Cresce o uso do yuan por empresas russas

Cresceu o número de empresas russas que emitem bônus em moeda chinesa, o yuan, num momento de expansão do comércio com a China, impulsionada pelas sanções ocidentais impostas a Moscou pela invasão da Ucrânia.

Diante da expectativa do encontro do presidente russo, Vladimir Putin, e seu colega chinês, Xi Jinping — numa cúpula regional nesta semana —, uma colaboração financeira mais estreita pode estar na agenda das negociações. Isso inclui a possibilidade de Moscou emitir bônus governamentais denominados em yuans.

A petrolífera estatal Rosneft fez uma oferta pública de 10 bilhões de yuans (US$ 1,44 bilhão) em bônus ontem, informou a mídia russa. A medida se segue a uma oferta de 4,6 bilhões de yuans (US$ 670 milhões) feita pela Polyus, a maior mineradora de ouro russa, no fim de agosto.

A produtora de alumínio Rusal tornou-se em julho a primeira empresa russa a emitir bônus em yuans no território do país. A emissão, composta de duas tranches de 2 bilhões de yuans (US$ 290 milhões) cada e de vencimentos de cinco anos, teria tido volume de subscrições superior à oferta. 

“Vemos uma demanda significativa por instrumentos financeiros desse tipo, tanto da parte dos bancos russos quanto de investidores privados, para os quais a transição para o yuan é uma boa alternativa aos investimentos tradicionais em moeda externa”, disse Alexei Grenkov, diretor de finanças corporativas da Rusal, em comunicado à imprensa.

A Rússia já vinha expandindo o comércio com a China mesmo antes de invadir a Ucrânia. A China respondeu por 18% do comércio exterior da Rússia em 2021, em relação aos 10% de 2012, segundo informações da alfândega russa. 

Os bônus corporativos atraem interesses por serem uma forma de investir os yuans que se acumularam na Rússia. Se a demanda for elevada, as empresas russas poderão captar recursos em condições favoráveis. 

Desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro, o comércio externo da Rússia viu a redução de pagamentos em dólares e em euros devido às sanções impostas pelos EUA e pela Europa. Já os pagamentos feitos em yuans com a China estão crescendo. 

A Rússia passou a ocupar o terceiro lugar em termos de proporção de pagamentos em yuans fora da China continental, segundo a Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (Swift), uma rede interbancária internacional. O volume diário de transações em yuans no mercado de Moscou ficou 12 vezes maior no primeiro semestre, comparado ao mesmo período de 2021. 

As compensações feitas em yuans são especialmente destacadas no setor de energia. A estatal russa Gazpom resolveu neste mês mudar para yuans e rublos os pagamentos das exportações de gás natural para a China — que até agora eram feitos em dólares. O mesmo ocorreu com contratos com a China National Petroleum, que recebe o gás exportado por intermédio de dutos. 

As autoridades russas não divulgaram dados estatísticos desde a invasão. Mas a China relata que suas importações de petróleo bruto russo suplantaram os volumes vindos da Arábia Saudita em maio e ficaram em primeiro lugar. Os pagamentos em yuans podem estar se propagando também para as transações de petróleo. 

O recuo da Rússia no uso do dólar era notório mesmo antes da invasão. O Banco Central do país informa que o percentual de pagamentos em dólar por produtos importados da China superava os 90% em 2013, mas caiu para pouco menos de 60% em 2021. A participação do que a instituição chama de “outras moedas” – que inclui o yuan, mas não o rublo nem o euro – subiu de pouco mais de 2% em 2013 para 27% em 2021. 

O governo russo está pronto para aumentar seus fundos soberanos em yuans. O jornal russo “Vedomosti” informou em agosto que o Ministério das Finanças estuda emitir bônus governamentais em yuans, com o objetivo de atrair tanto investidores chineses quanto compradores internos. 

Considera-se que os preparativos tomarão de um a dois anos. A Rússia está tendo dificuldades em fazer pagamentos em seus bônus do governo denominados em dólares devido às sanções. 

As sanções ocidentais excluíram muitos dos maiores bancos da Rússia do Swift, desencadeando medidas para se integrar à rede alternativa da China. 

Segundo a mídia russa, mais de 20 instituições financeiras do país estão conectadas ao Cross-Border Interbank Payment System (CIPS) desde meados de julho. O CIPS foi lançado pelo Banco do Povo da China, o BC chinês, em 2015, com o objetivo de internacionalizar o yuan. Pode ser usado para pagamentos interfronteiras em yuans. 

Putin pretende reforçar a colaboração com países, como a China, que não aderiram aos EUA e à Europa na aplicação das sanções. Uma cúpula de dois dias da Organização de Cooperação de Xangai liderada por Rússia e China terá início amanhã no Uzbequistão. Além de Xi, o premiê da Índia, Narendra Modi, estará presente. Os EUA e a Europa estão restringindo suas importações de peróleo bruto russo, mas acredita-se que a Índia esteja comprando o petróleo a um preço inferior às cotações referenciais internacionais. 

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2022/09/13/cresce-o-uso-do-yuan-por-empresas-russas.ghtml

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