pop, K-dramas, cinema); depois, a formação de uma imagem nacional positiva; e, por fim, a construção de confiança estratégica, baseada em tecnologia, educação e desempenho econômico (GODOY; KIM, 2026).
A ideia central é que a cultura abre portas, mas é a credibilidade que sustenta relações duradouras. Nesse sentido, o sucesso internacional da Coreia do Sul contribui diretamente para facilitar sua inserção diplomática e econômica.
Para o Brasil, isso significa que a aproximação com a Coreia ocorre em um ambiente já favorável, o que reduz barreiras e amplia oportunidades de cooperação.
Considerações finais
A palestra do embaixador Fausto Godoy e da Dra. Yunhee Kim oferece uma leitura consistente e atual da relação entre Brasil e Coreia do Sul. Ao destacar a complementaridade entre os dois países, a importância crescente da segurança econômica e o papel do soft power, os palestrantes apontam caminhos concretos para o aprofundamento da parceria.
Um aspecto particularmente relevante da análise é a forma como a assimetria entre os países é reinterpretada: longe de ser um obstáculo, ela pode ser a base de uma interdependência produtiva e estratégica.
O momento, de fato, é favorável. A formalização da Parceria Estratégica em 2026 indica que há disposição política para avançar. O desafio agora é transformar esse potencial em resultados concretos, o que dependerá de uma visão de longo prazo que trate a parceria como um ativo compartilhado.
Referências
BRASIL. Ministério das Relações Exteriores (MRE). Plano de Ação para Implementar a Parceria Estratégica Brasil-Coreia 2026-2029. Brasília, 2026a. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/plano-de-acao-para-implementar-a-parceria-estrategica-brasil-coreia-2026-2029. Acesso em: 26 mar. 2026.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Brasil e Coreia do Sul firmam parceria para cooperação em áreas estratégicas. Brasília, 2026b. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2026/fevereiro/brasil-e-coreia-do-sul-firmam-parceria-para-cooperacao-em-areas-estrategicas. Acesso em: 26 mar. 2026.
GODOY, Fausto; KIM, Yunhee. Brasil e Coreia do Sul: a estratégia das duas potências médias frente a um mundo em instabilidade. In: GLOBAL PERSPECTIVE SUMMIT, 2026, São Paulo. Palestra proferida na ESPM-SP, 24 mar. 2026.
KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and interdependence: world politics in transition. Boston: Little, Brown, 1977.
NYE, Joseph S. Bound to lead: the changing nature of American power. New York: Basic Books, 1990.
NYE, Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. New York: PublicAffairs, 2004.
