Em março de 2025, os Emirados Árabes Unidos comprometeram-se a investir US$ 1,4 trilhão nos Estados Unidos — o maior compromisso de investimento de um único país já registrado. O compromisso, acelerado durante a visita do presidente Donald Trump ao Golfo dois meses depois, abrangia inteligência artificial, semicondutores, energia limpa e a infraestrutura do futuro. Em ambos os países, foi considerado histórico.
Nove meses depois, em meio a um cessar-fogo instável na guerra com o Irã, a região do Golfo avalia as consequências dos mísseis iranianos. A perturbação econômica foi severa: o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz e atingiu a infraestrutura energética, e agora os Estados Unidos declararam um bloqueio naval. Governos em toda a região estão reavaliando o ritmo dos compromissos internacionais que podem sustentar sob pressão. O acordo implícito, como disse um economista, era que esses compromissos de investimento se baseavam em uma estabilidade regional.
Por décadas, a relação entre os EUA e o Golfo foi descrita de forma sucinta: petróleo por segurança. O Golfo fornecia a estabilidade energética; os Estados Unidos, a proteção militar. Mas essa estrutura já estava obsoleta mesmo antes do início da guerra. Os Estados Unidos alcançaram a independência energética. As economias do Golfo estão investindo trilhões para diversificar suas economias e ir além do petróleo. Os termos de troca mudaram fundamentalmente — e isso fica evidente na relação entre os Estados Unidos e os Emirados Árabes Unidos.
O que este momento exige não é uma ruptura, mas o reconhecimento de que a parceria é estruturalmente mais profunda do que qualquer uma das partes reconhece plenamente, e que ela ultrapassou a arquitetura institucional que a governa. Os Estados Unidos e os Emirados Árabes Unidos precisam de uma prestação de contas mais honesta sobre o que devem um ao outro, uma que vá além da aritmética cerimonial dos anúncios de investimento. Requer o reconhecimento de que os Emirados Árabes Unidos não são simplesmente uma fonte de capital, mas também um coinvestidor estratégico na prosperidade compartilhada; que a estabilidade nesta região é a base sobre a qual toda a estrutura se apoia; e que mesmo as parcerias mais fortes exigem uma gestão cuidadosa para perdurar.
Os Emirados Árabes Unidos têm sido o principal destino das exportações americanas no Oriente Médio por 17 anos consecutivos, com o comércio bilateral gerando, em 2025, um superávit de US$ 23,8 bilhões para os Estados Unidos, o quarto maior entre todos os países. Os números do comércio capturam apenas uma dimensão. A Universidade de Nova York tem um campus completo em Abu Dhabi. A Cleveland Clinic administra um grande hospital lá. O Guggenheim está construindo um museu na Ilha Saadiyat.
Sessenta e cinco mil americanos vivem nos Emirados Árabes Unidos; dezenas de milhares de emiratis estudaram em universidades americanas e muitos retornaram com fortes laços com instituições americanas. A empresa de tecnologia de Abu Dhabi, G42, tem parcerias diretas com gigantes americanos como a Microsoft, que investiu US$ 15,2 bilhões em infraestrutura de IA no país. O Departamento de Comércio aprovou a exportação de chips avançados da Nvidia para a G42 por um motivo: essas colaborações servem aos interesses americanos tanto quanto aos emiratis.
Não se trata de petróleo em troca de segurança. É uma parceria de 360 graus — econômica, tecnológica, cultural e humana — que foi construída silenciosamente ao longo de décadas por empresas, universidades, hospitais e milhões de escolhas individuais. É o tipo de relacionamento que as grandes potências passam gerações tentando construir. E ele já existe.
A crise atual tornou o invisível visível. Os Emirados Árabes Unidos não são um receptor passivo das garantias de segurança americanas. São um parceiro ativo que apostou suas estratégias de diversificação e sua riqueza soberana na estabilidade da ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Quando essa ordem é perturbada, as consequências recaem primeiro e com mais força sobre os países mais próximos do conflito.
Os Emirados Árabes Unidos não buscaram esta guerra. Absorveram milhares de ataques a seus aeroportos, portos e cidades. Suas defesas aéreas interceptaram mais de 95% dos mísseis e drones lançados contra eles, segundo o Ministério da Defesa. A resposta do país tem sido defender seu povo, manter sua economia aberta e reafirmar seus compromissos de investimento. Isso é resiliência em ação. Essa determinação não deve ser tomada como garantida.
Não tenho dúvidas de que essa relação sobreviverá à crise atual. As interdependências são profundas demais e mútuas demais. O compromisso dos Emirados Árabes Unidos com os Estados Unidos não está condicionado a nenhuma administração ou conflito específico.
Mas sobreviver não é o mesmo que prosperar. A relação entre os EUA e os Emirados Árabes Unidos tem o potencial de ser a parceria econômica mais importante das próximas décadas para ambos os lados. As empresas americanas veem cada vez mais os Emirados Árabes Unidos como uma plataforma de lançamento para a África, o Sul da Ásia e a região Indo-Pacífica em geral. Por outro lado, a vasta rede de empresas familiares do país, uma força em grande parte inexplorada no investimento transfronteiriço, está pronta para ampliar sua participação na economia americana ao lado do capital soberano dos Emirados.
O sucesso dessa parceria dependerá de ambas as partes a gerirem como o ativo estratégico que se tornou, e não como a mera conveniência transacional que outrora representou.
