Alta do petróleo com guerra no Irã faz Rússia ganhar tempo contra estagnação da economia

Desde a invasão da Ucrânia, em 2022, a Rússia vive um dilema. Enquanto a porção de sua economia voltada para guerra vive aquecida, o restante do país vivia um cenário distinto, com cortes de serviços públicos, falta de competitividade e escassez de mão de obra. Após anos seguidos da guerra carregando o PIB russo nas costas, no começo de 2026, o cenário deu sinais de que poderia mudar.

O presidente russo, Vladimir Putin reconheceu publicamente que o PIB do país havia encolhido cerca de 1,8% no combinado entre janeiro e fevereiro, e que setores importantes como manufatura, produção industrial e construção tinham apresentado resultados negativos.

“Espero ouvir hoje relatórios detalhados sobre a situação econômica atual e sobre o motivo pelo qual a trajetória dos indicadores macroeconômicos está, neste momento, abaixo das expectativas”, afirmou Putin na ocasião. “Além disso, abaixo das expectativas não apenas dos especialistas e analistas, mas também das previsões do próprio governo e do Banco Central da Rússia”.

Mas Putin ganhou um respiro após o ataque americano e israelense ao Irã. Desde o começo da guerra no Irã, a Rússia já recebeu mais de 672 milhões de euros de lucro com o aumento do preço do petróleo, uma resposta direta ao fechamento do Estreito de Ormuz.

Os números que maqueiam os índices deram tempo ao Kremlin. e escondem uma economia em risco de estagnação e de pouca margem para desenvolvimento tecnológico.

Embora não divulgados ao público, especialistas ouvidos pelo Estadão acreditam que não é difícil nomear os problemas que têm feito com que a economia russa apresente um declínio, principalmente em meio a um conflito armado.

“A Rússia se encontra em estado de guerra no momento, com muita energia concentrada na luta com a Ucrânia e, possivelmente, também em futuras lutas com a Europa em geral. Eles ainda têm uma enorme quantidade de recursos naturais e, no passado, já usaram isso para conseguir dinheiro, mas acho que o cenário está ficando mais apertado”, afirmou Penelope Naas, vice-presidente de inovação do German Marshall Fund (GMF), um think tank baseado nos EUA.

Dados preocupantes

As características atestam uma clássica economia de guerra: suspensão de verbas para serviços essenciais, como saúde e educação, para aumentar o gasto com equipamento militar, salários de soldados e pensões. Apenas em 2025, a Rússia gastou 7,2% do PIB com esforços na Ucrânia – em 2021, antes da guerra, o total aplicado em defesa era de 3,6%.

A inflação no país continua alta, em torno de 6%, o que elevou a taxa de juros para 14,5%, de acordo com o Banco Central da Rússia. No último dia 12 de maio, o ministério de desenvolvimento econômico da Rússia afirmou que espera que a estagnação dure, pelo menos, dois anos.

Isso significa que, mesmo com a alta do preço do petróleo e com empresas lucrando até o dobro com o preço do barril de Urals, tipo de composto extraído na Rússia – os milhões “a mais” que entram no mercado do país não são suficientes para modificar a estrutura econômica atual.

“A Rússia estava chegando a um ponto realmente crítico no início deste ano em termos de sua economia. A valorização do rublo (pela alta do petróleo) tem sido um fator compensatório em termos de geração de renda”, explicou Penelope. “Então, isso lhes deu um pouco de folga, mas não tanto quanto eles gostariam. E isso está mascarando um pouco da estagnação e da inflação”.

Esse é um fator que faz parte do que o professor e economista russo Vladislav Inozemtsev chama de “crescimento sem desenvolvimento”, em sua pesquisa “Deathonomics: The Social, Political, and Economic Costs of War for Russia”, publicada em fevereiro deste ano.

Economia sucateada

De acordo com Inozemtsev, mesmo com o crescimento do PIB nos últimos anos, a Rússia chegou em 2026 com uma economia em atraso tecnológico e com falta de investimentos em setores produtivos, como aviação civil e eletrônica. A falha em alavancar essas áreas fez com que o país se estabelecesse como um gigante sem capacidade de desenvolver produtos mais sofisticados ou tecnologia de ponta. O crescimento, voltado a bens primários e armamento, sofre com a dependência estrangeira em diversos setores.

O estudo também revela uma crise geral de mão de obra por conta da queda demográfica do país. As baixas militares, o recrutamento para a linha de frente e a emigração de cidadãos para outros países são cruciais para o desequilíbrio econômico.

