Em relatório intitulado “A indústria europeia face ao rolo compressor chinês”, o Alto Comissariado para a Estratégia e o Planejamento da França chamou a atenção recentemente para o que chama de uma segunda onda de concorrência sem precedentes, que atinge o coração produtivo da Europa.
Aponta riscos crescentes para todo o continente e a Alemanha, em particular, como a economia mais exposta a essa “onda avassaladora” chinesa, que atinge setores intensivos em emprego, como o automotivo, máquinas-ferramentas, baterias, química e outros. O relatório conclama a Europa a “abrir os olhos” e preparar uma proteção maciça, considerada “urgente e vital”, diante da China.
Na semana passada, foi a vez de o Serviço de Inteligência do governo suíço – uma agência que é mais que apenas um serviço de espionagem publicar relatório sobre a segurança da Suíça. Na mesma linha de procurar “abrir os olhos” para ameaças emergentes, o documento traz uma novidade ao dar um exemplo adicional de risco: o de carros chineses poderem servir como instrumentos de coleta de dados para fins de espionagem.
Para o Serviço de Inteligência suíço, a “ameaça” proveniente da China dependerá fortemente do grau de interdependência econômica. Isso gera dados, e o relatório considera extremamente provável que Pequim processe essas informações também para fins de inteligência.
Segundo o documento, os serviços chineses já dispõem de recursos técnicos e humanos que lhes permitem processar gigantescos volumes de dados e utilizá-los em benefício de suas necessidades, mas também das do Partido Comunista, do exército, do aparato estatal e das empresas chinesas.
Como exemplo, considera plausível supor que os dados gerados pelos veículos modernos fabricados na China e que inundam mercados no mundo todo possam ser transmitidos aos serviços chineses por meio das montadoras, ou que os serviços de inteligência disponham – ou venham a dispor – de acesso a essas informações por meio de interfaces digitais.
Para Serge Bavaud, diretor do serviço de inteligência suíço, esses veículos são “smartphones sobre rodas”. . As autoridades chinesas trabalhariam em estreita colaboração com os fabricantes, e os serviços secretos poderiam ter acesso, por exemplo, a conversas registradas pelos automóveis. As marcas chinesas negaram essa prática. Em todo caso, a Suíça não é o único país com suspeitas. Jornais alemães publicaram que os serviços secretos do país teriam feito testes em várias marcas chinesas.
O Departamento Federal de Defesa suíço restringiu o acesso de veículos desse tipo próximos a zonas consideradas sensíveis no país. Mas não explicou se os veículos Tesla americanos adquiridos pelo Exército suíço para uso de seus oficiais estão submetidos às mesmas restrições.
No relatório, o Serviço de Inteligência suíço avalia que, nesta fase de transição da ordem internacional, os contornos de uma confrontação global começam a se delinear, sobretudo entre os Estados Unidos e a China, caminhando para um mundo dividido em duas esferas, marcado por uma disputa estratégica pela supremacia.
Constata que as grandes potências recorrem cada vez mais frequentemente a sanções, controles de exportação, subsídios, instrumentos financeiros e outros meios de pressão, tanto para impedir que seus adversários tenham acesso a mercadorias e tecnologias essenciais quanto para preservar e fortalecer suas próprias capacidades.
Cada vez mais setores e categorias de bens podem ter importância simultaneamente civil e militar e, por isso, são classificados como críticos ou estratégicos. É o caso das terras raras, semicondutores, inteligência artificial, robótica, energias renováveis, tecnologias quânticas, biotecnologias, drones e dados em geral.
Os Estados estão incorporando a proteção econômica e tecnológica aos seus conceitos de segurança nacional. O relatório entende que a Europa está ameaçada e que é muito provável que essa ameaça não diminua nos próximos anos.
Como muitos outros países, a Suíça é fortemente dependente das cadeias de abastecimento chinesas. E, com sua ideia de nova ordem mundial, Pequim corteja e seduz, e continuará a utilizar o exterior como fator essencial para apoiar a modernização de sua economia e de seu exército, além de ampliar sua influência internacional.
Conforme o relatório, a segurança econômica da Suíça, assim como a da Europa, continuará dependente da relação entre Estados Unidos e China. Primeiro, porque as decisões chinesas, mesmo quando dirigidas prioritariamente contra os Estados Unidos, também produzem efeitos sobre a Europa. Segundo, porque é provável que Washington continue pressionando os países europeus a reduzir sua colaboração com atores considerados problemáticos, especialmente empresas chinesas.
Avalia que Pequim deverá expandir seu domínio sobre bens e matérias primas de importância estratégica. E o excesso de capacidade industrial permitirá aos chineses continuar inundando o mercado europeu, e mantendo sob pressão a base industrial da Europa. As tensões entre a China e a Europa têm caráter estrutural e deverão persistir, tendo os carros chineses como um dos principais focos de atrito.
