“A vantagem dos EUA sobre a China em IA praticamente desapareceu.”
“A China está apostando tudo na IA.”
“A China acaba de eliminar a vantagem dos EUA em IA.”
Essas avaliações sobre a rivalidade na área de inteligência artificial apareceram recentemente em publicações americanas, e Xi Jinping ficará satisfeito em vê-las em destaque ao chegar a Washington nesta semana para uma visita de Estado.
Sob a liderança de Xi, a China deu passos gigantescos no desenvolvimento da tecnologia mais impactante de nossa época. O que será menos discutido é que ele também é o líder de uma economia que se encontra na pior situação das últimas décadas.
Os dois fatos estão relacionados.
Economistas na China — mesmo aqueles mais próximos do governo — alertaram abertamente que há investimentos excessivos em uma tecnologia que gera relativamente poucos empregos, enquanto faz muito pouco para salvar a economia como um todo.
E trata-se de uma economia em crise: a taxa de desemprego entre os jovens do país, excluindo estudantes, atingiu 18,9% em agosto. Os consumidores não estão gastando. Durante o primeiro semestre do ano, as vendas domésticas de automóveis caíram acentuadamente 20% em relação ao ano anterior, e as vendas de imóveis caíram mais 14%, somando-se a anos de declínio. O país está em uma espiral deflacionária.
Neste verão, os alertas dos economistas se tornaram um discurso unânime. Li Daokui, ex-consultor do Banco Central do país e professor da Universidade de Tsinghua, afirmou em julho que a economia chinesa estava “muito fraca”. Os setores de alta tecnologia em expansão, disse ele, não conseguiam impulsionar a base econômica como um todo.
Liu Shijin, outro ex-consultor do Banco Central, propôs, em um fórum realizado em junho, aumentar os pagamentos da aposentadoria básica de US$ 30 para US$ 150 por mês para os residentes rurais, a fim de fortalecer a demanda de consumo.
No mesmo fórum, Huang Haizhou, consultor do Banco Central, afirmou que Pequim deve promover uma inflação moderada e a lucratividade das empresas antes que seja possível ocorrer um avanço tecnológico sustentável. “Um país atolado na deflação não consegue alcançar inovação tecnológica”, disse ele.
Os comentários dos economistas foram divulgados anteriormente pela Bloomberg e pela mídia chinesa.
É difícil saber o valor exato do apoio governamental à inteligência artificial. O Relatório do Índice de IA de Stanford observou que fundos de investimento iniciados pelo Estado chinês injetaram cerca de US$ 184 bilhões em empresas de inteligência artificial entre 2000 e 2023.
No ano passado, Xi instruiu o governo a utilizar todas as ferramentas à sua disposição, incluindo incentivos fiscais, contratos governamentais, financiamento e acesso à infraestrutura, para impulsionar a IA. E, de acordo com a Bloomberg, a China está se preparando para gastar cerca de US$ 295 bilhões (aproximadamente R$ 1,517 trilhão) nos próximos cinco anos para construir datacenters em todo o país, que serão operados por empresas estatais.
A franqueza dos economistas chineses foi, por si só, reveladora, assim como o momento em que ocorreu — logo antes da reunião semestral de rotina do Politburo, órgão de liderança da China. Eles foram advertidos a não parecerem excessivamente pessimistas, e alguns foram censurados ou silenciados por terem feito isso.
O fato de essas figuras do establishment estarem se manifestando de forma tão contundente logo antes de a liderança se preparar para ajustar a política econômica sugeria o quanto elas estavam alarmadas.
Em conjunto, a mensagem dos economistas era clara: a economia chinesa estava em apuros e uma alocação de recursos centrada na inteligência artificial poderia custar caro ao sustento das pessoas comuns e ao futuro econômico do país.
A liderança deu pouca atenção às advertências deles. Quando a reunião do Politburo terminou, em 30 de julho, o partido reconheceu a necessidade de medidas “proativas” para impulsionar a economia, mas manteve as políticas de estímulo graduais e prometeu desenvolver “uma nova economia inteligente”. As reportagens da mídia estatal romperam com a prática anterior e não anunciaram uma meta para o crescimento interno.
