Austrália se apresenta a como alternativa ao rígido mercado das terras raras

A decisão da China, no início deste mês, de apertar ainda mais o controle sobre o fornecimento global de metais de terras raras causou caos nos mercados de ações mundiais. No entanto, de várias formas, o momento foi oportuno para o líder australiano. Deu ao primeiro-ministro, Anthony Albanese, uma proposta oportuna para apresentar nas negociações com os Estados Unidos.

Em sua primeira reunião com Donald Trump na Casa Branca nesta segunda-feira, 20, Albanese discutiu um acordo para conceder o acesso aos vastos recursos minerais da Austrália e sua expertise em mineração. O objetivo envolve ajudar a garantir o fornecimento de metais críticos para os Estados Unidos.

Ao posicionar seu país como um fornecedor confiável de materiais fora da China, Albanese não busca apenas vantagens em negociações comerciais e numa parceria de defesa, mas também pretende lembrar Trump da vulnerabilidade dos EUA aos caprichos do controle chinês sobre esses materiais essenciais. Com o presidente americano mais atento a essa questão, a Austrália pode estar em uma posição melhor para defender sua proposta perante um líder que, frequentemente, retrata aliados como aproveitadores e tem feito pouco para reafirmar laços de longa data.

“O timing é perfeito”, disse Ian Satchwell, veterano da indústria de mineração e professor adjunto no Instituto de Minerais Sustentáveis da Universidade de Queensland. Ele acrescentou que o acordo fortalece os laços entre as duas nações. “A questão dos minerais críticos é mais uma corda no arco da aliança”, afirmou.

A ministra dos Recursos da Austrália, Madeleine King, acompanhou Albanese na visita. Várias empresas de mineração australianas relataram nos últimos dias que foram convidadas a informar seus representantes nacionais antes da reunião na Casa Branca.

Na sexta-feira, 17, o Tesoureiro da Austrália, Jim Chalmers, disse a repórteres em Washington que a crescente demanda global por minerais críticos pode representar uma vitória econômica para o país. “Vamos garantir que aproveitemos ao máximo esta oportunidade absolutamente única para a Austrália”, declarou.

Os metais de terras raras, cuja mineração e processamento são dominados pela China, são essenciais para uma ampla gama de indústrias modernas, desde semicondutores e carros até caças e submarinos. No entanto, os custos e os impactos ambientais da mineração e do processamento, somados à produção a baixo custo da China, dificultaram que outros países obtivessem uma posição no mercado.

A Austrália já viu a China exercer seu controle sobre a indústria no passado. Em 2010, Pequim cortou o fornecimento para o Japão devido a uma disputa territorial. Tóquio, por sua vez, investiu pesadamente em uma empresa de mineração australiana para garantir uma fonte alternativa e reduzir sua dependência da China.

Ao destacar seu potencial para auxiliar os EUA com os minerais, a Austrália pode avançar em outras questões pendentes entre os países: o compromisso renovado com o pacto de submarinos nucleares AUKUS, a suspensão de uma tarifa de 50% sobre as exportações de aço e alumínio e maior flexibilidade diante das demandas dos EUA para aumentar os gastos com defesa.

Na reunião na Casa Branca, Albanese também pode enfrentar pressão sobre o principal dilema geopolítico da Austrália: seus laços de defesa próximos com os Estados Unidos versus a dependência econômica da China, que responde por um terço das exportações australianas.

Na semana passada, Scott Bessent, Secretário do Tesouro de Trump, ameaçou que, se a China prosseguisse com os controles de terras raras, o mundo precisaria “desacoplar” economicamente o país.

“É uma conversa mais desconfortável para a Austrália, considerando a estrutura de sua economia”, disse Charles Edel, especialista em Austrália no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Hayley Channer, diretora do programa de segurança econômica do Centro de Estudos dos Estados Unidos em Sydney, apontou outro desafio para Albanese: convencer o governo Trump a investir na indústria de mineração dentro da Austrália, em vez de simplesmente aproveitar empresas australianas para construir capacidade nos EUA.

“O trabalho da Austrália é tornar o acordo extremamente convincente para os EUA e benéfico para a Austrália como um todo, evitando que mais expertise australiana seja transferida para os EUA”, explicou ela.

Channer observou que uma potencial colaboração entre os dois países em terras raras toca nas dinâmicas fundamentais de por que as alianças são instrumentais no mundo fragmentado de hoje.

“Obviamente, é mais complicado e leva mais tempo para negociar com parceiros”, disse ela. “Mas, a longo prazo, é assim que se consegue a cadeia de suprimentos e as economias de escala necessárias para superar a China.”

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