“(Nesse modelo) é possível produzir mais tanques, mais projéteis, mais munição para uso na linha de frente (da guerra). Mas o maior problema disso é que o país não consegue produzir nada mais sofisticado do que antes, ou nem mesmo reproduzir o que era capaz de produzir anteriormente. Isso é algo que pode ser observado em toda parte. A Rússia está ficando cada vez mais para trás”, explicou Inozemtsev em entrevista ao Estadão.

Guerra impede estagnação

Apesar da situação não indicar um cenário de aumento expressivo do PIB nos próximos meses, ainda é cedo para nomear a taxa de crescimento da Rússia como estagnação, acredita outro especialista em economia russa, Marek Dabrowski.

“Para mim, não há estagnação. Há crescimento, embora não seja uma taxa muito alta. As taxas relativamente altas do PIB em 2023 e 2024 estavam relacionadas ao boom nos setores que atendiam às necessidades da guerra. Depois disso, houve uma tendência de queda, mas não estagnação”, afirmou o pesquisador do Center for Social and Economic Research.

Em seu estudo intitulado Qual a resiliência da economia russa após quatro anos de guerra?, publicado em dezembro do ano passado, Dabrowski diz que o esforço de guerra impediu que o país tivesse uma queda maior no PIB de 2022 e 2023 logo após as sanções pela invasão da Ucrânia. Para ele, a alta da previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) – de crescimento de 0,8% para 1,1% estimado neste ano -, inclusive, reforça esse movimento.

A duração da guerra no Irã também deve ser um fator de impacto direto nos índices. A estimativa do FMI mudou após o alívio de sanções americanas na venda de petróleo russo e, se o conflito continuar, a demanda pode continuar alta por mais tempo.

“É de se esperar que, mesmo que a guerra termine, digamos, até junho, seja muito improvável que os preços do petróleo voltem ao nível anterior do início de 2026, ou seja, US$ 60 por barril de petróleo brent e US$ 50 por barril de petróleo europeu. Muito provavelmente, eles estarão mais altos. Há também o problema de que a maioria dos países esgotou suas reservas, que precisarão ser reconstituídas em algum momento. Portanto, esse será um dos fatores que aumentará a demanda por petróleo, mesmo que a guerra termine”, apontou Dabrowski.

Aliança com a China

Para o analista, a economia russa consegue se manter principalmente porque o país ainda tem muitos parceiros grandes que não fazem parte do grupo de sanções, como a China, por exemplo, que é um dos grandes aliados nas importações e exportações da Rússia.

Segundo o Vienna Institute for International Economic Studies, de 30% a 35% das exportações total da Rússia são destinadas à China. O Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo calculou que, desde o início das sanções, Pequim teria comprado mais de US$ 372 bilhões em combustíveis fósseis.

Do outro lado, a Rússia importou quase US$ 116 bilhões em mercadorias em 2024, incluindo produtos eletrônicos, maquinário e veículos, muitos dos quais substituíram itens de empresas ocidentais que saíram da Rússia depois de 2022.

“O efeito das sanções ao petróleo impostas pelo G-7, pela União Europeia e pelos EUA desapareceu completamente. O sistema tem uma infraestrutura muito frágil de sanções: metade do PIB mundial participa, mas a outra metade não – e essas tentam se beneficiar do redirecionamento das exportações de petróleo das importações para a Rússia. Mesmo antes da guerra, era muito difícil manter essa diferença negativa para o petróleo russo”, explicou Dabrowski.

A alta do petróleo é um alívio fiscal e uma ajuda importante no gasto de guerra e na manutenção dos esforços militares, mas Dabrowski reconhece que o fator não resolve os problemas, não aumenta lucro ou crescimento acima da média para a Rússia.

Consequências para a guerra

A Rússia não vai parar de investir em ativos militares contra a Ucrânia porque a guerra é um objetivo ideológico de Putin, afirma Inozemtsev. A sobrevida que a alta do petróleo dá para a economia russa permite que o país continue seus esforços militares, ainda mais em um momento em que a Ucrânia começa a, lentamente, recuperar alguns de seus territórios ocupados pelas tropas do Kremlin.

“Putin fica quase relutante em relação a qualquer tipo de argumento que tenha a ver com razões econômicas. Putin não se importa com a economia quando está obcecado pela geopolítica e, portanto, a argumentação sobre a guerra não tem nada a ver com economia. Eles terão dinheiro suficiente para continuar como estão fazendo agora”, apontou Inozemtsev.

Penelope, do GMF, lembra que a Rússia ainda tem algumas reservas financeiras e de minerais, e que Putin deve apostar nelas para continuar alimentando o conflito na Ucrânia, mesmo com a estagnação que o país parece enfrentar nos próximos anos.

“Não acho que Putin vá recuar na ideia de que precisa expandir a Rússia de volta a certas fronteiras. Simplesmente não acho que seja o estilo dele”, apontou.

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