Apesar do recuo do petróleo registrado como resultado do anúncio de um acordo entre Estados Unidos e Irã, especialistas ouvidos pelo Valor afirmam que ainda é cedo para estabelecer uma nova estimativa de preços. Ontem o barril do tipo Brent, principal referência internacional, fechou cotado a US$ 83,17, queda de 4,76%. No último pregão antes do início do conflito, em fevereiro, a commodity se situou em US$ 72,87 (mais informações em Nasdaq dispara e Dow Jones tem recorde com acordo preliminar ) .
Daniel Osorio, analista da Hedgepoint, avalia que as negociações dopetróleo no mercado futuro ainda descoladas do mercado físico: “Os problemas de oferta de petróleo que vimos ao longo dos últimos meses ainda não foram solucionados. Ainda há um déficit de cerca de 3,85 milhões de barris por dia no mercado de petróleo global”, disse Osorio.
Para Osorio, os próximos meses ainda serão difíceis para o setor de petróleo, mesmo que o encerramento da guerra se confirme nesta semana. O especialista reforça que, ainda que um cessar-fogo seja implementado, será necessário que o Irã retire as minas instaladas no Estreito de Ormuz. Segundo a Reuters, a operação com caça-minas e drones subaquáticos pode durar de 40 a 50 dias.
Para Osorio, ainda é cedo para tentar estimar como podem ficar as cotações do petróleo após o possível fim do conflito. Na visão dele, o preço do Brent deve ter a marca dos US$ 80 por barril como piso.
“Além de precisarmos confirmar a liberação do Estreito de Ormuz por parte do Irã, vamos começar a ver também um aumento de demanda por petróleo por conta da proximidade do inverno no Hemisfério Norte. Vai haver uma busca maior pela commodity e por derivados, especialmente diesel, em países que precisaram liberar estoques por conta da guerra”, disse o analista.
Ele completou: “O mercado físico ainda precisa mostrar o quanto a falta de produto e o quanto a necessidade de voltar a formar estoques vão impactar na demanda. Muitos países chegaram a níveis baixos de estoques estratégicos de petróleo ao longo da guerra e vão precisa recompor.”
Segundo o analista da Hedgepoint, os altos preços dos seguros de frete ainda serão um fator a desmotivar o transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz: “Ninguém vai querer arriscar um navio com dois milhões de barris de petróleo sob risco de explodir. A capacidade limitada de transporte na região deve permanecer”, disse.
Para João Victor Marques, pesquisador da FGV Energia, o acordo entre Estados Unidos e Irã nasce frágil por não incluir Israel, mas ainda assim traz uma sinalização positiva ao mercado: “Israel atacou o Líbano. Não incluir Israel deixa o acordo sob fragilidade. Ainda é necessário construir um caminho para o acordo. O preço do petróleo deu uma resposta positiva para essa sinalização hoje [ontem], mas a normalização dos fluxos físicos ainda vai demorar.”
Para Marques, além do restabelecimento seguro do fluxo no Estreito de Ormuz, ainda vai levar tempo para que as infraestruturas de energia do Golfo Pérsico sejam retomadas. “Além da própria dinâmica do petróleo cru, precisamos ver também os combustíveis. Reduzir o aperto de diesel e querosene de aviação também vai custar tempo.
Mas ainda assim, avalio que o mercado internacional apresentou resiliência. O Brasil foi fundamental para manter o abastecimento de petróleo no exterior e ganhou mais relevância.”Segundo analistas, cerca de 600 navios estão aguardando a liberação na região do Golfo. A normalização da capacidade total de transporte (cerca de 20 milhões de barris diários) depende da tanto da movimentação das embarcações quanto dos reparos na infraestrutura de refinarias afetadas pelo conflito.
