Empresas driblam tarifas e economizam US$ 300 bi

Cerca de US$ 300 bilhões em bens sujeitos às tarifas do governo de Donald Trump conseguiram evitar essa cobrança, chegando aos Estados Unidos a partir do Sudeste Asiático e do México. O movimento de transbordo expõe vulnerabilidades na aplicação das regras alfandegárias às vésperas de uma revisão do acordo comercial da América do Norte.

As importações dos EUA vindas da China despencaram em 2025 depois de Trump ter aumentado as tarifas. Mas registros em nível de remessas analisados pela plataforma Altana, baseada em IA, mostram que, à medida que novas taxas foram impostas e ajustadas, empresas redirecionaram mercadorias por países asiáticos com alíquotas mais baixas e depois para o México, onde o tratamento sob o acordo EUACanadá-México (USMCA) ofereceu outra oportunidade de economia.

O transbordo não é necessariamente ilegal em um sistema global de comércio no qual a produção e a montagem frequentemente envolvem várias economias, e em que empresas enviam mercadorias por grandes portos para transferir cargas de um navio para outro.

Componentes vindos da China estão sendo cada vez mais usados para fabricar novos produtos em fábricas no Vietnã, por exemplo, que depois são enviados aos Estados Unidos. Rotas ligadas ao USMCA também não são novidade.

“Milhões de remessas destinadas ao USMCA contendo mercadorias com trajetos compatíveis com redirecionamento e evasão tarifária foram registradas desde que o acordo foi ratificado em 2020”, afirmou a Altana em relatório.

A Altana, cuja tecnologia é utilizada pela Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras para fiscalização do comércio, estima que transações suspeitas nos primeiros 10 meses de 2025 cresceram 76% em relação ao mesmo período de 2024, passando de pouco mais de 100 milhões para 188,5 milhões.

O aumento nas remessas suspeitas, entretanto, levanta dúvidas sobre se os produtos que entram nos EUA passaram pelas transformações exigidas em cada etapa do trajeto para realmente se qualificarem ao tratamento preferencial do USMCA.

A questão gira em torno das complexas “regras de origem”, que determinam qual país – e qual tarifa – se aplica a uma remessa. Para que um produto seja considerado vietnamita, por exemplo, insumos intermediários vindos da China precisam atender ao critério de “transformação substancial” antes da exportação para os EUA.

“O algoritmo de detecção de transbordo da Altana rastreia relações da cadeia de suprimentos ao nível das instalações para identificar rotas em que mercadorias se movem da origem para um intermediário e depois ao destino final sem evidência de transformação substancial. Isso indica que parte dessa atividade foi transbordo ilegal”, afirmou a empresa.

Entre os principais objetivos das tarifas de Trump estão o retorno permanente da produção para os EUA e uma redução estrutural da dependência americana de fábricas chinesas.

No entanto, a análise da Altana sugere que o “redirecionamento em resposta às tarifas não está sendo feito por meio da construção de novas cadeias produtivas intensivas em capital, mas sim com o aumento do desvio de mercadorias por redes já existentes de fornecedores, instalações e agentes”

O governo Trump já considera possíveis mudanças nas regras comerciais da América do Norte que aumentariam os custos tarifários sobre importações de automóveis e pressionariam fabricantes a ampliar a produção doméstica. O México, por sua vez, elevou suas próprias tarifas sobre alguns produtos chineses no fim do ano passado.

Em dezembro, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou em evento do Atlantic Council que acordos bilaterais ajudam o país a lidar com questões de transbordo e que discussões sobre o USMCA precisarão abordar regras de origem fora do setor automotivo. “Haverá áreas em que uma discussão trilateral fará sentido, regras de origem são uma delas”.

A principal negociadora comercial do Canadá, Janice Charette, afirmou que espera negociações trilaterais – por exemplo, sobre regras de origem no setor automotivo – combinadas com acordos bilaterais que vão além do acordo “base”

Para avançar na revisão do USMCA, o Canadá quer primeiro revisitar as tarifas setoriais de Trump que afetam setores-chave de exportação, como aço, alumínio e automóveis.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/04/24/empresas-driblam-tarifas-e-economizam-us-300-bi.ghtml

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