Deputados da maioria dos partidos com assento no Parlamento Europeu cobraram nesta quarta-feira (3) mudanças no acordo comercial fechado entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos, o que suscitou temores de que a frágil trégua transatlântica possa ser rompida.
O Parlamento Europeu ainda precisa aprovar as reduções de tarifas de importação sobre certos produtos americanos que Bruxelas prometeu a Washington como parte do acordo firmado em julho, que prevê uma tarifa de 15% sobre a maioria das exportações da UE para os EUA.
Em uma sessão com a diretora-geral de Comércio da Comissão Europeia, Sabine Weyand, na tarde desta quarta-feira, os parlamentares atacaram o resultado das negociações, por considerar que beneficia mais um lado do que o outro.
Para Bernd Lange, chefe da comissão de Comércio do Parlamento Europeu, é muito provável que o acordo seja alterado durante o processo de tramitação legislativa.
“Ainda existem muitas questões e acho que haverá algumas emendas”, disse ele.
Lange afirmou que a UE deve trabalhar mais rápido para reduzir as tarifas sobre suas exportações de aço e alumínio para os EUA, que continuam a ser de 50% e se aplicam também aos componentes metálicos de produtos como bicicletas e guindastes.
Ele e outros eurodeputados sugeriram ainda uma “cláusula de caducidade”, de modo que as concessões oferecidas pela UE aos EUA deixem de valer em um determinado momento de forma automática, a menos que sejam prorrogadas explicitamente. As reduções de tarifas prometidas pela UE se aplicam a todas as importações de equipamentos industriais e a alguns produtos alimentícios dos EUA.
Kathleen van Brempt disse que seu grupo parlamentar, a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas, se opôs ao acordo por acreditar que ele não só é desfavorável à UE como incompatível com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), já que prevê concessões tarifárias que não estarão disponíveis para outros países. “Não vamos aprovar este acordo sem nenhuma discussão, no automático”, garantiu ela.
Martin Schirdewan, um dos líderes do Grupo da Esquerda, afirmou que a UE tinha “capitulado”. Para ele, “os consumidores pagarão preços maiores, a indústria sofrerá e empregos serão perdidos”.
De extrema direita, o deputado do partido francês Reunião Nacional Thierry Mariani concorda e chamou a UE de “fraca”. Segundo ele, “o presidente (dos EUA, Donald) Trump ditou as regras”.
Anna Cavazzini, do Grupo dos Verdes, observou que Trump ameaçou adotar novas tarifas depois de ter assinado o acordo não vinculativo: “Para mim está bem claro que a estabilidade que esperávamos com o acordo não existe.”
No mês passado, o presidente dos EUA ameaçou impor tarifas retaliatórias ou adotar controles de exportação contra países cujos impostos ou leis “discriminem” empresas de tecnologia americanas.
Membros da coalizão liberal Renovar a Europa também atacaram o acordo.
Esses cinco grupos reúnem 396 dos 725 membros do Parlamento Europeu.
Mas líderes nacionais que temem uma guerra comercial transatlântica podem pressionar os parlamentares de seus partidos a apoiar o acordo na votação final.
Weyand afirmou que a UE tinha um acordo melhor do que o de qualquer outro parceiro dos EUA. Por ele, uma alíquota de 15% se aplicará à maioria das exportações e incluirá as tarifas que já existem. As tarifas sobre automóveis cairão de 27,5% para 15%. Antes que ele fosse fechado, no fim de julho, na Escócia, Trump ameaçara impor taxas de 30% para todos os setores se não se chegasse a um acordo.
A diretora-geral de Comércio também citou indicações de que as exportações para os EUA, à exceção de automóveis, não tinham caído no segundo trimestre, quando tarifas de quase 15% foram aplicadas baixo um regime temporário.
“Os EUA não serão capazes de fabricar todos esses produtos que agora tornaram mais caros para importar”, “, disse.
“Em qualquer negociação, é preciso analisar qual é a alternativa”, gumentou Weyand. Para ela, impedir as reduções tarifárias prometidas pela UE poderia precipitar um “conflito comercial que correria o risco de crescer até sair do controle”.