O investimento em ativos fixos, incluindo infraestrutura, imóveis e equipamentos, caiu 4,1% nos primeiros cinco meses do ano. Li, ex-consultor do Banco Central, disse que uma contração semelhante ocorreu apenas duas vezes na história da República Popular: em 1961, no auge da Grande Fome, e em 1967, no auge da Revolução Cultural. (O investimento também caiu em 1989, após o massacre da Praça da Paz Celestial, mas provavelmente não seria sensato mencionar isso em uma reunião em Pequim.)
Xi Jinping ofereceu uma explicação reveladora sobre como avalia o progresso econômico.
“Não podemos nos limitar a observar apenas o crescimento do PIB”, afirmou ele em um discurso em março. O que importava, argumentou, era o crescente “hard power” da China e o desenvolvimento de indústrias avançadas. Na visão de Xi, um crescimento mais lento não significa necessariamente um fracasso, desde que o avanço tecnológico prossiga “passo a passo”.
Em vez de aumentar a renda disponível das famílias com dinheiro ou vales-compra, ou de ampliar a rede de proteção social, como muitos economistas têm sugerido, Xi acredita que a implantação de tecnologias liderada pelo Estado chinês modernizará as indústrias tradicionais e revelará valor econômico futuro. Mas esses ganhos podem levar anos para se concretizar.
A China não pode se dar ao luxo de ficar de fora da corrida pela IA. E, no primeiro semestre de 2026, o investimento em serviços de informação — um setor que, segundo o Departamento Nacional de Estatísticas, estava sendo impulsionado pela IA — saltou 19,2%. A tecnologia pode transformar a economia chinesa e fortalecer a posição na competição contra os Estados Unidos.
Mas a que custo?
Xu Chenggang, economista chinês da Universidade de Stanford, expressou claramente o que seus colegas em Pequim só podiam sugerir. A China tem mais flexibilidade fiscal e monetária do que a maioria dos países porque Pequim controla o sistema bancário. Cada yuan investido em tecnologia apoiada pelo Estado é um yuan que não é gasto em emprego e consumo.
“Quando você tem apenas uma quantia limitada de dinheiro, em que você gasta?”, perguntou ele.
Em uma crise semelhante à que a China está enfrentando, muitos governos recorreriam a medidas de estímulo para criar empregos, afirmou Xu. Quando as pessoas têm emprego, disse ele, gastam mais, criando um ciclo virtuoso na economia. Em vez disso, Pequim está concentrando seus investimentos em IA, uma tecnologia que pode agravar o alto desemprego ao reduzir a demanda por trabalhadores.
Alguns usuários chineses da internet já estão chamando essa corrida por investimentos de “Grande Salto da IA”, fazendo referência à desastrosa campanha de industrialização impulsionada por motivos políticos de Mao Zedong.
As empresas de IA, em última análise, precisam de mais do que apoio governamental. Elas precisam de empresas e de consumidores dispostos e capazes de pagar por seus produtos, disse Xu. Ao enfraquecer a demanda das famílias e a vitalidade das empresas, Pequim pode estar privando seu setor de IA do mercado de que ele precisa para se tornar comercialmente bem-sucedido.
A China tem demonstrado repetidamente que um Estado autoritário pode manter um modelo insustentável em funcionamento por mais tempo do que os observadores externos esperam. Mas a história também demonstra que “por mais tempo” não significa para sempre.
Sun Liping, um proeminente sociólogo de Pequim, citou a União Soviética. Em seu auge, a economia soviética representava cerca de 70% do tamanho da americana e superava os Estados Unidos em alguns campos da ciência e da tecnologia.
No entanto, a economia centralizada acabou estagnando.
A China é capaz de produzir grandes quantidades de bens cada vez mais sofisticados, escreveu Sun em um artigo. Mas quem na China terá condições de comprá-los? Sem compradores, os produtos ficam sem escoamento, as empresas não obtêm lucros, a renda das famílias não consegue aumentar e o emprego não consegue melhorar.
“Esse”, escreveu ele, “é o problema fundamental da economia chinesa hoje”.
