Depois de o acordo de livre-comércio Mercosul-Singapura entrar em vigor no início do mês, o governo brasileiro busca ampliar a presença no Sudeste Asiático, afirmou o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Laudemir André Müller, ao Valor.
A Apex é ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) e tem como objetivos promover os produtos e serviços brasileiros no exterior e atrair investimentos estrangeiros para setores estratégicos da economia brasileira. Atualmente, a agência mantém um escritório na China e outro em Singapura, este último voltado ao setor de algodão. Segundo ele, no momento, a ApexBrasil estuda ampliar sua presença física na região, o que é uma das prioridades de sua gestão.
Na manhã desta quarta-feira (19), Müller reuniu-se com o secretário-geral da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), Dr. Kao Kim Hourn, em encontro de cerca de uma hora. O presidente da agência destacou a importância da região para o comércio exterior brasileiro.
Segundo ele, a Asean é o quarto maior mercado de exportação e movimenta cerca de US$ 1,7 trilhão de todo o planeta em importações ao longo de um ano.
“Estamos falando de uma região para a qual o Brasil já exporta mais do que para o próprio Mercosul. Então, tem uma importância muito grande, é uma região que já tem resultados concretos. Nós estamos falando de US$ 25 bilhões da exportação brasileira que vai para lá e isso é só o começo”, disse.
Em 2025, as exportações brasileiras para o Mercosul somaram US$ 25,65 bilhões, ante US$ 24,37 bilhões para a Asean. No acumulado deste ano até julho, porém, as vendas para o bloco do Sudeste Asiático chegaram a US$ 14 bilhões, enquanto as exportações para o bloco sul-americano totalizaram US$ 13,3 bilhões.
Ao Valor o secretário-geral elogiou a reunião e ressaltou o interesse em ampliar os investimentos entre os dois lados. A Asean é composta por 11 países: Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Timor-Leste e Vietnã.
“O Brasil tem uma economia forte. Ela está crescendo, e nosso comércio bilateral está crescendo, o que é muito promissor”, disse. “O ponto principal é que não são apenas o comércio e os investimentos que definem nossas relações bilaterais (…). Estamos buscando um espectro mais amplo de fortalecimento e aprofundamento de nossas relações com o Brasil.”
Kao também mencionou as visitas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a países da Asean no ano passado, como Indonésia, Malásia e Vietnã. “Ficamos bastante impressionados com sua liderança”, afirmou.
Em paralelo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disse nesta quarta-feira que se reuniu com a delegação da Asean e reforçou o interesse do governo brasileiro em ampliar a aproximação com o bloco.
“Nós temos muito interesse nessa proximidade com a Asean. Eu mesmo propus que nós tivéssemos um acordo de integração produtiva com os 11 países da Asean. E a discussão agora se dá em torno de como é possível que se faça ou não um acordo envolvendo também a área de investimentos”, declarou ao ser questionado em evento do Esfera sobre a possibilidade de expansão do comércio brasileiro com outros países.
O Brasil também busca avançar na relação institucional com a Asean e se tornar um dos chamados “parceiros de diálogo”, grupo que reúne países com alto nível de cooperação com o bloco. Segundo Kao, os Estados-membros endossaram a continuidade da avaliação do pedido brasileiro, apresentado em janeiro deste ano. Atualmente, nove países, além da União Europeia e das Nações Unidas (ONU), integram o grupo.
A relação do Brasil com a Asean hoje é classificada como “parceiro de diálogo setorial”.
Para estreitar a relação, estão previstos um evento em novembro, em Singapura, com a participação da própria ApexBrasil, entidades e setores brasileiros, e um summit organizado pelo bloco, em Manila, nas Filipinas. “Nós estamos muito animados”, afirmou Müller. “Essa relação se encaixa muito na estratégia que nós temos de diversificação.”
Apesar da crise tarifária com os Estados Unidos, a ApexBrasil não pretende abandonar o mercado americano e quer, ao mesmo tempo, diversificar os destinos das exportações brasileiras, afirmou o presidente da agência. Neste ano, ainda conforme ele, foram prospectados cerca de 160 a 170 novos mercados. O número se soma aos cerca de 500 mercados abertos entre 2023 e 2025, se aproximando da meta de 700 novos mercados estabelecida pelo Mdic. Uma abertura de mercado significa a venda inédita de um produto para um país.
