O crescimento econômico da China se recuperou mais do que o esperado no primeiro trimestre, sugerindo até agora impactos limitados da guerra no Irã, mas ainda mostrando poucos sinais de recuperação no consumo.
O crescimento econômico da China se recuperou mais do que o esperado no primeiro trimestre, sugerindo até agora impactos limitados da guerra no Irã, mas ainda mostrando poucos sinais de recuperação no consumo.
Evidenciando a divergência entre os principais setores da economia, a produção industrial cresceu 5,7% em março na comparação anual, superando as previsões. Já as vendas no varejo ficaram abaixo do esperado, com alta de 1,7%, desacelerando frente ao crescimento de 2,8% registrado nos dois primeiros meses do ano.
“O setor industrial permanece resiliente e continua sendo a principal âncora de crescimento no curto prazo”, afirmou Hao Zhou, economistachefe da Guotai Junan International em Hong Kong. “Olhando adiante, a agenda macroeconômica da China provavelmente se concentrará em duas prioridades interligadas: reflacionar a economia e estimular a demanda interna.”
A guerra, agora em sua sétima semana, ainda não comprometeu o impulso observado no início de 2026, em parte graças aos esforços da China nos últimos anos para fortalecer sua segurança energética e proteger sua economia de turbulências globais. Anos de pressão deflacionária também reduziram o impacto imediato do aumento dos preços do petróleo sobre o consumidor.
Apesar de poucos sinais de melhora na demanda interna, a avaliação oficial mais recente da economia provavelmente reduzirá a urgência por novos estímulos, especialmente após Pequim adotar uma meta de crescimento mais flexível, reduzindo sua meta de PIB para um intervalo entre 4,5% e 5% — o mais baixo desde 1991.
A surpresa positiva levou Deutsche Bank e Barclays a elevarem suas projeções de crescimento real do PIB da China neste ano para 4,9% e 4,6%, respectivamente.
O ritmo de expansão chama ainda mais atenção porque, no ano passado, o crescimento foi especialmente forte devido a uma corrida de exportações antes da entrada em vigor de tarifas dos EUA, criando uma base de comparação elevada. Isso levou Mao Shengyong, vice-comissário do NBS, a descrever o resultado como “precioso” diante de um ambiente externo “severo”.
O ritmo de expansão chama ainda mais atenção porque, no ano passado, o crescimento foi especialmente forte devido a uma corrida de exportações antes da entrada em vigor de tarifas dos EUA, criando uma base de comparação elevada. Isso levou Mao Shengyong, vice-comissário do NBS, a descrever o resultado como “precioso” diante de um ambiente externo “severo”.
O rápido crescimento dos setores tecnológicos continuou impulsionando a produção industrial e as exportações, que cresceram 15% no primeiro trimestre em relação ao ano anterior.
A produção de alta tecnologia aumentou 12,5% no período, bem acima do crescimento de 6,4% da manufatura como um todo. Robôs industriais e circuitos integrados cresceram 33% e 24%, respectivamente.
No total, a manufatura respondeu por quase um terço do crescimento econômico no trimestre, segundo Mao.
Como reflexo da crise energética decorrente da guerra no Irã, a produção de petróleo refinado caiu 2,2% em março, indicando que as refinarias reduziram o ritmo de operação para preservar estoques afetados pelo conflito no Oriente Médio.
Em contraste com o forte desempenho industrial, o consumo e o investimento privado continuaram enfraquecendo, tornando a economia cada vez mais desequilibrada. A taxa de desemprego urbano subiu inesperadamente para 5,4% em março, o maior nível em um ano.
O gasto das famílias per capita cresceu apenas 2,6% em termos reais, o pior desempenho desde o último trimestre de 2022. A renda salarial também registrou o crescimento mais lento desde o final daquele ano.
O investimento em ativos fixos aumentou 1,7% nos três primeiros meses do ano, ligeiramente abaixo dos 1,8% registrados no início do ano. O investimento imobiliário caiu 11,2%. Já o investimento privado recuou pela primeira vez fora do período da pandemia de 2020.
“Ainda é cedo para dizer que a China saiu da estagnação”, afirmou Carlos Casanova, economista sênior para a Ásia no Union Bancaire Privée. “A fraqueza do setor privado está alimentando o aumento do desemprego — uma questão política sensível que provavelmente exigirá estímulos direcionados, especialmente considerando o papel do setor privado na geração de empregos.”
Um dos principais fatores de queda nas vendas no varejo foi a redução nas compras de carros, móveis e eletrodomésticos, que recuaram 12%, 9% e 5% em março, respectivamente. Isso reflete o menor impacto dos subsídios governamentais de troca, programa que foi reduzido para automóveis neste ano.
O Politburo do Partido Comunista deve realizar uma reunião no fim de abril para discutir a economia, o que deve trazer indicações sobre futuras políticas.
Alguns economistas esperam apenas medidas direcionadas. As autoridades provavelmente evitarão grandes estímulos até que a economia enfrente uma desaceleração mais significativa.
“Esperamos que os formuladores de política se concentrem na implementação das medidas já anunciadas”, disse Xiaojia Zhi, economista do Credit Agricole CIB. “Eles devem adotar apoio fiscal direcionado para lidar com o choque de preços de energia e aliviar pressões de custo.”
Ela também prevê aceleração do gasto público em projetos estratégicos, já que o conflito com o lrã reforça a determinação da China em fortalecer a segurança nacional. Isso também ajudaria a amortecer pressões de crescimento caso a demanda externa enfraqueça.
Um número crescente de economistas acredita que o Banco Central da China não reduzirá os juros neste ano, devido ao aumento das expectativas de inflação causado pelo choque do petróleo.
Ainda assim, a Bloomberg Economics prevê que o banco central flexibilize a política neste trimestre, reduzindo o compulsório bancário em 25 pontos-base, seguido de estímulos fiscais adicionais ao longo do ano, como forma de sustentar a política de afrouxamento.
Os preços na economia como um todo não subiram no primeiro trimestre como alguns analistas esperavam, embora a queda tenha desacelerado devido ao impacto do petróleo. Os preços ao produtor voltaram a subir em março pela primeira vez após três anos e meio de deflação.
O deflator do PIB — indicador amplo de preços — caiu 0,1% no primeiro trimestre, marcando o 12° trimestre consecutivo de queda.
No entanto, à medida que as empresas chinesas saem do período deflacionário, analistas do Deutsche Bank esperam que a melhora sustentada em vendas e lucros beneficie a economia. A nova projeção do banco indica crescimento nominal de 6,5% neste ano, o maior desde 2022.
“O dado do PIB do primeiro trimestre traz uma mensagem importante: não se trata de estagflação, já que a economia chinesa continua crescendo mesmo com aumento de preços”, afirmaram os economistas do Deutsche Bank. “Um crescimento nominal mais elevado pode melhorar receitas e lucros corporativos, sustentando a recuperação do investimento e da renda das famílias.”
