Quase sete décadas se passaram desde que um monarca britânico viajou aos Estados Unidos na esperança de reparar uma relação danificada por uma desastrosa aventura militar no Oriente Médio.
Em 1957, a Rainha Elizabeth II encantou o presidente Dwight D. Eisenhower depois que o Reino Unido se juntou à França e a Israel na tentativa de retomar o controle do Canal de Suez do Egito. Amplamente condenadas, as ações britânicas causaram uma crise política interna e reforçaram o status do país como uma potência de segunda linha.
Agora, é a vez de seu filho exercer a diplomacia real, desta vez com os papéis invertidos.
O rei Charles III e a rainha Camilla chegarão a Washington na tarde de segunda-feira, durante a oitava semana da guerra do presidente Trump com o Irã. Desta vez, a recusa britânica em participar da guerra enfureceu Trump e tensionou profundamente as relações entre os dois governos.
Oficialmente, a visita de quatro dias do rei não tem nada a ver com essa disputa. Autoridades governamentais afirmam que o monarca está acima da política do dia a dia e não tem qualquer papel na formulação de políticas ou em comentar assuntos de Estado.
No entanto, existe esperança entre pessoas dentro e fora do número 10 de Downing Street de que a pompa e a solenidade possam lembrar Trump e seus assessores do quanto os dois países têm em comum, enquanto os Estados Unidos celebram seu 250º aniversário neste verão.
Até mesmo Trump, que passou os últimos meses chamando o premiê Keir Starmer de covarde e menosprezando o poder das forças navais britânicas, parece disposto a amenizar a situação, pelo menos enquanto recebe a família real. Questionado pela BBC se a visita do rei ajudaria nesse sentido, o presidente respondeu: “Com certeza. Ele é fantástico. Ele é um homem fantástico. Absolutamente, a resposta é sim.”
Segurança reforçada
A parte cerimonial da viagem começará assim que o rei e a rainha aterrissarem em meio a um esquema de segurança reforçado após o tiroteio de sábado à noite no jantar dos correspondentes da Casa Branca, onde Trump faria um discurso antes de ser retirado às pressas do palco.
O casal real será recebido com uma cerimônia no tapete vermelho e uma festa no jardim — com chá, é claro — oferecida pela Embaixada Britânica. Na terça-feira, o rei se reunirá a sós com o presidente no Salão Oval.
Essa pode ser a parte da viagem de maior risco político. Fotógrafos devem registrar os dois homens sentados lado a lado, mas autoridades britânicas responsáveis pela logística disseram que não há planos para uma sessão de perguntas e respostas no Salão Oval — o tipo de sessão que é comum quando primeiros-ministros e outros chefes de governo visitam a Casa Branca.
No entanto, esse é justamente o tipo de performance política que Trump deseja. Será que o presidente decidirá reclamar de Starmer com o rei sentado ao seu lado? E o que Charles poderia responder, se é que dirá algo?
Essas podem não ser preocupações infundadas. Este mês, Trump disse ao jornal britânico The Telegraph que acreditava que o rei teria adotado uma posição muito diferente sobre a guerra no Irã em comparação com Starmer, acrescentando: “Mas ele não age assim. Quero dizer, ele é um grande cavalheiro.” Será que o presidente tentará obter uma resposta do rei sobre essas supostas divergências?
O rei também pode sentir-se pressionado a responder às ameaças do governo Trump de retirar o apoio americano à soberania britânica sobre as Ilhas Malvinas. Um relatório do Pentágono levantou a possibilidade de retirar o apoio dos EUA ao Reino Unido como punição por não participar dos ataques ao Irã.
A Argentina considera o domínio britânico sobre as ilhas um ato de força colonial. Downing Street observou na semana passada que os habitantes das Ilhas Malvinas votaram anteriormente, em sua grande maioria, a favor de permanecerem como um território ultramarino britânico.
